Posta Restante, um excerto

Mas pensei em te escrever pra contar do meu dia. Pouca coisa, só o de mais importante para mim. É que foi um dos difíceis, como boa parte deles nesse último ano e meio, começando pela dificuldade de levantar — te disse que acordei às 3, mas não que tentei dormir pelo menos um pouquinho, fechando os olhos às 6 para abri-los às 7:00 –, culpa dessa danada de ansiedade gerada pela carga de trabalho y otras cositas más que não vem ao caso detalhar. Mesmo assim levantei, me vesti e saí pro trabalho, passando pela feira das quartas na praça aqui perto de casa, a caminho do metrô. E ao atravessar a praça e a feira, depois de dar um passo mais largo para vencer um charco enlameado e chegar à calçada, me vi voltando na direção de um casal de velhinhos que trazia um carrinho abarrotado de compras e parecia não saber como chegar na calçada sem sujá-lo inteiro, ainda por cima com receio de escorregar na lama, daí que carreguei o carrinho com o maior prazer e o senhor dizendo não precisa e eu respondendo que ele já deve ter ajudado muita gente ao longo da vida e a senhora soltando um Deus te pague e eu silenciando meu agnosticismo-doido-por-um-debate pelo fora de hora e lugar para tal e respondendo com meu não há de que ao agradecimento do casal para então rumar, sorrisão nos lábios, até a estação Siqueira Campos do metrô.

Dez horas depois, já no caixa do mercadinho para levar salada, suco, queijo, manteiga e pão para casa, ao recolher as sacolas de compras desejei à empacotadeira tenha um bom descanso e melhoras nessa dor nas costas, com ela sorrindo ao ver que prestara atenção em sua queixa à moça do caixa, quando então arrematei com um tente alongar um pouco antes de dormir, um obrigado de sorriso mais largo ainda emoldurando a resposta dela, nem sei como conseguiu falar sorrindo tanto assim.

É fato que a vida anda dura pra mim, mas essas singelas iniciativas escoteiropollyannicorricardianas que vez ou outra cometo têm tido um valor tremendo, me animam a seguir em frente e ainda por cima fazem eu acreditar que apesar do Rio de Janeiro estar muito mal das pernas e ter levado a saúde física e mental de sua população junto, pelo menos por alguns minutos ao dia eu sinto resistir galhardamente, como costumava dizer alguém da família, não lembro se pai ou avô, e que só de usar esse advérbio de modo para te contar minhas singelezas não é que renovei o meu próprio sorriso?

Beijos carinhosos e desculpe a demora,

Ricardo

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Primeira primeira vez

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.*

Todo dia.

E de tanto cotidiano, do tanto que o viver da gente é um tal de repetir, chega-se à impressão de que uma boa parte dele só tem variações mínimas, cosméticas, e que até mesmo as grandes mudanças e as experiências-limite — a formatura no ensino médio, o nascimento dos sisos, a primeira passeata, o enterro do avô —, se não se repetirem em nossa própria vida, decerto vão acontecer na do amigo, do vizinho ou do colega de trabalho do andar de cima, aquele que você só viu uma vez no elevador porque resolveu sair pra almoçar mais cedo. Ou seja, o caso é que mesmo mudando a cor do cabelo, deixando a barba crescer e trocando o sofá de lugar, nós todos experimentamos as coisas de um jeito meio parecido, jeito de Todo dia tudo sempre igual nesse intervalão entre o nosso choro na chegada e o dos outros na despedida.

