Geni

​- Tudo de ruim diz respeito ao outro, então a culpa do nosso sofrimento é dele. E tudo de bom diz respeito ao outro, então a culpa do nosso sofrimento também é dele.

– Acho que entendi. Mas e no plano coletivo, no macro, no estrutural, como funciona?

– Ah, é muito complexo, são variáveis demais, é muito esforço e angústia pra tentar entender. Melhor a gente focar só no outro mesmo, já que está ao alcance da mão.

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Do que

As covardias, os auto-enganos, os adiamentos, as avestruzices, todos falam da nossa condição humana e sim, têm lá sua hora e lugar. Às vezes são a dimensão da verdade que suportamos, a pausa para respirar entre uma dor e outra. Em casos assim não se deve desprezá-los tanto, exceto se você abusar deles – ou eles abusarem de você, tanto faz. Nesses casos, convém mesmo fazer-lhes frente com os recursos que dispuser.

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Bisavôs do século dezenove tinham disso

Suspeita-se que o ocorrido tenha se dado nos (pra lá de) idos de 1905, durante sua defesa de tese de doutoramento, intitulada “Relação entre a matéria e os fenômenos espíritas” – título curioso, considerando o ateu declarado que era.

Há de ter sido nos finalmentes da defesa, quando um dos membros da banca resolveu perguntar ao já quase doutor:

– Senhor candidato, explique o que é vácuo – sucedido assim, de bate pronto:
– Vácuo, Excelentíssimo, é o que o senhor tem na cabeça!

Gargalhadas da plateia, risos sufocados dos demais membros da banca e um novo desafeto para a coleção do ateu doutor, aprovado com louvor.

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Rua do Passeio

​Na entrada de um prédio, em meio à multidão de pedestres apressados, um casal de não mais que vinte e cinco se beija. Ele no rés do chão, ela três degraus acima, compensando a diferença. Beijo de cinema. Demorado, rostos virando de um lado pro outro, em câmera lenta, olhos primeiro cerrados, depois semi-abertos no intervalo em que sorriram ao pausar para respirar. Sim, de cinema, aquele conhecido truque onde o foco da câmera está no centro da imagem e tudo em volta corre tão veloz que se vê borrado.

Só ficou um porém. Praqueles dois terá sido mesmo um beijo de parar o tempo, de borrar o mundo ao redor e de fazê-los um? Ou nada de um pois permaneciam dois, de olho no que os rodeava, se não olhos certamente ouvidos, atentos, buscando sinais de aprovação, de espanto, da inveja que os confirmasse para um mundo-platéia, uma audiência doadora de sentido, que pelo sim ou pelo não fizesse valer aquele beijo na entrada de um prédio na rua do Passeio?

Será que não?

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Independência ou

Não adianta. No que me diz respeito, o dia 7 de setembro continua pertencendo à ditadura militar. Fazer o que, é algo arraigado ao sujeito que sou, esse que nasceu justo no ano do golpe aquele. E mais, essa rejeição se repete na minha relação com outro símbolo pátrio: o hino nacional. Explico. É que quando ocorre de tentar cantá-lo − e sempre internamente, não consigo fazer de outra forma −, eu nunca lembro a letra inteira. Não lembrar é pouco, o caso é mais profundo que isso: simplesmente não sei cantar o hino nacional completo e não lembro se um dia eu já soube. São pequenezes, irrelevâncias, sim, mas que em relação a minha identidade fazem considerável diferença, mais ainda neste ano de 2016.

Bom feriado a todos.

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Textãozinho

O texto, ah o texto. O que pede por favor, me escreva, não importa que tudo falte, que te falte. Então fale. O que for, mas fale, mesmo que hoje não falte quem. Apesar de, mas fale. Só não com a boca, que essa não carece. Do que você precisa — ou em todo caso parece que — é fazer as pazes com o rascunho, sair desse imenso silêncio, dessa mudez prolongada. Pode que sobrem razões para afirmar o contrário, que não escrever é o justo, que tudo que da sua parte havia a registrar já está por aí, em pixel, que restaram aparas, o reciclado da reciclagem. Mas vai que você se enganou e, com um pouco de exercício — mas não dois dias e sim dois, três, dez anos –, o que pensava ter acabado reaparece, justo pelo acúmulo de ácido lático, pelo coração saindo pela boca, cento e oitenta e cinco batimentos por minuto que aos poucos chegam a setenta e dois, expira, inspira.

Inspira?

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Quinta-feira

Rio de Janeiro, 18:45. Final de Fevereiro. Avenida Niemeyer. Ônibus linha “Integrada 2″, cheio. Para no ponto da favela do Vidigal. Ela embarca. Loura, cabelo preso, cara de poucos amigos. Forte. Muito forte. Fisiculturista. Abre passagem pelo corredor lotado, calça legging com meião. Olhares discretos, receosos. Pudera, a camiseta avisa: “Tá pesado? Faz balé”.

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