Não é sobre Logan

Quinta-feira passada estive em Nova Friburgo, a trabalho. Como terminei bem tarde, somando cansaço e notícias de um temporal que ainda caia no Rio, a prudência mandou que eu só voltasse na manhã seguinte.

Tarde pra acabar de trabalhar, mas não pra pensar em dormir, então resolvi ir ao cinema. Sim, Logan. Ingresso comprado, faltava meia-hora para começar a sessão, então falei mais uma vez com Rê e depois liguei pra Fal, há tempos que não jogava conversa fora com ela. E, claro, depois dos como vai fulana, sicrana, a saúde dos bichos todos, falei da bobagem que estava prestes a ver, pois sabe como é, burro velho vendo filme de super-herói não vai ser besta de falar com amiga de longa data com o papinho mole de que é porque parece ser mais soturno, violento, voltado pra adultos e tal. E a Fal responde animada, dizendo que também tá doida pra ver, que por sinal ultimamente não perde um filme com esses personagens já mais velhos, no ocaso mesmo, dos que têm que lidar com decadência física, doenças e a proximidade da morte, um pouco porque o horizonte dessa realidade já não parece tão distante assim da gente, né Ricardo? E a danada ainda por cima disse isso rindo e me fez rir também, um riso antibiótico, desses de amplo espectro, que começam na graça, batem no nervoso e voltam pra graça, só que uma volta filho pródigo, dessas cheias de marcas, algumas sem nem cicatrizar direito, quem mandou ficar cutucando as casquinhas?

Falamos mais algumas besteiras, para não perder o hábito. Nos despedimos mandando beijos pra todos, bichos inclusive, e fui ver a tal bobagem dita soturna e violenta sobre um mutante de idade avançada, sentado na cadeira 5 da fileira J, sem dar conta de esconder de mim o quanto as motivações da Fal também são minhas. Então só me resta pedir que vá logo ver esse filme, menina, pra eu ligar pra você de novo e poder rir antibioticamente de uma pá de coisas dessas nossas vidas bestas com o Logan no meio. Demora não, tá?

[Também veio do facebook. Fazer o que se aquela desgraça faz tudo se perder?]

Publicado em conversê, cotidiano | Deixe um comentário

Ontem e hoje

Sabe qual é a diferença? É que dez anos atrás havia certo orgulho no ar, visível quando conversávamos com gente de fora do Brasil. Era uma sensação nova para muitos de nós, diferente daquela vivida nos primeiros anos da redemocratização. O que sentíamos há dez anos era a possibilidade de finalmente observar mudanças em certas estruturas antes vistas como constitutivas da nação e, por isso, até então inamovíveis. Claro, havia o contexto exterior favorável, as commodities em alta, o emprego formal nas alturas. Tudo isso ajudou a encobrir uma enorme quantidade de equívocos em diversas políticas públicas, falhas bastante graves e em certa medida eclipsadas por conta dos consideráveis resultados na diminuição da pobreza a pela forte impressão de que finalmente caminhávamos para a diminuição real dos inacreditáveis índices de desigualdade social que sempre foram a nossa marca registrada.

E aqui abro um parêntese. Esse quadro me fez lembrar de um filminho pipoca de 1990, “tempo de Despertar” (Awakenings), com Robert de Niro e Robin Williams. Nele, Williams representa o neurologista Malcon Sayer, que ao conseguir emprego num hospital psiquiátrico se depara com vários pacientes aparentemente catatônicos, mas que sente estarem só “adormecidos” e que, se medicados da maneira correta, poderiam ser despertados. Ele recebe autorização para utilizar um medicamento (a L-Dopa) em Leonard Lowe (de Niro), paciente há décadas naquele estado. Gradualmente, Lowe se recupera e o médico passa a administrar a droga em outros pacientes. É tocante vê-los “acordar” e tentar recuperar o tempo perdido em suas vidas, só que, infelizmente, aos poucos o medicamento para de fazer efeito e tudo volta ao que era antes, ao estado adormecido que caracterizara boa parte dos pacientes daquela instituição.

