E se lá eu estivesse?

…eu lembro de você lá, cuidando de tudo naquele apartamento enorme, te vendo vestir o corpo do seu avô. Talvez você não tenha essa imagem, tão ocupado em ser prático. Mas eu te vi tão só, uma solidão imensa, e achei aquilo tão injusto, tão injusto…

[De uma conversa ouvida hoje. As palavras podem ter sido um pouco diferentes, razão da falta de aspas, mas o conteúdo foi esse mesmo, com algumas lágrimas entre as pausas, impossíveis de esconder.]

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Agradeço muito.

Eu torço, mas torço muito por uma virada e que no dia 28 de outubro o Haddad consiga tornar-se presidente, certo de que os meus motivos até que são fáceis de entender. Porque votar a favor da continuação da nossa democracia, de evitar que o pouco que avançamos se perca e ver a desigualdade social, ainda tão grande, aumentar muito mais me parece meio óbvio, embora nada trivial. E daria para desfiar um sem fim de motivos pelos quais nesta eleição não concebo como presidente o outro candidato, especialmente porque levo a sério tudo aquilo que ele reiterou inúmeras vezes ao longo de sua vida pública e em seus votos no congresso. Só que o que me traz aqui agora não é ficar falando das minhas razões a favor de um e contra o outro. O que quero dizer hoje é o quanto admiro, admiro de verdade, a quantidade de pessoas que apesar de não gostarem do PT por motivos vários e que vêm sendo a todo instante pressionadas, desqualificadas e criticadas, hora tratadas como alienadas e imbecis, hora como fascistas, elitistas ou no mínimo coniventes com posicionamentos misóginos, racistas, homofóbicos e antidemocráticos, ainda assim vão votar no Haddad não só por motivos semelhantes aos meus, mas por outros mais nobres e que possivelmente me faltam. Peço então que resistam, que sigam firmes, generosos, que tolerem esses ataques e um dia depois das eleições sigam tão críticos quanto acharem necessário, até como oposição qualificada ao governo do Haddad. Porque a causa é realmente maior e sem o seu apoio nós todos, repito, nós todos temos muito a perder. Muito obrigado a vocês.

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Não tá morto quem peleia

Tem aquela história do primo do irmão de um colega de escola, lá com seus dezoito anos, que depois de deixar uma amiga em casa ouviu do amigo e vizinho, sentado no banco do carona: “Imagina a gente voltar pra casa de marcha à ré?”. Pois o motorista não se fez de rogado, engatou a ré e começou a andar assim em direção à casa. O amigo primeiro riu, depois disse “para com isso”, então falou “deixe de ser criança”, de novo sem sucesso, depois xingou o amigo — e nada –, daí resolveu inverter a tática e mandou um “então vai, acelera!” e o primo do irmão do colega de escola nem tchuns, firme, de marcha à ré, até o amigo e vizinho no banco de carona entender que nada o demoveria daquela loucura e se encolher no banco, mudo, sem ter mais o que fazer, metade do caminho já vencida.

Não lembro do dia em que essa história se deu, mas tenho para mim que era um domingo, sete de outubro, lá pelas dez da noite. Porque depois da incredulidade do amigo, da preocupação, desespero e depois raiva, seguidos de um silêncio de puro desalento, o primo do irmão do colega de escola resolveu parar, manobrar e tomar o rumo de casa de outra forma, de um jeito mais vinte oito de outubro, mudando aquele retroceder tão equivocado, decerto com a ajuda daquele tempo para refletir sobre a direção a tomar e como prosseguir — uns vinte um dias, diria eu.

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Ambos pela manhã.

Considerando a incômoda presença de um ou dois sintomas achei por bem dar crédito a um ou dois especialistas e com suas prescrições em punho passei em uma ou duas das redes mais conhecidas e encontrei uma ou duas frases de efeito que num piscar ou dois de olhos disseram a que vieram e com efeito a raiva não só reapareceu como também aumentou em muito mais que um ou dois graus e me fizeram lembrar de uma ou duas das razões que me levaram a sair daquela rede e da outra e agora acrescentaram mais um ou dois motivos para seguir distante delas por mais um bom tempo, melhor dois para garantir.

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O que não é o que não pode ser que não é.

O carro que não tranca, que dormiu na rua e que não é meu. A carteira com documentos, cartões e dinheiro esquecida dentro dele. O desespero quando de manhã cedo me dei conta disso que está escrito na frase anterior. O alívio ao encontrar a carteira no mesmo lugar onde a esqueci.

E a constatação de que apesar de agnóstico há décadas e bastante cioso sobre o assunto, enquanto percorria a passos largos e apressados o trecho entre minha casa e o lugar em que o carro estava me vi a repetir, no mínimo umas três vezes: “por favor, meu Deus; por favor, meu Deus; por favor, meu Deus”.

Só pode ter sido má-fé.

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Duas ou três das mil e uma noites

Três doses de whisky vagabundo. E numa tristeza da porra. Sim, o fato dela estar sozinha no hospital neste instante, ela que quase morreu, ela com quem vivo há vinte anos enquanto eles, esses burocratas, esses escrotos mal saídos dos cueiros que nada sabem da gente e que resolveram me impedir de passar mais uma noite naquele sofá vagabundo, forrado de courvin azul claro, daquele tipo de forro de filme de ficção científica de 1962, eles que com seu papel canhestro compõem o quadro todo e viraram parte essencial disso, desse ficar meio perdido, olhando para a tevê, para o gato em cima da pia e para o celular onde odeio escrever qualquer coisa de mais de três linhas.

Parte essencial, mas sem dar conta de tudo. Não da tristeza inteira, essa que antecede a minha companheira que quase morreu três dias atrás e me acompanha há um sem número de luas. Então acho melhor partir para a quarta dose, quem sabe essa ancestral tristeza se esquece de mim e resolve buscar outro, um que ache que a iludiu, quando na verdade ele é o próprio sujeito que a morte foi buscar não aqui, mas lá em Teerã onde o tolinho realmente achou que dava para se esconder.

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Tendências

Há o discurso dedo na cara, cenho franzido, que moraliza de maneira fulanizada e persecutória, buscando que o seu objeto admita, assuma e peça perdão, compungido, embora nunca vá ser de fato perdoado.

Há o discurso escrachado, de humor duvidoso, quase sempre cínico e ao mesmo tempo sonso, que ri da desgraça alheia e debocha dos que desaprovam seu estilo e método.

Há plateias para os dois, com fila na porta para aplaudi-los, muitos com um medo danado de não conseguirem entrar e acabarem sendo o foco de um ou outro um desses discursos.

E para completar, o refrigerante é sem gás, a pipoca é velha, acabou o sal e se você gosta de manteiga é bom saber que ela está um ranço só.

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