Textãozinho

O texto, ah o texto. O que pede por favor, me escreva, não importa que tudo falte, que te falte. Então fale. O que for, mas fale, mesmo que hoje não falte quem. Apesar de, mas fale. Só não com a boca, que essa não carece. Do que você precisa — ou em todo caso parece que — é fazer as pazes com o rascunho, sair desse imenso silêncio, dessa mudez prolongada. Pode que sobrem razões para afirmar o contrário, que não escrever é o justo, que tudo que da sua parte havia a registrar já está por aí, em pixel, que restaram aparas, o reciclado da reciclagem. Mas vai que você se enganou e, com um pouco de exercício — mas não dois dias e sim dois, três, dez anos –, o que pensava ter acabado reaparece, justo pelo acúmulo de ácido lático, pelo coração saindo pela boca, cento e oitenta e cinco batimentos por minuto que aos poucos chegam a setenta e dois, expira, inspira.

Inspira?

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Quinta-feira

Rio de Janeiro, 18:45. Final de Fevereiro. Avenida Niemeyer. Ônibus linha “Integrada 2″, cheio. Para no ponto da favela do Vidigal. Ela embarca. Loura, cabelo preso, cara de poucos amigos. Forte. Muito forte. Fisiculturista. Abre passagem pelo corredor lotado, calça legging com meião. Olhares discretos, receosos. Pudera, a camiseta avisa: “Tá pesado? Faz balé”.

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Então é Natal

De: Xxxxxx
Enviado: 24 de dezembro de 2015 11:27
Para: xxxxxxxxxxxxx@xxxxxxx.com
Assunto: Natal 2015

No próximo Natal eu e os meus próximos amigos e colegas do Liceu Pedro Nunes teremos 80 Anos (Frederico, Raul, Souto, Velasco, Viana). Temos a saúde suficiente e a cabecinha, embora já tenha tido melhores dias, ainda está operacional. Do grupo de Estudo e Noitadas dos anos 50 só um morreu: o Pedro Ferreira. Recorda-mo-lo de vez em quando. Os mortos são recordados menos vezes que merecem, alguns dizem: é a vida! Era um amigo seguro e certo (como se dizia na Política).

Quando eu era novo um homem de 80 anos era um velho. Hoje achamos que isso é um disparate. Quem tem razão ? Ontem ou Hoje? Que se lixe a constatação!

Aqui estamos para as curvas (não muito apertadas porque podemos ficar tontos)!

Em 2016 espero que continuaremos “unidos como os dedos da mão” e com uma Esperança cautelosa nos Futuros Brumosos.

“Viva a Malta Trema a Terra daqui ninguém arredou”

Um abraço a todos

Natal de 2015/6

António Cabral

* * * * *

De: Ricardo Cabral <xxxxxxxxxxx@xxxxx>
Data: 24 de dezembro de 2015 16:20
Assunto: Re: FW: Natal 2015
Para: Xxxxxx

Senhor António,

Quero crer que sua missiva tenha sido dirigida a outro Ricardo que não este que lhe responde. Suspeito, inclusive, que vivamos em continentes diferentes, o senhor e eu, já que minha escrita difere da sua, embora permita que nos façamos entender — pelo menos assim espero. E devo acrescentar que consideraria mais curioso ainda se sua mensagem fosse endereçada a um parente seu, dado o comum dos nossos sobrenomes. Quem sabe até um filho, por que não?

Perdoe se em poucas linhas fui tão longe em minhas especulações sem sequer colocá-las em perspectiva, correndo o sério risco de ter sido indelicado com tantas conjecturas. E antes de explicar-me, deixe-me dizer que o erro de remetente resultou no que pode ser expresso por um provérbio português muito conhecido cá no Brasil: “atirou no que viu, acertou no que não viu”. É que eu, Sr. António, tão pouco afeito a festejos natalinos, não pude deixar de abrir um inusual sorriso com sua mensagem. E sem mais delongas, explico-me: o seu nome é igual ao do meu pai, exceto pelo acento agudo no primeiro “o”, coisa que o Antonio dele não portava. Aliás, o pretérito imperfeito do verbo portar não é fortuito. O Antonio Cabral que conheci faleceu há vinte e quatro anos e alguns meses e faria oitenta e dois anos em 2016, diferente dos seus futuros oitenta. Mas não quero constrangê-lo com essa informação, creia, pois foi da leitura do seu email que sobreveio o segundo sorriso. Deu-se justo quando o senhor falou sobre um amigo seu já falecido, a quem recorda de vez em quando, e acrescentou que “os mortos são recordados menos vezes que merecem, alguns dizem: é a vida!” Sim, estou totalmente de acordo. Sem saber o senhor me fez recordar alguém de quem faz tempo não lembrava, alguém que até onde sei tampouco era tão ligado assim em festejos natalinos, apesar de encontrar valor no caráter simbólico que eles carregam para muitos. E aí está a graça, ao menos para mim: um simples engano, um email de Feliz Natal que caiu na minha caixa postal, ter virado um singelo e inesperado presente, algo que há muito não recebia nestas datas.