Tudo sempre igual todo dia não. Porque na sexta-feira passada isso que acabei de dizer deu um revertério só. Coisa de cinco e meia, quando cheguei ao prédio e dei de cara com apenas um elevador funcionando e com um rapazinho encostado na parede esperando para subir. Pensando bem, justo na hora em que cheguei a porta do elevador estava fechando e não fez muito sentido vê-lo subir sem o rapazinho ter entrado nele. Mas isso eu só pensei bem alguns minutos mais tarde, quando finalmente o elevador chegou e nada do moço entrar, por isso fui na frente. E se já faltara sentido antes mesmo de eu ter pensado sobre, agora sim achei um tantinho estranho o rapazote desses comuns, bermuda-tênis-camiseta-óculos-e-dezenove-anos, só resolver entrar depois de mim e ainda falar que o elevador vai para o oitavo andar. Como não entendi muito bem a frase, já que não era uma pergunta, comentei que sim, o elevador vai pro oitavo. “É que eu nunca andei de elevador”,  disse ele, com a mesma voz baixa e a falta de entonação que antes me confundiram, e eu rapidamente completei que também ia pro oitavo, que já tinha apertado o botão e quando finalmente saímos avisei que quando quisesse descer deveria apertar aquele botão na parede, o de baixo, esperar a porta se abrir e uma vez lá dentro apertar o botão com a letra A que o levaria até a portaria e à saída do prédio, tudo isso dito meio de lado, já quase virando no corredor sem querer olhar muito pro moço, puro receio de constrangê-lo por conta do sorriso que se formara em meu rosto e que passava longe do deboche, um sorriso de espanto e contentamento não tanto pela primeira vez daquele rapazinho subir num elevador, mas da minha própria vez primeira presenciando algo assim, dessas que não imaginei ainda restarem reservadas para mim e ainda por cima avisando, com todo carinho, que nem tudo é sempre igual todo dia, só prestenção, viu?

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Trecho de “Cotidiano”, de Chico Buarque.

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Quatro de junho de dois mil e dezessete

Ontem uma amiga me deu os parabéns por conta do meu aniversário, contou estar grávida e que com a família crescendo se vê feliz, bem feliz. Outra, anteontem, sem saber do meu aniversário, depois de uns dez anos ou algo parecido mandou um email retomando o contato, eu sem notícias dela estar ou não viva, e disse que agora mora em Amsterdã, casada com uma holandesa, que abriram um pub e que por conta disso tudo se vê feliz, bem feliz.

E eu até então quieto, a 9.577 quilômetros de Amsterdã e a uma vida inteira de ter filhos, me vi tocado por todos os costados, inacreditavelmente contente com mais um moleque vindo por aí e pelo amor dessas duas mulheres que de tão intenso aportou na minha praia, invadiu minha casa e disse: Ricardo, sabe, apesar de tudo, mesmo sem você dar muito crédito, tem uma pá de gente desentortando a vida, pondo is nos pingos e arredondando quadrados, sabe? Então sorria, e se der, gargalhe. Porque dá, meu caro, ô se dá pra arregalar os olhos diante de um mundo sempre capaz de te pregar surpresas intensas, imensas, incensas, mesmo com você crente que não deveria mais esperar por nada parecido.

Não sei de amanhã, já que é segunda-feira. Mas hoje, neutralizando qualquer porção de desencanto ou melancolia, uma gravidez e um amor lésbico me disseram que esse mundão sem deus ainda tem cartas na manga com uma potência ímpar, então tome tento e faça o favor de acreditar, viu?

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Um gosto ora bom ora ruim, ora.

