"O escritor isolado", por Javier Marías (Babelia, El País)

Acredito que a maioria dos escritores tendemos a sentir-nos isolados e desejamos esse isolamento, sobretudo a partir de certa idade.  Talvez no começo não seja assim — especialmente para os que começam mais jovens. Na juventude cria-se a ilusão de pertencer a um novo grupo ou geração supostamente renovadores. Frequentemente despreza-se os escritores da geração anterior, principalmente os do próprio país ou os da própria língua. São julgados equivocados, defasados, antigos, não há nenhuma compaixão por eles e há pressa em aposentá-los. Às vezes seu valor é negado de forma injusta, sendo considerados como um tropeço na história da literatura destinado a cair logo no esquecimento. Esses jovens passam por cima de seus pais literários e frequentemente “recuperam” seus avós, a quem veem frágeis, pouco ameaçadores e a caminho da aposentadoria. Mas esta sensação de companhia e combate, de formar parte de um grupo “inovador”, não dura muito. Na hora em que um escritor deixa de olhar ao seu redor, deixa de se preocupar pelo “estado” ou pelo “futuro da literatura” em seu país ou em sua língua — descobrindo ser o que menos interessa e que além disso não é sua responsabilidade —, dedicando-se ao que lhe cabe dedicar-se, isto é, a escrever sua obra como se não houvesse nenhuma outra no mundo, nesse instante ele começa a se sentir isolado. Em parte por sua própria vontade, em parte porque não lhe resta outra opção se quiser seguir adiante com seus escritos.

Claro que não se trata apenas da famosa — e certa — solidão necessária para realizar seu ofício, de que muito se escreveu e que já não tem maior transcendência: é a forma como o romancista escolhe passar seus dias — o romancista mais do que o poeta, o dramaturgo ou mesmo o ensaísta —, da mesma maneira como outros indivíduos escolhem ou se sentem obrigados a passá-los num escritório ou numa fábrica, permanentemente acompanhados. Antes de mais nada, trata-se da necessidade que ele sente de ser quase único, de nunca mais se ver como mero membro intercambiável de uma geração ou grupo, sequer como “filho do seu tempo”. Nada incomoda mais o verdadeiro escritor do que os críticos, os professores e os jornalistas culturais empenhados em etiquetá-lo e enquadrá-lo, em estabelecer relações entre sua obra e a dos seus contemporâneos, em associá-lo a tendências a que supostamente pertenceria, ou a movimentos, a modas, a qualificá-lo como “romancista realista” ou “histórico” ou “autor literário” — essa enorme estupidez e redundância que ganhou certificado de naturalização em nossa estúpida época —, ou que cultiva a “autoficção” — mais um absurdo que prevalece hoje em dia —, ou “escritor pós-moderno” — nunca soube o que significava esse adjetivo, por sorte anda caindo em desuso. O verdadeiro escritor também fica furibundo quando buscam ou lhe atribuem um “lugar” na tradição do seu país ou de sua língua, associando-o a essa tradição ou aos velhos mestres. O escritor sabe que o país onde nasceu e a língua em que se expressa são importantes, mas secundários, algo até certo ponto acidental, casual e reversível. Sabe que Proust poderia ter existido em italiano ou em inglês, Lampedusa em espanhol ou em alemão, Thomas Mann em tcheco ou em sueco, até mesmo Cervantes em francês ou em português: sabe que a língua é só um veículo, uma ferramenta, nunca um fim em si mesmo e nem algo sagrado, de nenhuma maneira superior àqueles que a usam. Não determina nada; talvez só para os autores “ornamentais”, aqueles que em espanhol, por exemplo, parecem querer ouvir “Olé!” a cada frase castiça, primorosa e garbosa. Serve para muito pouco que o escritor compartilhe o idioma com Shakespeare ou Dante, Montaigne ou Hölderlin, Conrad ou Nabokov ou Wittgenstein. Ainda menos quando lembra que os três últimos mudaram de língua em algum momento de suas vidas e escolheram aquela em que desejavam expressar-se.

