Um e outro

Difícil não é, para alguns, afirmar como é óbvio que Deus não existe, que se trata de pura ficção, mera crença sem fundamento. Tampouco é difícil, para os que crêem em Deus, garantir que sua existência é cristalina, mais do que evidente, só não vê quem não quer. Complicado mesmo, enquanto ateu, é tentar entender como alguém pode não ter qualquer dúvida de que Deus existe (ou melhor, que Deus é). De maneira análoga, não é nada fácil para quem crê em Deus conceber que alguém não perceba quão evidente Deus é.

Compreender a possibilidade de outra visão de mundo que não a sua: quero ver é você dar conta disso. E mais, sem pressupor que a sua própria visão de mundo é superior àquela que difere da sua.

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Sinuca de bico

Faço porque quero. Faço porque posso. E gozo com isso. E mais quero fazer o que quero. Porque posso. Mas sempre tem um mas, é só passar o tempo e ele aparece. E neste caso é o gozo, aquele inaugural, que não é mais o mesmo: sua intensidade e sabor não chegam nem perto. E sem mais gozar do jeito que quero com o que faço porque posso, sobrevém a frustração e o tédio.

Não há novidade nisso, é uma sequência para lá de comum, antiga como a roda. (Talvez mais disseminada, menos restrita a grupos privilegiados.) Mas há um problema, talvez tão comum quanto: qual tem sido a estratégia mais frequente para lidar com a questão? Respondo o que provavelmente você está cansado de saber: aumentar a dose, aumentar a frequência, “vestir” o objeto de desejo com outras roupagens, tornando-o em tese mais atraente, mesmo sem saber (ou querer saber) que o gozo almejado vem menos dele e mais do que posso fazer com ele.

Lamento dizer, mas o resultado, nas poucas vezes que for positivo, será efêmero. E insistir nessa estratégia não mudará as coisas.

Curioso é ver como o narcisismo e o individualismo contemporâneos, tão incentivados (e mesmo cultuados) socialmente, têm piorado o quadro. Porque eles nos fazem tomar como singular uma busca que é comum, um modo de existir onde os outros quase sempre são objetos, poucas vezes outros como nós. E justamente por passarmos boa parte do tempo olhando o umbigo como se fosse o mundo, só nos damos conta de que também somos objetos para os outros quando o desejo e as atitudes deles para conosco nos afetam de maneira negativa. Aí a gente estrila, bate o pé, se descabela, impreca contra esse mundão injusto de (ou sem) Deus, logo a gente que é tão (escreva aqui a maneira como você se percebe e que torna o que andam fazendo de ruim contigo uma baita sacanagem).

Dito isso tudo, o que fazer? Como mudar esse modo de ser tão antigo e ainda assim tão contemporâneo? (Sim, estou te perguntando. Ou você acha que eu teria uma bela, edificante e prazerosa resposta para te dar?)

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Solidão, que poeira leve

E você lembra que foi na página 177 que leu a palavra “tensoku”. E que na seguinte dizia ser o método chinês de colocar os pés das meninas à força num sapato pequeno para que não crescessem. E que ficou na dúvida se a palavra era chinesa, já que o método vinha de lá, ou se era a sua versão japonesa, porque a explicação fora dada por um professor japonês – e o autor do livro também era japa. E um dia você acorda lembrando disso; e trata de dividir com mais gente – supondo que muitos leram o mesmo livro, já que ele foi bem avaliado nas resenhas de 2012 e a humanidade costuma ser sensível à opiniões alheias que carregam ares de autoridade no assunto –; e esconde de si mesmo a crença de que essa experiência, por mais que possa parecer coletiva, comum, compartilhada, essa experiência em que todos os não japoneses ou não chineses sem conhecimento enciclopédico que passam pelas mesmas páginas 177-8 e veem pela primeira vez a palavra “tensoku” e descobrem o que significa é só isso, uma crença, e que o mais alto grau de experiência comum que ela possa parecer guardar não muda o fato de que há um abismo, uma solidão intransponível que nos constitui e não há rede social no mundo que mude isso, porque todos nós vamos morrer sós por mais que estejamos cercados por uma multidão de amigos, parentes e contatos do facebook.

Bom dia!

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Trabalenguas

Tegucigalpa, Kota Kinabalu, Tlacotalpan. Nhandeara. E Fez, claro, pegando o ferry boat em Algeciras como se fosse pra Itaparica. Por quê? Porque sonoras. “Onde você mora?” “Te-gu-ci-gal-pa”, com todas as sílabas bem tônicas. “Pra onde você vai?” “Ué, pra Tla-co-tal-pan, fincar raízes, passando primeiro em Nhandeara, que os sequilhos de lá são dos deuses”. E antes que você pergunte: porque sim, deu a hora. Só não queira saber hora de que, porque estou é contando os segundos.

Entendeu nada, não é? Pois lamento, ainda mais por te deixar em má companhia — a minha, claro que.

