Te digo qué se siente

abuelas-de-la-plaza-de-mayo-messi-mascherano-lavezzi“Messi e Mascherano apoiam a luta das avós da Praça de Maio”, dizia a matéria onde encontrei essa foto. É notícia velha, anterior à Copa, mas que vale ser reeditada por ter contribuído para outra, bem recente: o belo desfecho que foi o encontro entre Guido e sua avó, Estela Carlotto, tão bem retratado por Liniers na imagem abaixo.

10449517_744152442311773_743400225468048246_n

Agora, cá entre nós, não é vergonha invejar, neste nosso Brasilzão, o quanto os argentinos estão à nossa frente no trato de suas pendências, na sua relação com a abjeta ditadura que marcou suas vidas. E sejamos honestos, caprichando na autocrítica: nessa seara perdemos de goleada, um certo 7 x 1 chega a ser placar modesto se pensarmos no tanto que ainda precisamos avançar.

Por isso peço que sejamos justos, ou melhor, que não sejamos injustos. Porque esperar uma campanha parecida, encabeçada por Neymar e outros tantos astros do nosso futebol é, no mínimo, uma tremenda sacanagem com esses meninos. E digo mais, é tão equivocado quanto creditar a Messi, Mascherano e demais estrelas do futebol argentino uma especial noção de cidadania e direitos humanos, uma maturidade política que não se vê nos seus colegas brasileiros. Porque glorificar indivíduos sem considerar o contexto em que se inserem é um jeito simplista e tolo de entender a realidade. Nesse sentido, é preciso considerar que Mascherano e Messi vêm de um país que revogou suas abjetas leis de anistia para militares que cometeram crimes contra a humanidade durante sua sangrenta ditadura, isso há 11 anos. Um país que julgou e prendeu boa parte das cabeças dessa ditadura, estendendo o julgamento aos responsáveis civis por esses crimes. Ou seja, muito diferente do que ocorre no país de Neymar e companhia — sem desmerecer pelo menos o enorme esforço da nossa Comissão Nacional da Verdade, que fique claro.

Por isso te digo qué se siente: inveja, admiração e uma boa dose de esperança de que possamos fazer algo parecido nestas paragens. Mas inveja não de Messi ou de Mascherano, vale dizer, e sim daquilo que o conjunto da sociedade argentina têm feito em relação ao seu passado, construindo o cenário onde aqueles moços bons de bola registraram seu engajamento.

Só num contexto parecido os nossos meninos bons de bola poderão cogitar fazer algo semelhante. Antes disso acontecer, será pedirle peras al olmo*.

_________

* Árvore da família das Ulmáceas, nativa da Europa, alcançando até 30 metros de
altura. Suas flores são pequenas e dão origem à frutos secos, não comestíveis.  (Dicionário Informal)

 

Anúncios
Esse post foi publicado em (re)flexões, política, sociedade e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s