Um gosto ora bom ora ruim, ora.

Meio-dia e meia, a hora em que cheguei na avenida Atlântica. Uma concentração até que significativa, pena que só se estendia pelo quarteirão entre a Figueiredo de Magalhães e a Siqueira Campos. Muitas bandeiras e vários balões da CUT e de outras centrais sindicais, como não podia deixar de ser sobre um evento convocado também por eles. Até ambulantes traziam coletes vermelhos, mas as roupas da turma não tinham alguma cor que predominasse. Rê e eu tratamos logo de encontrar adesivos para colar em nossas camisetas pretas; afinal, a ocasião assim pedia. Como não encontramos ninguém distribuindo naquela hora, perguntamos a uns garotos totalmente adesivados onde tinham conseguido os deles e, com o maior coleguismo, devo reconhecer, os garotos resolveram nos oferecer alguns dos que ostentavam orgulhosos, “podem pegar os que quiserem”. Eu buscava por um que tivesse escrito eleições gerais e diretas já; a Rê por sua vez queria um das diretas na cor branca e pronto. Quando vimos, cada um já estava bem com uns quatro. O clima, mais de festa do que de revolta, vinha envelopado por uma névoa que não lembro de ver por aqui há tempos. Inevitável imaginar que as dezenas de ambulantes fazendo churrasquinho em plena avenida ajudassem a engrossá-la — quantidade bem mais significativa do que a turma dos cannabistas, esses sim mais escassos do que o esperado, vai ver muitos por restrições médicas, convém evitar excessos ao chegar a certa idade. Enquanto isso, sobre o caminhão que centralizava o comício uma das filhas do Taiguara, acho que a Imyra, cantava “Universo no teu corpo” — quase escrevi “Universo em desencanto”… –, essa mesma do

Eu desisto
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
E uma gente que não viva só pra si

Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

E é por isso que eu preciso
De você como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor.

Aquilo, claro, foi bem mais do que um indicador. (E o meu autodenunciado ato falho foi só um complemento.)

Algumas pessoas começaram a aparecer no alto do carro de som. Uns sem abrir a boca, outros falando bem — Bete Mendes, minha querida vizinha! –, enquanto terceiros eu bem preferia que não tivessem se manifestado. Foi só uma certa deputada do PCdoB começar a discursar e achei melhor entrarmos num restaurante e almoçar. Se demorássemos mais alguns minutos ali, perigava lembrar dos anos de apoio do partido dela a diversas administrações pouco louváveis desta cidade, o que acabaria por me tirar o apetite. Então fomos, almoçamos e voltamos já sem o risco do estômago vazio.

Havia tudo que é tipo de gente, como previsto. Até o povo do “volta, Dilma” deu o ar da graça, embora fossem minoria, considerando que não era exatamente essa a pauta, apesar da quase unanimidade quanto ao uso do termo “golpe”. Cabelos grisalhos junto com a molecada desconstruída, uns e outros com seus bottons vermelhos de “diretas já!” que supus tirados de velhas caixas empoeiradas guardadas há décadas e feitos para a emenda Dante de Oliveira. (Não eram os antigos, apesar do jeito de.) E esse cheiro de trinta e três anos atrás misturado à fumaça de churrasquinho e aos chicobuarqueanos “Apesar de Você” e “Vai Passar” deram em mim e na Rê arrepios tanto de emoção quanto de um melancólico amargor: como assim ter que entoar esses cantos, de novo, e por motivos tão parecidos?

É, aquele foi o meu sinal. Já ouvira Bete Mendes, Teresa Cristina, Otto, Mart’nalia, Osmar Prado e outros mais. Tinha até muita vontade de ver Mano Brown, Caetano e Milton, imaginar se diriam algo para além de suas canções, mas aquela fora mesmo a minha cota deste domingo, com um quê de déjà vu escasso do frescor de décadas atrás. (Sorte minha não ver fantasmas. Já pensou o Ulisses, o Teotônio e outras tantas figuras surgindo no meio do fog e do fumacê os churrasquinhos? Credo, te esconjuro, pé de pato mangalô treis veis!)

Mas tudo bem, garanto que vou renovar minhas energias. Afinal, é só o começo da trabalheira que ainda dará (e daremos). E o que importa, o que importa mesmo é que amanhã vai ser outro dia. Porque tem que.

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