Meio-dia e meia, a hora em que cheguei na avenida Atlântica. Uma concentração até que significativa, pena que só se estendia pelo quarteirão entre a Figueiredo de Magalhães e a Siqueira Campos. Muitas bandeiras e vários balões da CUT e de outras centrais sindicais, como não podia deixar de ser sobre um evento convocado também por eles. Até ambulantes traziam coletes vermelhos, mas as roupas da turma não tinham alguma cor que predominasse. Rê e eu tratamos logo de encontrar adesivos para colar em nossas camisetas pretas; afinal, a ocasião assim pedia. Como não encontramos ninguém distribuindo naquela hora, perguntamos a uns garotos totalmente adesivados onde tinham conseguido os deles e, com o maior coleguismo, devo reconhecer, os garotos resolveram nos oferecer alguns dos que ostentavam orgulhosos, “podem pegar os que quiserem”. Eu buscava por um que tivesse escrito eleições gerais e diretas já; a Rê por sua vez queria um das diretas na cor branca e pronto. Quando vimos, cada um já estava bem com uns quatro. O clima, mais de festa do que de revolta, vinha envelopado por uma névoa que não lembro de ver por aqui há tempos. Inevitável imaginar que as dezenas de ambulantes fazendo churrasquinho em plena avenida ajudassem a engrossá-la — quantidade bem mais significativa do que a turma dos cannabistas, esses sim mais escassos do que o esperado, vai ver muitos por restrições médicas, convém evitar excessos ao chegar a certa idade. Enquanto isso, sobre o caminhão que centralizava o comício uma das filhas do Taiguara, acho que a Imyra, cantava “Universo no teu corpo” — quase escrevi “Universo em desencanto”… –, essa mesma do

Eu desisto
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
E uma gente que não viva só pra si

Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

E é por isso que eu preciso
De você como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor.

Aquilo, claro, foi bem mais do que um indicador. (E o meu autodenunciado ato falho foi só um complemento.)

Algumas pessoas começaram a aparecer no alto do carro de som. Uns sem abrir a boca, outros falando bem — Bete Mendes, minha querida vizinha! –, enquanto terceiros eu bem preferia que não tivessem se manifestado. Foi só uma certa deputada do PCdoB começar a discursar e achei melhor entrarmos num restaurante e almoçar. Se demorássemos mais alguns minutos ali, perigava lembrar dos anos de apoio do partido dela a diversas administrações pouco louváveis desta cidade, o que acabaria por me tirar o apetite. Então fomos, almoçamos e voltamos já sem o risco do estômago vazio.

Havia tudo que é tipo de gente, como previsto. Até o povo do “volta, Dilma” deu o ar da graça, embora fossem minoria, considerando que não era exatamente essa a pauta, apesar da quase unanimidade quanto ao uso do termo “golpe”. Cabelos grisalhos junto com a molecada desconstruída, uns e outros com seus bottons vermelhos de “diretas já!” que supus tirados de velhas caixas empoeiradas guardadas há décadas e feitos para a emenda Dante de Oliveira. (Não eram os antigos, apesar do jeito de.) E esse cheiro de trinta e três anos atrás misturado à fumaça de churrasquinho e aos chicobuarqueanos “Apesar de Você” e “Vai Passar” deram em mim e na Rê arrepios tanto de emoção quanto de um melancólico amargor: como assim ter que entoar esses cantos, de novo, e por motivos tão parecidos?

É, aquele foi o meu sinal. Já ouvira Bete Mendes, Teresa Cristina, Otto, Mart’nalia, Osmar Prado e outros mais. Tinha até muita vontade de ver Mano Brown, Caetano e Milton, imaginar se diriam algo para além de suas canções, mas aquela fora mesmo a minha cota deste domingo, com um quê de déjà vu escasso do frescor de décadas atrás. (Sorte minha não ver fantasmas. Já pensou o Ulisses, o Teotônio e outras tantas figuras surgindo no meio do fog e do fumacê os churrasquinhos? Credo, te esconjuro, pé de pato mangalô treis veis!)

Mas tudo bem, garanto que vou renovar minhas energias. Afinal, é só o começo da trabalheira que ainda dará (e daremos). E o que importa, o que importa mesmo é que amanhã vai ser outro dia. Porque tem que.

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Não é sobre Logan

Quinta-feira passada estive em Nova Friburgo, a trabalho. Como terminei bem tarde, somando cansaço e notícias de um temporal que ainda caia no Rio, a prudência mandou que eu só voltasse na manhã seguinte.

