O que deixou de ser

Privado. Íntimo. Que só confessor, seja padre, pastor, rabino, xamã, terapeuta ou querido diário tem acesso. Nem amigo sabe. Tem ideia do que seja? Já ouviu falar? Leu nos livros ou alguém te contou que algo assim já existiu num breve momento da história da humanidade?

E você, que não só sabe bem o que é como trabalhou com afinco para desmontar muitos podres, fantasmas, monstros e armadilhas que lá se escondiam (ou que você mesmo escondeu)? Já imaginou, depois de tanto esforço e elaboração sobre o que ali habitava, o quanto de refúgio que também encontrava por lá, na penumbra de um daqueles quartos? Suspeitava da falta que um dia poderia sentir dali?

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Quase isso

As tuas contradições, as situações paradoxais em que te envolves ou as decisões que tomas, especialmente as que estão em desacordo com princípios que costumas defender, você classifica como maturidade, aquilo que é possível fazer e ser à raiz da constante negociação entre o ideal e o real.

Já nos outros, na melhor das hipóteses, são um sinal de alienação, isso quando não forem a inequívoca expressão de um pragmatismo cínico ou da falta de caráter mesmo.

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Atraso

Vai ver foi o bem-te-vi da árvore aqui em frente, cantando nas horas menos bem-te-vianas que já tive notícia. Ou os braços direitos de doze feirantes martelando madrugada adentro, tabicando e aprumando suas barracas junto com outros três de braços esquerdos e mais cinco ambidestros como em toda quarta-feira que se preze, até na de Cinzas. Pode que fosse coisa do 737 e do E-190 a seiquantos pés pra cima e a seiquantos quilômetros mais daqui rumo a São Paulo, Campinas, o senhor quer uma barrinha de cereal com suco de laranja e café aguado?, sem falar no moço varrendo a calçada, e em mais um nem tão moço lavando o carro, e nos micos, uma família inteira guinchando quero fruta, mas chega de banana, quero é kiwi, grapefruit, nêspera, carambola, umbú e cupuaçú, tem graviola?, e de novo o bem-te-vi agora pedindo calem a boca que eu quero dormir, tô exausto, cantei a madrugada inteira. E ainda não contei a Rê à minha esquerda, ressoando de leve, dizem que é sinal de cansaço então melhor deixá-la assim, dormir nem que só mais um pouco, hoje a jornada deve ser linda e longa pra ela. Mas e se não for nenhum deles? E se justo essa grande sinfonia dodeca e cacofônica estiver noutra freguesia, noutro plano, noutra década? E se eu só fiz ou faço narrá-la, entre nostálgico e conformado com o destino de mais um dia, só que de sonhar nem parei ainda? E se na verdade a culpa for da dor de ouvido que começou ontem à tarde, seguiu suportável até Morfeu e o cansaço me fazerem dormir e depois o cocuruto, o meu insondável cocuruto resolvesse me pregar uma peça, me fazer achar que acordei por conta dessa barulhada toda, mas na verdade ainda nas primeiras horas de sono fiquei surdo feito a dona Nena do 302 com seus noventa e um anos e que até o ano retrasado saía sozinha por esse mundão sem deus, crente que ia voltar, e hoje não sai mais porque morreu ano passado; surdo feito porta, o que é estranho se pensarmos que porta nenhuma escutou na vida; surdo feito um morto, que esse sim já foi vivo e se não nasceu surdo escutou; tão surdo, mas tão surdo que foi isso, o meu insondável cocuruto ficou com pena de mim e trouxe uma barafunda de lembranças dos sons que me acordaram nos últimos vinte e um anos, pelo menos os anos com a Rê, e assim tive a impressão de que foi só mais uma madrugada que virou manhã e com isso me atrasei pra ir pro trabalho, droga, não vai dar tempo nem de tomar café.

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E se lá eu estivesse?