Tudo isso aborrece o escritor, e convém que o aborreça. Porque somente se trabalhar com a falsa crença de que seu livro é o único livro que existe no mundo conseguirá seguir em frente e terminá-lo. Se levanta a cabeça da máquina de escrever ou do computador  — eu ainda escrevo à máquina —, se olha para o passado ou para o futuro e ver seu trabalho reduzido a mais um nome numa interminável lista; ou se olha para o presente e se distrai preguntando a si mesmo como andarão seus colegas, o que estarão fazendo e o que terão conseguido e quanta originalidade ou profundidade há neles; ou se pensa em seus predecessores e se deixa esmagar por tudo de maravilhoso que já foi escrito e ainda se escreverá ao término de sua vacilante passagem sobre a terra, então estará perdido. Por isso o escritor precisa isolar-se enquanto escreve. Não é preciso dizer “só enquanto”. Na verdade, sabe bem que sua crença, como acabei de dizer, além de passageira é falsa. Sabe que sua obra, assim que sair de sua habitação, exposta a outros olhos e publicada, se confundirá com centenas de milhares de outras obras, uma gota no oceano que, como todas as outras, pedirá para ser atendida. Terá a sensação de, em sendo algo, ser supérflua.

Além do mais, já não cabe ao escritor a possibilidade ou o consolo de pensar na posteridade, de se refugiar num distante porvir, de confiar que o tempo faça seu misterioso trabalho de seleção e lhe avise no dia em que ele estiver presente. Pensar na posteridade sempre foi meio ridículo e bastante patético. Hoje em dia é grotesco, num tempo em que a duração das coisas vem sendo cada vez mais reduzida — e numa velocidade vertiginosa —; quando o aparecimento de um filme, uma música, um livro, transforma-os logo em “algo passado”; quando se tem a impressão de que só existe o que ainda não existe e apenas se anuncia, e que a mera existência de algo — o filme que já pode ser visto, a música que já pode ser ouvida, o livro que já pode ser lido — determina a sua obsolescência, faz dela “pretérito”. Isto já está visto, ouvido, lido; que venha agora algo novo, isto é, que ainda tenhamos que esperar. É como se a ideia de perduração pertencesse apenas a outras épocas, e essa perduração, portanto, só estivesse ao alcance daqueles que já a conseguiram — Shakespeare, Montaigne, Cervantes, inclusive Conrad e Nabokov —, no tempo em que essa ideia cabia ou era possível. Como se não fosse alcançável por nós que estamos vivos. Pensar, hoje, que seremos lembrados, disputa com esse hoje que vemos, onde tudo se torna “velho” pelo simples fato de ter sido. É incompatível com tudo o que nos cerca; é de fato grotesco, daí que o escritor de hoje em dia se sinta ainda mais isolado e fugitivo. “Na verdade, só existo enquanto escrevo”, pensa. “Isto é, enquanto ninguém me vê nem sabe o que estou fazendo. Paradoxalmente, existo somente enquanto minha tarefa e eu estamos ocultos, quando ainda não somos para o mundo. Porém, assim que aparecermos deixaremos de existir, confundindo-nos com a multidão impaciente e veloz que tudo engole, digere e excreta”.  “Publication is the auction of the mind of man”, escreveu Emily Dickinson, uma citação a que recorro com frequência: “A publicação é o leilão da mente do homem” — ou “da mente humana”, como preferirem. É o infame contato com o mundo exterior, com a multidão, com milhões de páginas parecidas com as nossas, animadas por semelhante impulso. É a obrigação de ver-nos enquadrados na tradição, seja do nosso país, da nossa língua ou de toda a história da literatura (provavelmente como nota de rodapé). É a evidência de que, longe de sermos únicos, temos muito a ver com nossos antecessores e com nossos contemporâneos: o fato de que os primeiros, a quem talvez sequer lemos,  fizeram a mesma coisa que a gente, bem antes de nós; e de que os segundos, sem nos conhecer nem saber da nossa existência, escrevem coisas incomodamente conectadas com as nossas. É o doloroso momento de aceitar que existe um Zeitgeist e que estamos involuntária e inconscientemente a seu serviço.

