O que não é o que não pode ser que não é.

O carro que não tranca, que dormiu na rua e que não é meu. A carteira com documentos, cartões e dinheiro esquecida dentro dele. O desespero quando de manhã cedo me dei conta disso que está escrito na frase anterior. O alívio ao encontrar a carteira no mesmo lugar onde a esqueci.

E a constatação de que apesar de agnóstico há décadas e bastante cioso sobre o assunto, enquanto percorria a passos largos e apressados o trecho entre minha casa e o lugar em que o carro estava me vi a repetir, no mínimo umas três vezes: “por favor, meu Deus; por favor, meu Deus; por favor, meu Deus”.

Só pode ter sido má-fé.

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Duas ou três das mil e uma noites

Três doses de whisky vagabundo. E numa tristeza da porra. Sim, o fato dela estar sozinha no hospital neste instante, ela que quase morreu, ela com quem vivo há vinte anos enquanto eles, esses burocratas, esses escrotos mal saídos dos cueiros que nada sabem da gente e que resolveram me impedir de passar mais uma noite naquele sofá vagabundo, forrado de courvin azul claro, daquele tipo de forro de filme de ficção científica de 1962, eles que com seu papel canhestro compõem o quadro todo e viraram parte essencial disso, desse ficar meio perdido, olhando para a tevê, para o gato em cima da pia e para o celular onde odeio escrever qualquer coisa de mais de três linhas.

Parte essencial, mas sem dar conta de tudo. Não da tristeza inteira, essa que antecede a minha companheira que quase morreu três dias atrás e me acompanha há um sem número de luas. Então acho melhor partir para a quarta dose, quem sabe essa ancestral tristeza se esquece de mim e resolve buscar outro, um que ache que a iludiu, quando na verdade ele é o próprio sujeito que a morte foi buscar não aqui, mas lá em Teerã onde o tolinho realmente achou que dava para se esconder.

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Tendências

Há o discurso dedo na cara, cenho franzido, que moraliza de maneira fulanizada e persecutória, buscando que o seu objeto admita, assuma e peça perdão, compungido, embora nunca vá ser de fato perdoado.

Há o discurso escrachado, de humor duvidoso, quase sempre cínico e ao mesmo tempo sonso, que ri da desgraça alheia e debocha dos que desaprovam seu estilo e método.

Há plateias para os dois, com fila na porta para aplaudi-los, muitos com um medo danado de não conseguirem entrar e acabarem sendo o foco de um ou outro um desses discursos.

E para completar, o refrigerante é sem gás, a pipoca é velha, acabou o sal e se você gosta de manteiga é bom saber que ela está um ranço só.

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Efemérides

3 de junho

1553 – Inauguração da Universidade do México.
1749 – Fundada a Universidade do Panamá, denominada Universidad de San Javier.
1875 – Morre George Bizet, músico francês.
1901 – Nasce José Lins do Rego, escritor brasileiro.
1906 – Nasce Josephine Baker, cantora, atriz e dançarina norte-americana.
1908 – Nasce Mário Filho, jornalista brasileiro.
1922 – Nasce Alain Resnais, diretor de cinema francês.
1925 – Nasce Tony Curtis, ator norte-americano.
1926 – Nasce Allen Ginsberg, poeta americano.
1931 – Nasce Raul Castro, militar e político cubano.
1963 – Morre o Papa João XXIII.
1964 Eu nasci.
1965 – O astronauta Edward White realiza um passeio espacial de 20 minutos antes de voltar à nave Gemini IV.
1977 – Morre Roberto Rosselini, cineasta italiano.
1991 – Morre o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder religioso iraniano.
2001 – Morre Anthony Quinn, ator de origem mexicana e eterno Zorba, o Grego.
2016 – Morre Muhammad Ali, lutador norte-americano.

Dia de São Carlos Lwanga, santo católico e mártir durante o reinado de Muanga II, de Buganda.
Dia conscientização contra a obesidade mórbida infantil.
Dia do Escrevente de Cartório.

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Cosme Velho

E se eu te disser que ontem, quando fui te ver no seu apartamento de três quartos, me espantei do amplo que é porque lembra muito o meu em Brasília, anos setenta, só que ao redor é bem mais arborizado já que percebi dentro dele o tipo de luminosidade que só encontramos debaixo de uma árvore frondosa – tá, frondosa é meio cafona, mas não lembrei de outra palavra –, imagine você sentada no pé de uma mangueira, sol de meio-dia, mas daquele típico sol de outono só que um tiquinho mais amarelado-alaranjado? Cheguei pela escada, o que, convenhamos, tornou a visita ainda mais gostosa do tanto que você gosta de escadas. Aquele guarda-corpo de ferro preto e corrimão de madeira lisinha, carrada de tempo nas costas, sério mesmo, adorei, sinal do bom gosto que você tem. Subi um andar só, acho, pois a escada vinha da rua direto pro seu apartamento, né? Sei não, vai que nem apartamento é e sim uma dessas casas suspensas por pilotis meio Le Corbusier. Bom, não importa, o que vale mesmo é ser um andar só, já que eu não cheguei ofegante, certeza que nem em sonho eu teria fôlego pra vencer mais do que dois lances de escada sem pôr os bofes pra fora. Enquanto te dava aqueles dois beijos regulamentares daqui do Rio, vi Maliu atrás de ti com metade do corpo pra fora do quarto, o da segunda porta à esquerda, olhando na nossa direção e me cumprimentando, dizendo em seguida o F. tá dormindo ainda, adoro o timbre da voz dela e os óculos e aqueles cabelos de um branco tão lindo. Depois que os óculos que adoro tocaram de leve nos meus assim que fui dar os mesmos dois beijos regulamentares nela, cheguei na porta seguinte, de novo à esquerda, onde o F. respirava deitado de costas para a porta, tão bom que seguia vivo apesar do flerte recente dele com, você sabe. Sim, vivo, deu pra notar por conta do sobe e desce do edredom e do ressoar de leve, bem diferente do meu ronco entrecortado de episódios de apneia, tenho que ver isso de uma vez porque está piorando.

