Xifópagos

Entraram de mãos dadas, dela a esquerda. Um belo casal, todos concordariam, desses espécimes que, à primeira vista, parecem flutuar sobre o chão, transportados por uma daquelas nuvenzinhas onde pequenos e rubicundos anjos tocam harpa e flauta doce, lugar comum em quadros da Renascença e nas capas dos cadernos escolares de algumas secundaristas japonesas. E assim, grudados, sentaram-se numa mesa qualquer de um restaurante mais qualquer ainda, numa terça-feira de março, uma das quatro. Ele, barba-por-fazer-muito-bem-pensada-horas-antes-no-banheiro, olhar contemporaneamente cool passeando despreocupado pelo ambiente, um “olhar de olhares” — “meta-olhar”, discorreriam filósofos franceses da moda; olhar narcisista, afirmariam psicanalistas argentinos; um olhar muito do besta, diria seu Pereira, porteiro do prédio ao lado do tal restaurante mais qualquer ainda. E naquele momento, o dono do olhar dedicava-se a contabilizar homens e mulheres que, decerto, invejavam-no e/ou cobiçavam-no (respectivamente; ou não). Afinal de contas, portava uma companheira de brilho solar, piercing-que-se-pensa-parnasiano no umbigo à mostra, top e calça de lycra® pretos — ambos no limite da vulgaridade, diziam as sobrancelhas da senhora sentada à esquerda, ou um convite ao sexo selvagem, sugeriam as gotículas de suor nas têmporas do sujeito à direita, de rosto oblongo e camisa de casamento usada quinze anos antes dos quinze quilos a mais, uma considerável quantidade de panículo adiposo em busca de rota de fuga por entre botões de resistência titânica, coisa rara de se encontrar nas confecções made in China de hoje em dia.

Era esse o quadro. Os personagens principais maniatando-se; os secundários, corroendo-se; e o restante da plateia guardando respeitoso silêncio, esperando que a tinta secasse e que providenciassem a moldura para pendurá-lo no MoMA de uma vez por todas. Contudo, alguns elementos modificaram, aos poucos, a plasticidade da cena. Não se sabe se aquele era um amor recente, mas gerou estranhamento a forma com que o romeujulietano casal começara a ingerir o seu repasto. Ele, sentado à esquerda, brandia o garfo em sua também esquerda mão; ela, que só podia estar à direita do amado, parecia confortável empunhando o também garfo com a mão contrária. E os mal-educados cotovelos dos braços restantes, postados sobre a mesa, com mãos de dedos ainda entrelaçados, como se por descuido tivessem sido colados com Super Bonder.

As cores delicadas de um Boticcelli e a suave luz de um Vermeer banhavam o recinto, ladeadas pela inveja dos tantos Iagos ali presentes. Mas coube ao protagonista — e não a algum Iago — macular aquele painel, iniciando, prenhe de ternura, a guinada rumo ao inusitado. Insuspeitadamente, depois de mastigar o conteúdo de sua última garfada, começou a cobrir de beijos cada um dos dedos dela, para então pousar, suavemente, a face direita sobre o novelo de mãos que aquela paixão criara. A reação não tardou, e a bela Vênus — com o perdão do pleonasmo — sorriu-lhe com os lábios cerrados e as bochechas um pouco infladas pela deglutição interrompida, dando um selinho nas duas bordas móveis que contornam a abertura bocal do seu príncipe consorte, para então voltar a concentrar-se no prato que seguia à sua frente, metade ainda por comer. Deu-se assim o primeiro “ruído” na cena, alto o suficiente para que a audiência diminuísse a veemência da mastigação e, com alguma discrição, depositasse ainda mais atenção sobre os personagens centrais. E ele, cioso do seu papel, seguiu entretido com os dedos dela, beijando-os uma vez mais, duas, até o instante em que, sem pestanejar, introduziu, no orifício esquerdo de seu nariz, o dedo mínimo da mão da amada — um dedo de Afrodite, cabe acrescentar, unha pintada de vermelho sangue —, como se o seu próprio dedo fosse. Uma operação que a qualquer um pareceria intrincada, devido aos outros nove dedos seguirem entrelaçados, mas realizada com maestria, como se corriqueiro o ato fosse, a estranhar apenas o rubro do esmalte. E arrematou o gesto com um perscrutante olhar ao redor da unha, para então esfregá-la, despreocupadamente, na manga comprida de sua bela camisa, com a bela amada, mergulhada ainda no seu belo prato, sequer tomando conhecimento do empréstimo do seu belo dedo para tal gesto nada belo.

Era possível ouvir os urros nas mentes da plateia, ver o vingado sorriso de Iago nas sobrancelhas da senhora à esquerda e nas têmporas (agora secas) do sujeito à direita. Era possível, também, ouvir a terra voltar a girar e seguir seu curso normal, ela que interrompera seus movimentos de rotação e translação, minutos antes, por causa daqueles dois anjos, agora caídos, daquele par de deuses, por fim, expulsos do paraíso.

[Republicado, não custa avisar.]

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3 respostas para Xifópagos

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Nhé disse:

    Hahahahaha… que nojento, Ricardo!

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