A gente não quer só comida

Mas não tendo à mão a diversão e a arte de costume, comida serve — apesar dela cobrar um preço alto pra danar.

Falei que iria a uma feijoada domingo, não? Quem dera fosse apenas isso, dizem os pneus aqui ao lado, que da categoria “carro popular” passaram rapidamente para algo entre pick-up e trator. (Comentei de uma esteira que me aguarda mais tarde, lembram? Só por meia-horinha, pois passar disso na atual conjuntura é sério risco de um infarto do miocárdio. Não riam.)

O lugar, como disse, chama-se Barra do Jubiabá. Uma casa bem agradável, numa daquelas praias intermináveis. (Aliás, em se tratando de praias, até aqui é do único tipo que pude ver — mas só passei por duas, de longe, e sequer um mergulho no mar eu dei, aviso logo.)

Na foto, suponho que a cor das cadeiras dê a entender qual a marca das inúmeras garrafas de cerveja que regaram o abundante repasto. Honestas, bem geladas, cumpriram o seu papel de coadjuvantes já a partir dos aperitivos. Estes, por sinal, também disseram a que vieram, abrindo o apetite como lhes cabia. E não foram poucos. A começar por uns amendoins cozidos, diferentes dos sempre torrados que abundam nas praias do Rio de Janeiro, e que foram muito bem substituídos por castanhas de caju em quantidades industriais, de fazer inveja a qualquer gringo que só as viu em míseras latinhas vendidas a peso de ouro. Depois disso, uma sequência digna de Pantagruel: uma travessa cheia de aratu catado, bem temperado, de lamber os beiços. (Para quem não sabe, aratu é um tipo de caranguejo, por sinal dos mais saborosos. Comi duas vezes o que aparece na foto à esquerda. A cerveja não entra na conta.) Em seguida, um caldinho de lambreta, seguido das próprias em sua concha, como suponho que já tenham visto à direita. Ah, já ia me esquecendo: ovos de codorna, dúzias deles.

(Nossa, como a vida pode ser realmente boa, mesmo quando monotemática. Prossigo.)

Caldinho tomado, lambretas sorvidas. Que tal outro caldinho, agora de feijão? Então digo que foi uma bela, belíssima e bem temperada amostra do que viria a seguir: a própria feijoada. A ela, pois.

Aí está uma imagem da bicha, que é pra não dizerem que sou garganta. E este daqui é um dos dois singelos pratos — sim, frugal que sou, foram só dois — de que me servi, bem apimentado, como é da minha preferência. O interessante foi saber que quem preparou a iguaria costuma fazê-lo com feijão mulatinho em vez de feijão preto, que segundo ele resulta ainda mais saboroso. Não vou desmentir o cozinheiro, não é? Ou seja, lá vou eu ter que comer uma nova feijoada em data desconhecida, mas certamente não muito distante. (Colesterol? E eu lá sei o que é isso?)

Para finalizar, uma sobremesa caseira — a foto é da que comi, mas havia outras duas —; depois, o retorno ao meu temporário lar em Aracaju, para tomar urgentemente o café expresso que faltou, a única coisa que me coube preparar; um bom banho, seguido do último filme do Chan-wook Park — meio longo esse último, mesmo descontando o meu intenso processo de digestão —; e, finalmente, o feliz sono dos justos. Pena que injustamente só, o que explica um pouco o porquê de tanta comida, dirão vocês. (Se não disserem, digo eu.)

Agora ao trabalho, porque convém dirigir para algum lugar que preste toda essa energia acumulada.

P.S. Se nos próximos posts eu não conseguir mudar de assunto, tentarei no mínimo abordá-lo por outro prisma. Claro que é tudo pretexto, nós todos sabemos disso. Então que seja, não é?

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18 respostas para A gente não quer só comida

  1. Nhé disse:

    Ricardo, pegando o gancho (de caranguejo? pode ser…) com outro post, será que vc pode estudar a hipótese de fundarmos uma igreja salvadora da última ceia aí nesse paraíso?
    😉

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  2. Feijoada maravilhosa, recomendo aos leitores um zoom nas fotos para verificar os detalhes! Fiquei imaginando o sabor da pimenta em contraste com a cerveja gelada e a deliciosa brisa do mar. Eh vidão!

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  3. Pingback: Ricardo C.

  4. Guilevy disse:

    Tava aqui lendo e rindo da felicidade e prazer escancarados do texto.
    Tinha uma redinha na brisa fresca não?
    PQP, vê se nos poupa das fotos pelo menos. O que os olhos não vêem o estômago não inveja!

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  5. Alba disse:

    Salve, Ricardo!

    Os prazeres da mesa, sempre eles. Lembro de uma visita a Fortaleza, na casa de uns primos, degustando caranguejos. Chato foi o casal abservar, depois de muuuita cerveja, que eu era muito cuidadosa sobre onde apagar o cigarro, mas o deck em volta de mim, que verguenza! 😦

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  6. Gwyn disse:

    Como dizem por aqui..”it’s not fair”..
    e eu aqui com neve para todo lado e um frio de gelar ate o ultimo pedacinho da alma..

    como dizem ai..oooo inveja

    fico a imaginar como deve ser o Natal rsrsrsrs

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  7. El Torero disse:

    Aracaju tem rendido delícias de posts. hehe!!!
    Por aqui as ostras estão gordas e ‘gradas’, como diz o manézinho da ilha.
    Um abraço Ricardo.

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  8. Luiz disse:

    Algo me diz que alguém por estas bandas está precisando conversar com um analista pra ver se resolve essa ansiedade toda.

    Brincadeirinha…

    Se não nos falarmos até lá, Feliz Natal.

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  9. c* disse:

    rc,
    reli 2 vezes e tenho certeza agora, que vc esta falando, và là que seja subliminalmente, de sexo ! essa refeiçao foi uma trepada,das preliminares ao orgasmo. . .

    outro prisma ? sei…:))

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  10. c* disse:

    boas festas de fim de ano a todos !
    por aqui esse ano com neve, champagne, greves e hipocrisia !

    beijos e amizade

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