(Me diga uma coisa, até aqui você conseguiu visualizar um pouco do que estou te contando? Tô me esforçando a beça, juro.)

Vi que o chão do corredor era de madeira, só não muito escura como a daqueles casarões antigos de fazenda de café ou de engenho de açúcar, sei disso porque eu teria ficado olhando, hipnotizado, do tanto que adoro aquelas tábuas corridas que falam com a gente numa língua bem própria quando pisamos nelas descalços, de preferência. E as paredes brancas não precisam mesmo de quadros, ficou claro pra mim vendo o quanto aquelas sombras de folhas mexidas pelo vento bastavam, se houvesse quadros o mais provável é que eu também ficasse do mesmo jeito que te falei antes caso o chão fosse de tábua corrida, madeira cor de mel de fumo. Deixamos o F. dormir, apesar do peso no ar por causa daquele sono embalado pelo flerte recente dele com, você sabe, e falamos mais um pouco enquanto eu sentia que faltava alguma coisa que só entendi depois, cadê os cinco gatos que não passam de dois e o cachorro, como é mesmo o nome dele? Ah, Otelo. Mas mesmo com os bichos ausentes devo dizer que o bom dessa conversa toda, o que teve de mais bacana pra mim foi ter podido te visitar só porque bateu vontade e saí daqui de casa, peguei o metrô até o Largo do Machado e de lá um ônibus, mas não o exigido pela lógica, que só poderia ser um interestadual que me levasse ao Brooklin Velho, mas outro, saindo do mesmo metrô Largo do Machado, subindo a rua das Laranjeiras, passando pela entrada da rua da Renata até chegar ao Cosme Velho, por sinal um bairro que é a tua cara, que bom que você se mudou pra cá depois que ganhou na Mega-Sena acumulada, trinta milhões, correu ontem, não foi? Ainda bem que sonho não obedece o tempo dos prêmios, dos bancos, da compra de casas meio Le Corbusier entre as árvores do Cosme Velho que pode que sejam apartamentos, um tempo que talvez seja ontem ou amanhã e com isso matou ou ainda vai matar as saudades imensas que tenho de ti, que tal eu preparar um café antes que a gente comece a chorar?

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Um e outro

Não é difícil, para alguns, afirmar como é óbvio que Deus não existe, que se trata de pura ficção, mera crença sem fundamento. Tampouco é difícil, para os que creem em Deus, garantir que sua existência é cristalina, mais do que evidente, só não vê quem não quer. Complicado mesmo, enquanto ateu, é tentar entender como alguém pode não ter qualquer dúvida de que Deus existe (ou melhor, que Deus é). De maneira análoga, não é nada fácil para quem crê em Deus conceber que alguém não perceba quão evidente Deus é.

Compreender a possibilidade de outra visão de mundo que não a sua: quero ver é você dar conta disso. E mais, sem pressupor que a sua própria visão de mundo é superior àquela que difere da sua.

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Sinuca de bico

Faço porque quero. Faço porque posso. E gozo com isso. E mais quero fazer o que quero. Porque posso. Mas sempre tem um mas, é só passar o tempo e ele aparece. E neste caso é o gozo, aquele inaugural, que não é mais o mesmo: sua intensidade e sabor não chegam nem perto. E sem mais gozar do jeito que quero com o que faço porque posso, sobrevém a frustração e o tédio.

Não há novidade nisso, é uma sequência para lá de comum, antiga como a roda. (Talvez mais disseminada, menos restrita a grupos privilegiados.) Mas há um problema, talvez tão comum quanto: qual tem sido a estratégia mais frequente para lidar com a questão? Respondo o que provavelmente você está cansado de saber: aumentar a dose, aumentar a frequência, “vestir” o objeto de desejo com outras roupagens, tornando-o em tese mais atraente, mesmo sem saber (ou querer saber) que o gozo almejado vem menos dele e mais do que posso fazer com ele.

Lamento dizer, mas o resultado, nas poucas vezes que for positivo, será efêmero. E insistir nessa estratégia não mudará as coisas.

Curioso é ver como o narcisismo e o individualismo contemporâneos, tão incentivados (e mesmo cultuados) socialmente, têm piorado o quadro. Porque eles nos fazem tomar como singular uma busca que é comum, um modo de existir onde os outros quase sempre são objetos, poucas vezes outros como nós. E justamente por passarmos boa parte do tempo olhando o umbigo como se fosse o mundo, só nos damos conta de que também somos objetos para os outros quando o desejo e as atitudes deles para conosco nos afetam de maneira negativa. Aí a gente estrila, bate o pé, se descabela, impreca contra esse mundão injusto de (ou sem) Deus, logo a gente que é tão (escreva aqui a maneira como você se percebe e que torna o que andam fazendo de ruim contigo uma baita sacanagem).

Dito isso tudo, o que fazer? Como mudar esse modo de ser tão antigo e ainda assim tão contemporâneo? (Sim, estou te perguntando. Ou você acha que eu teria uma bela, edificante e prazerosa resposta para te dar?)

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