…eu lembro de você lá, cuidando de tudo naquele apartamento enorme, te vendo vestir o corpo do seu avô. Talvez você não tenha essa imagem, tão ocupado em ser prático. Mas eu te vi tão só, uma solidão imensa, e achei aquilo tão injusto, tão injusto…

[De uma conversa ouvida hoje. As palavras podem ter sido um pouco diferentes, razão da falta de aspas, mas o conteúdo foi esse mesmo, com algumas lágrimas entre as pausas, impossíveis de esconder.]

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Agradeço muito.

Eu torço, mas torço muito por uma virada e que no dia 28 de outubro o Haddad consiga tornar-se presidente, certo de que os meus motivos até que são fáceis de entender. Porque votar a favor da continuação da nossa democracia, de evitar que o pouco que avançamos se perca e ver a desigualdade social, ainda tão grande, aumentar muito mais me parece meio óbvio, embora nada trivial. E daria para desfiar um sem fim de motivos pelos quais nesta eleição não concebo como presidente o outro candidato, especialmente porque levo a sério tudo aquilo que ele reiterou inúmeras vezes ao longo de sua vida pública e em seus votos no congresso. Só que o que me traz aqui agora não é ficar falando das minhas razões a favor de um e contra o outro. O que quero dizer hoje é o quanto admiro, admiro de verdade, a quantidade de pessoas que apesar de não gostarem do PT por motivos vários e que vêm sendo a todo instante pressionadas, desqualificadas e criticadas, hora tratadas como alienadas e imbecis, hora como fascistas, elitistas ou no mínimo coniventes com posicionamentos misóginos, racistas, homofóbicos e antidemocráticos, ainda assim vão votar no Haddad não só por motivos semelhantes aos meus, mas por outros mais nobres e que possivelmente me faltam. Peço então que resistam, que sigam firmes, generosos, que tolerem esses ataques e um dia depois das eleições sigam tão críticos quanto acharem necessário, até como oposição qualificada ao governo do Haddad. Porque a causa é realmente maior e sem o seu apoio nós todos, repito, nós todos temos muito a perder. Muito obrigado a vocês.

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Não tá morto quem peleia

Tem aquela história do primo do irmão de um colega de escola, lá com seus dezoito anos, que depois de deixar uma amiga em casa ouviu do amigo e vizinho, sentado no banco do carona: “Imagina a gente voltar pra casa de marcha à ré?”. Pois o motorista não se fez de rogado, engatou a ré e começou a andar assim em direção à casa. O amigo primeiro riu, depois disse “para com isso”, então falou “deixe de ser criança”, de novo sem sucesso, depois xingou o amigo — e nada –, daí resolveu inverter a tática e mandou um “então vai, acelera!” e o primo do irmão do colega de escola nem tchuns, firme, de marcha à ré, até o amigo e vizinho no banco de carona entender que nada o demoveria daquela loucura e se encolher no banco, mudo, sem ter mais o que fazer, metade do caminho já vencida.

Não lembro do dia em que essa história se deu, mas tenho para mim que era um domingo, sete de outubro, lá pelas dez da noite. Porque depois da incredulidade do amigo, da preocupação, desespero e depois raiva, seguidos de um silêncio de puro desalento, o primo do irmão do colega de escola resolveu parar, manobrar e tomar o rumo de casa de outra forma, de um jeito mais vinte oito de outubro, mudando aquele retroceder tão equivocado, decerto com a ajuda daquele tempo para refletir sobre a direção a tomar e como prosseguir — uns vinte um dias, diria eu.

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Ambos pela manhã.

Considerando a incômoda presença de um ou dois sintomas achei por bem dar crédito a um ou dois especialistas e com suas prescrições em punho passei em uma ou duas das redes mais conhecidas e encontrei uma ou duas frases de efeito que num piscar ou dois de olhos disseram a que vieram e com efeito a raiva não só reapareceu como também aumentou em muito mais que um ou dois graus e me fizeram lembrar de uma ou duas das razões que me levaram a sair daquela rede e da outra e agora acrescentaram mais um ou dois motivos para seguir distante delas por mais um bom tempo, melhor dois para garantir.

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