Ah, pelo fato de tratar-se de uma mensagem encaminhada a vários remetentes, sei que bem o quão improvável é que o Ricardo a quem a dirigiu seja um filho seu. Não importa, uma criança de 51 anos ficou contente mesmo assim.

Atenciosamente,

Ricardo Cabral

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Trifeta* combinada**

20150207_155033Sábado almocei um pintado na brasa nesse lugar da foto ao lado. Nenhuma maravilha, nada que me faça salivar quando lembro, nem que me dê vontade de voltar a esse lugar(-)comum em Copacabana, de clientes, na maioria homens, com idade entre cinquenta e cinco e setenta e cinco; com cervejas, chopes, cachaça, água pros que têm gota, tira-gostos; e risadas, conversas em voz alta, bem alta, gritada. Isso enquanto não começam os páreos. Porque na parede, ali no lugar onde deveria estar a cópia amarelada e engordurada da gravura imitando Goya que ainda dá o tom melancólico a muitos botecos cariocas abertos por espanhóis e portugueses lá pelos anos 30 tinha uma tevê, sem som, sintonizada no canal de turfe. Até aumentarem o volume e os gritos sumirem, nem mais um pio se ouvia, pelo menos não até a hora em que fui embora. Porque vai que normalmente eles gritam, vai que tem torcida feito jogo de futebol. Vai que eles brigam, provavelmente roucos, porque não dá pra imaginar que consigam gritar mais alto do que quando conversam.

Ou dá pra imaginar sim, eu é que não consigo. Ou consigo, mas tenho preguiça. Bom, nem sempre é preguiça, às vezes não é do meu interesse. Mas não total desinteresse. Fica uma fresta, suficiente pra pensar no assunto e querer escrever sobre. Uma fresta na fronteira entre o que sei e o que ignoro. Porque ainda não disse, mas essa área com bem mais do que cinquenta tons de cinza e um manancial de angústia difícil de quantificar é uma fonte danada de curiosidade e potência. E o que ajuda a lidar com elas é a fresta. Porque se tudo estiver escancarado eu não sei se dá pra sobreviver sem surtar.

Mas deixe eu voltar ao canal de turfe com aqueles números todos ao redor de uma imagem, por sinal bem parecido com esses canais de bolsa de valores, Bovespa, Nasdaq e coisa e tal e que só pela comparação que acabei de fazer dá pra notar que não entendo nada de turfe e nem de bolsa de valores. E aproveito o ensejo pra pôr no bolo o jogo do bicho, outro que me é um enigma. Aliás, reparando bem, os três têm apostas, dinheiro e sonhos nas entranhas; e tirando o dinheiro, eu também tenho. Mas o que importa agora é que não entendo mesmo nada daqueles três universos. É que não consigo. Ou consigo, mas tenho preguiça. Bom, nem sempre é preguiça, às vezes não é do meu interesse. Mas não total desinteresse. Porque em todos esses mundos sobre os quais eu disse que não entendo nada tem gente, gente que dá pra ver pelas frestas, gente sobre quem eu quero saber, aprender, pouco importando se querem ou não me ensinar. Mas não quero saber tudo. Porque mesmo não tendo sido desse jeito que falei antes, eu gosto um bocado das áreas verdadeiramente pantanosas, cheias de segredos, mistérios e mesmo perigos que existem entre aquilo que conheço e a minha infinita ignorância. E gosto das pessoas que por ali circulam. E das frestas, não posso esquecer das festas, que é pra olhar com cuidado, discrição e depois decidir se abro a porta de uma vez ou se fecho e volto na semana que vem, no mínimo, e quem sabe aprendo a investir na bolsa, porque no turfe e no jogo do bicho acho que não levo o menor jeito.

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*A modalidade de apostas denominada Trifeta consiste no apostador indicar, na ordem, os animais que obtiverem o primeiro, o segundo e o terceiro lugares no páreo.

** Trifeta combinada: consiste na indicação de, no mínimo, 3 animais que deverão combinar entre si nos três primeiros lugares do páreo, independentemente da ordem de chegada.

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Historietas para boi dormir

Era um puta mala, inconveniente como poucos. Adorava sacanear todo mundo, com a garantia de que não perdoaria nem a mãe, se o cretino tivesse uma. Fazia isso nas festas, nas reuniões de família, de trabalho. Até num enterro ele aprontou, falando mal do morto, contando seus supostos podres, ele que nunca tinha nem visto o dito cujo na vida. Só não foi expulso porque tinha as turmas do deixa disso e dos que puseram sua inconveniência na conta do luto, esse troço visceral que produz reações pra lá de estranhas nas pessoas.

Mesmo os muito amigos ficavam irritados com seus excessos. Resultado: colecionava desafetos, uma carrada de.