Dez anos. E o tal orgulho virou um imenso constrangimento — ou, em termos mais pessimistas, voltou a sê-lo –, com o gigante retornando à catatonia habitual.

Essa é a diferença.

[Guardo aqui o que publiquei no facebook. Talvez assim eu não o perca de vista.]

Publicado em (re)flexões, memórias | Deixe um comentário

Geni

​- Tudo de ruim diz respeito ao outro, então a culpa do nosso sofrimento é dele. E tudo de bom diz respeito ao outro, então a culpa do nosso sofrimento também é dele.

– Acho que entendi. Mas e no plano coletivo, no macro, no estrutural, como funciona?

– Ah, é muito complexo, são variáveis demais, é muito esforço e angústia pra tentar entender. Melhor a gente focar só no outro mesmo, já que está ao alcance da mão.

Publicado em Uncategorized | Marcado com | Deixe um comentário

Do que

As covardias, os auto-enganos, os adiamentos, as avestruzices, todos falam da nossa condição humana e sim, têm lá sua hora e lugar. Às vezes são a dimensão da verdade que suportamos, a pausa para respirar entre uma dor e outra. Em casos assim não se deve desprezá-los tanto, exceto se você abusar deles – ou eles abusarem de você, tanto faz. Nesses casos, convém mesmo fazer-lhes frente com os recursos que dispuser.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Bisavôs do século dezenove tinham disso

Suspeita-se que o ocorrido tenha se dado nos (pra lá de) idos de 1905, durante sua defesa de tese de doutoramento, intitulada “Relação entre a matéria e os fenômenos espíritas” – título curioso, considerando o ateu declarado que era.

Há de ter sido nos finalmentes da defesa, quando um dos membros da banca resolveu perguntar ao já quase doutor:

– Senhor candidato, explique o que é vácuo – sucedido assim, de bate pronto:
– Vácuo, Excelentíssimo, é o que o senhor tem na cabeça!

Gargalhadas da plateia, risos sufocados dos demais membros da banca e um novo desafeto para a coleção do ateu doutor, aprovado com louvor.

Publicado em histórias | 2 Comentários

Rua do Passeio

​Na entrada de um prédio, em meio à multidão de pedestres apressados, um casal de não mais que vinte e cinco se beija. Ele no rés do chão, ela três degraus acima, compensando a diferença. Beijo de cinema. Demorado, rostos virando de um lado pro outro, em câmera lenta, olhos primeiro cerrados, depois semi-abertos no intervalo em que sorriram ao pausar para respirar. Sim, de cinema, aquele conhecido truque onde o foco da câmera está no centro da imagem e tudo em volta corre tão veloz que se vê borrado.

Só ficou um porém. Praqueles dois terá sido mesmo um beijo de parar o tempo, de borrar o mundo ao redor e de fazê-los um? Ou nada de um pois permaneciam dois, de olho no que os rodeava, se não olhos certamente ouvidos, atentos, buscando sinais de aprovação, de espanto, da inveja que os confirmasse para um mundo-platéia, uma audiência doadora de sentido, que pelo sim ou pelo não fizesse valer aquele beijo na entrada de um prédio na rua do Passeio?

Será que não?

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Independência ou

Não adianta. No que me diz respeito, o dia 7 de setembro continua pertencendo à ditadura militar. Fazer o que, é algo arraigado ao sujeito que sou, esse que nasceu justo no ano do golpe aquele. E mais, essa rejeição se repete na minha relação com outro símbolo pátrio: o hino nacional. Explico. É que quando ocorre de tentar cantá-lo − e sempre internamente, não consigo fazer de outra forma −, eu nunca lembro a letra inteira. Não lembrar é pouco, o caso é mais profundo que isso: simplesmente não sei cantar o hino nacional completo e não lembro se um dia eu já soube. São pequenezes, irrelevâncias, sim, mas que em relação a minha identidade fazem considerável diferença, mais ainda neste ano de 2016.

Bom feriado a todos.

Publicado em (re)flexões, murmúrios | Deixe um comentário