De vez em quando nos deparamos com um enorme lembrete sobre sermos apenas um nome somado a tantos outros formando parte de uma lista. Esta ocasião é um destes lembretes, mesmo revestida da maneira mais agradável possível. Acredito que dos prêmios que recebi (a maioria estrangeiros, raras vezes espanhóis), nunca me honraram com nenhum tão antigo como este Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, outorgado pela primeira vez, pelo que vi em sua lista, em 1965. Nela encontro nomes que admiro não apenas desde a minha juventude — quando era só um leitor, sequer um escritor oculto —, mas que parece que tiveram tempo para alcançar a posteridade, já que em sua época ainda se admitia esse conceito: nomes como o do grande poeta Auden e o do dramaturgo Ionesco, o magnífico Italo Calvino e Simone de Beauvoir, Dürrenmatt e Manganelli. Figuras tidas como extraterrestres, em alguns casos desde a minha infância, com as que estava certo de não ter nada a ver, inalcançáveis, seja pela distância na idade, seja pela distância artística. A seguir vi outros nomes admiráveis, mas de escritores ainda vivos ou recém falecidos, que consequentemente pertencem a estes tempos confusos, desmemoriados e velozes em que nos movemos: Kundera e Rushdie, Esterházy e Lobo Antunes, Eco e Semprún, Barnes e Enquist e Magris. Alguns inclusive conheci brevemente, mas, como posso dizer, para mim foram sempre “eles”, “os outros”, aqueles a quem eu lia e de quem me sentia separado. De forma que ao receber este Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco não posso evitar sentir uma grande perplexidade (e ao mesmo tempo gratidão) ao ver o meu nome numa lista que me faz ser menos eu e existir menos. Ou talvez me faça existir um pouco mais, quem sabe como agora, quando não estou enclausurado em minha habitação, ou escondido, teclando na minha anacrônica máquina de escrever (ou “brincando em casa, feito criança, com papel”, como disse Stevenson) e onde de forma alguma posso crer que meus livros estejam isolados; quando me mostram, com benevolência e claridade que, ao contrário, goste disso ou não, eles formam parte de uma extensa e nobre corrente chamada literatura europeia.

Muito obrigado.

Javier Marías recebeu em Salzburgo, no último mês de julho, o Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Este foi o discurso que pronunciou durante a homenagem.

[Tradução: Ricardo Cabral. Erros de tradução, gramaticais e ortográficos: Ricardo Cabral. Original disponível aqui]

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6 respostas para "O escritor isolado", por Javier Marías (Babelia, El País)

  1. Monsores disse:

    Obrigado, Ricardo.
    Você me apresentou Javier Marias e eu li dois livros dele – Coração tão branco e Amanhã, na batalha, pensa em mim.

    É um desses escritores que gosto tanto que quando me deparo com uma frase sequer paro tudo pra ler. Infelizmente não encontro outros livros dele com facilidade.

    Abraço,
    André

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    • Ricardo C. disse:

      @Monsores, li dele O Homem Sentimental, que também achei bacana. Mas confesso que o impacto dos dois primeiros bem foi maior. Você tem que ler também o Haruki Murakami, especialmente Caçando Carneiros. Também é um escritor contemporâneo, você vai gostar, ainda mais ao saber que ele adora jazz e ainda por cima teve um bar 😉

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      • Monsores disse:

        @Ricardo C., mas eu li Caçando Carneiros, também por indicação sua. Gostei tanto que li Kafka à beira-mar e Norwegian Wood em seguida. Vou comprar O Homem Sentimental.

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      • Ricardo C. disse:

        @Monsores, tinha esquecido disso, hehehe! Estou com uma versão de Norwegian Wood em filme guardada no pendrive, devo vê-la hoje ou amanhã. Se gostar, te conto e se te interessar mando o torrent com a legenda.

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