Foi quando morreu. Velado pelos mais próximos, pelos parentes e até pelos amigos irritados, todos fizeram o que se costuma fazer em ocasiões como aquela: lembraram da vida do morto, e nesse caso, também de suas inconveniências, que já não lhes pareceram assim tão pesadas. Até graça viram em uma ou outra — ou uma e outra, passadas algumas horas.

Até que apareceu um dos colecionados desafetos. E  mais outro. E sem pensar muito nem combinar nada entre si resolveram destilar sua indignação na frente do caixão e dos presentes, desfiando com raiva e aos berros uma a uma as impertinências, agressões, ofensas, grosserias e outros tantos substantivos femininos e masculinos que faziam parte do rosário de inconveniências do defunto. E os parentes do dito cujo e seus amigos já não mais irritados ficaram perplexos, constrangidos, alguns até conseguindo ser empáticos em relação aos ofendidos recém chegados (mesmo agora ofensores), embora reprovassem sua atitude. Porque aquilo seguia sendo um velório, ora bolas, e mesmo que não existisse alma, espírito ou algo do tipo, era um evento que unia muitos em torno de uma dor comum, ainda que dor particular, contraditória, mistura de tristeza, pena, saudade, desconsolo, raiva e outros tantos substantivos femininos e masculinos que fazem parte do rosário de experiências daqueles e de tantos outros muitos. Ou seja, não era a hora, ou pelo menos não a melhor. Porque fosse o que fosse que os desafetos pretenderam com aquela catarse toda, o que de fato conseguiram foi serem inconvenientes, do mesmo jeito que o morto costumava ser. Vá lá que não tanto como ele, mas aparentados, sem dúvida.

E como é hora de terminar, só mais uma coisa. Se o morto desta historieta vivo fosse, morreria de novo, só que de rir. Provavelmente teria adorado assistir às inconveniências dos outros, nem que fosse pelo menos uma vez.

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Horizonte

Criticar ideias, opiniões, não seus emissores.
Votar em projetos, não em pessoas.
Usar a mesma medida — ou vá lá, uma bem próxima — para avaliar o que pensam e expressam amigos, conhecidos, desconhecidos e desafetos.
Ouvir o que o outro diz como se fosse a primeira vez.
Moderar a melancolia.
Modular a alegria.
Surpreender-me, sempre.

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Te digo qué se siente

abuelas-de-la-plaza-de-mayo-messi-mascherano-lavezzi“Messi e Mascherano apoiam a luta das avós da Praça de Maio”, dizia a matéria onde encontrei essa foto. É notícia velha, anterior à Copa, mas que vale ser reeditada por ter contribuído para outra, bem recente: o belo desfecho que foi o encontro entre Guido e sua avó, Estela Carlotto, tão bem retratado por Liniers na imagem abaixo.

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Agora, cá entre nós, não é vergonha invejar, neste nosso Brasilzão, o quanto os argentinos estão à nossa frente no trato de suas pendências, na sua relação com a abjeta ditadura que marcou suas vidas. E sejamos honestos, caprichando na autocrítica: nessa seara perdemos de goleada, um certo 7 x 1 chega a ser placar modesto se pensarmos no tanto que ainda precisamos avançar.

Por isso peço que sejamos justos, ou melhor, que não sejamos injustos. Porque esperar uma campanha parecida, encabeçada por Neymar e outros tantos astros do nosso futebol é, no mínimo, uma tremenda sacanagem com esses meninos. E digo mais, é tão equivocado quanto creditar a Messi, Mascherano e demais estrelas do futebol argentino uma especial noção de cidadania e direitos humanos, uma maturidade política que não se vê nos seus colegas brasileiros. Porque glorificar indivíduos sem considerar o contexto em que se inserem é um jeito simplista e tolo de entender a realidade. Nesse sentido, é preciso considerar que Mascherano e Messi vêm de um país que revogou suas abjetas leis de anistia para militares que cometeram crimes contra a humanidade durante sua sangrenta ditadura, isso há 11 anos. Um país que julgou e prendeu boa parte das cabeças dessa ditadura, estendendo o julgamento aos responsáveis civis por esses crimes. Ou seja, muito diferente do que ocorre no país de Neymar e companhia — sem desmerecer pelo menos o enorme esforço da nossa Comissão Nacional da Verdade, que fique claro.

Por isso te digo qué se siente: inveja, admiração e uma boa dose de esperança de que possamos fazer algo parecido nestas paragens. Mas inveja não de Messi ou de Mascherano, vale dizer, e sim daquilo que o conjunto da sociedade argentina têm feito em relação ao seu passado, construindo o cenário onde aqueles moços bons de bola registraram seu engajamento.

Só num contexto parecido os nossos meninos bons de bola poderão cogitar fazer algo semelhante. Antes disso acontecer, será pedirle peras al olmo*.

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* Árvore da família das Ulmáceas, nativa da Europa, alcançando até 30 metros de
altura. Suas flores são pequenas e dão origem à frutos secos, não comestíveis.  (Dicionário Informal)

 

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