Tarde pra acabar de trabalhar, mas não pra pensar em dormir, então resolvi ir ao cinema. Sim, Logan. Ingresso comprado, faltava meia-hora para começar a sessão, então falei mais uma vez com Rê e depois liguei pra Fal, há tempos que não jogava conversa fora com ela. E, claro, depois dos como vai fulana, sicrana, a saúde dos bichos todos, falei da bobagem que estava prestes a ver, pois sabe como é, burro velho vendo filme de super-herói não vai ser besta de falar com amiga de longa data com o papinho mole de que é porque parece ser mais soturno, violento, voltado pra adultos e tal. E a Fal responde animada, dizendo que também tá doida pra ver, que por sinal ultimamente não perde um filme com esses personagens já mais velhos, no ocaso mesmo, dos que têm que lidar com decadência física, doenças e a proximidade da morte, um pouco porque o horizonte dessa realidade já não parece tão distante assim da gente, né Ricardo? E a danada ainda por cima disse isso rindo e me fez rir também, um riso antibiótico, desses de amplo espectro, que começam na graça, batem no nervoso e voltam pra graça, só que uma volta filho pródigo, dessas cheias de marcas, algumas sem nem cicatrizar direito, quem mandou ficar cutucando as casquinhas?

Falamos mais algumas besteiras, para não perder o hábito. Nos despedimos mandando beijos pra todos, bichos inclusive, e fui ver a tal bobagem dita soturna e violenta sobre um mutante de idade avançada, sentado na cadeira 5 da fileira J, sem dar conta de esconder de mim o quanto as motivações da Fal também são minhas. Então só me resta pedir que vá logo ver esse filme, menina, pra eu ligar pra você de novo e poder rir antibioticamente de uma pá de coisas dessas nossas vidas bestas com o Logan no meio. Demora não, tá?

[Também veio do facebook. Fazer o que se aquela desgraça faz tudo se perder?]

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Ontem e hoje

Sabe qual é a diferença? É que dez anos atrás havia certo orgulho no ar, visível quando conversávamos com gente de fora do Brasil. Era uma sensação nova para muitos de nós, diferente daquela vivida nos primeiros anos da redemocratização. O que sentíamos há dez anos era a possibilidade de finalmente observar mudanças em certas estruturas antes vistas como constitutivas da nação e, por isso, até então inamovíveis. Claro, havia o contexto exterior favorável, as commodities em alta, o emprego formal nas alturas. Tudo isso ajudou a encobrir uma enorme quantidade de equívocos em diversas políticas públicas, falhas bastante graves e em certa medida eclipsadas por conta dos consideráveis resultados na diminuição da pobreza a pela forte impressão de que finalmente caminhávamos para a diminuição real dos inacreditáveis índices de desigualdade social que sempre foram a nossa marca registrada.

E aqui abro um parêntese. Esse quadro me fez lembrar de um filminho pipoca de 1990, “tempo de Despertar” (Awakenings), com Robert de Niro e Robin Williams. Nele, Williams representa o neurologista Malcon Sayer, que ao conseguir emprego num hospital psiquiátrico se depara com vários pacientes aparentemente catatônicos, mas que sente estarem só “adormecidos” e que, se medicados da maneira correta, poderiam ser despertados. Ele recebe autorização para utilizar um medicamento (a L-Dopa) em Leonard Lowe (de Niro), paciente há décadas naquele estado. Gradualmente, Lowe se recupera e o médico passa a administrar a droga em outros pacientes. É tocante vê-los “acordar” e tentar recuperar o tempo perdido em suas vidas, só que, infelizmente, aos poucos o medicamento para de fazer efeito e tudo volta ao que era antes, ao estado adormecido que caracterizara boa parte dos pacientes daquela instituição.

Dez anos. E o tal orgulho virou um imenso constrangimento — ou, em termos mais pessimistas, voltou a sê-lo –, com o gigante retornando à catatonia habitual.

Essa é a diferença.

[Guardo aqui o que publiquei no facebook. Talvez assim eu não o perca de vista.]

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