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Posta Restante, um excerto

Mas pensei em te escrever pra contar do meu dia. Pouca coisa, só o de mais importante para mim. É que foi um dos difíceis, como boa parte deles nesse último ano e meio, começando pela dificuldade de levantar — te disse que acordei às 3, mas não que tentei dormir pelo menos um pouquinho, fechando os olhos às 6 para abri-los às 7:00 –, culpa dessa danada de ansiedade gerada pela carga de trabalho y otras cositas más que não vem ao caso detalhar. Mesmo assim levantei, me vesti e saí pro trabalho, passando pela feira das quartas na praça aqui perto de casa, a caminho do metrô. E ao atravessar a praça e a feira, depois de dar um passo mais largo para vencer um charco enlameado e chegar à calçada, me vi voltando na direção de um casal de velhinhos que trazia um carrinho abarrotado de compras e parecia não saber como chegar na calçada sem sujá-lo inteiro, ainda por cima com receio de escorregar na lama, daí que carreguei o carrinho com o maior prazer e o senhor dizendo não precisa e eu respondendo que ele já deve ter ajudado muita gente ao longo da vida e a senhora soltando um Deus te pague e eu silenciando meu agnosticismo-doido-por-um-debate pelo fora de hora e lugar para tal e respondendo com meu não há de que ao agradecimento do casal para então rumar, sorrisão nos lábios, até a estação Siqueira Campos do metrô.

Dez horas depois, já no caixa do mercadinho para levar salada, suco, queijo, manteiga e pão para casa, ao recolher as sacolas de compras desejei à empacotadeira tenha um bom descanso e melhoras nessa dor nas costas, com ela sorrindo ao ver que prestara atenção em sua queixa à moça do caixa, quando então arrematei com um tente alongar um pouco antes de dormir, um obrigado de sorriso mais largo ainda emoldurando a resposta dela, nem sei como conseguiu falar sorrindo tanto assim.

É fato que a vida anda dura pra mim, mas essas singelas iniciativas escoteiropollyannicorricardianas que vez ou outra cometo têm tido um valor tremendo, me animam a seguir em frente e ainda por cima fazem eu acreditar que apesar do Rio de Janeiro estar muito mal das pernas e ter levado a saúde física e mental de sua população junto, pelo menos por alguns minutos ao dia eu sinto resistir galhardamente, como costumava dizer alguém da família, não lembro se pai ou avô, e que só de usar esse advérbio de modo para te contar minhas singelezas não é que renovei o meu próprio sorriso?

Beijos carinhosos e desculpe a demora,

Ricardo

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Primeira primeira vez

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.*

Todo dia.

E de tanto cotidiano, do tanto que o viver da gente é um tal de repetir, chega-se à impressão de que uma boa parte dele só tem variações mínimas, cosméticas, e que até mesmo as grandes mudanças e as experiências-limite — a formatura no ensino médio, o nascimento dos sisos, a primeira passeata, o enterro do avô —, se não se repetirem em nossa própria vida, decerto vão acontecer na do amigo, do vizinho ou do colega de trabalho do andar de cima, aquele que você só viu uma vez no elevador porque resolveu sair pra almoçar mais cedo. Ou seja, o caso é que mesmo mudando a cor do cabelo, deixando a barba crescer e trocando o sofá de lugar, nós todos experimentamos as coisas de um jeito meio parecido, jeito de Todo dia tudo sempre igual nesse intervalão entre o nosso choro na chegada e o dos outros na despedida.

Tudo sempre igual todo dia não. Porque na sexta-feira passada isso que acabei de dizer deu um revertério só. Coisa de cinco e meia, quando cheguei ao prédio e dei de cara com apenas um elevador funcionando e com um rapazinho encostado na parede esperando para subir. Pensando bem, justo na hora em que cheguei a porta do elevador estava fechando e não fez muito sentido vê-lo subir sem o rapazinho ter entrado nele. Mas isso eu só pensei bem alguns minutos mais tarde, quando finalmente o elevador chegou e nada do moço entrar, por isso fui na frente. E se já faltara sentido antes mesmo de eu ter pensado sobre, agora sim achei um tantinho estranho o rapazote desses comuns, bermuda-tênis-camiseta-óculos-e-dezenove-anos, só resolver entrar depois de mim e ainda falar que o elevador vai para o oitavo andar. Como não entendi muito bem a frase, já que não era uma pergunta, comentei que sim, o elevador vai pro oitavo. “É que eu nunca andei de elevador”,  disse ele, com a mesma voz baixa e a falta de entonação que antes me confundiram, e eu rapidamente completei que também ia pro oitavo, que já tinha apertado o botão e quando finalmente saímos avisei que quando quisesse descer deveria apertar aquele botão na parede, o de baixo, esperar a porta se abrir e uma vez lá dentro apertar o botão com a letra A que o levaria até a portaria e à saída do prédio, tudo isso dito meio de lado, já quase virando no corredor sem querer olhar muito pro moço, puro receio de constrangê-lo por conta do sorriso que se formara em meu rosto e que passava longe do deboche, um sorriso de espanto e contentamento não tanto pela primeira vez daquele rapazinho subir num elevador, mas da minha própria vez primeira presenciando algo assim, dessas que não imaginei ainda restarem reservadas para mim e ainda por cima avisando, com todo carinho, que nem tudo é sempre igual todo dia, só prestenção, viu?

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Trecho de “Cotidiano”, de Chico Buarque.

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