O que o artista plástico Wim Delvoye anda fazendo da vida?

Desde que vi uma exposição do belga Wim Delvoye em Prato (Itália), em 2004, não pude deixar de associá-lo à ideia de que somos seres cada vez mais híbridos — mas um hibridismo fertilíssimo, diga-se de passagem…

Hmm, vejo que comecei meio hermético, então deixe eu tentar explicar o que quis dizer com esse tal hibridismo. É que a gente costuma aprender ainda na escola sobre hibridismo biológico, inclusive que seres híbridos, frutos do cruzamento entre raças, linhagens, variedades, espécies ou gêneros diferentes, são frequentemente estéreis. Há uma curiosidade nessa esterilidade, e é de ordem etimológica: segundo o dicionário Houaiss, embora venha do latim “ibrida“, “hibrida” ou hybrìda“, o termo provavelmente sofreu influência, por falsa aproximação literária, do grego “húbris“, que significa “excesso”, e “húbrisma“, que vem a ser “ultraje, violência”. Ou seja, a esterilidade dos híbridos decorreria uma espécie de “punição” pelo “ultraje” na “violação das leis naturais”. (E vá desculpando tantas aspas, mas seguro morreu de velho e não quero dar margem a leituras equivocadas sobre o que penso a respeito de leis naturais sendo supostamente violadas.) Pois quando digo que somos seres cada vez mais híbridos, penso nas transformações que a técnica tem produzido em nossos corpos, nas relações com o tempo, a distância, dor e prazer, entre outros. E essas transformações que listei são tributárias de engenharias mil, inclusive genética, além de robótica, microeletrônica, computação, sem falar na medicina e na farmacologia. Híbridos sim, há tempos. Mas nos dias de hoje, cada vez mais e de forma tremendamente acelerada.

A ponte do hibridismo com a obra do Delvoye me parece óbvia. Começa pelo entrelaçamento entre artes plásticas e tecnologia (de materiais, de processos fabris, de monitoramento eletrônico à distância, entre outras) numa versão que vai muito além da anódina denominação “técnica mista”. Por outro lado, o aparato tecnológico de que o artista faz uso serve para criar obras “ultrajantes”: seja pela presença frequente de elementos escatológicos nelas, seja pela “subversão” da natureza, com o artificial resultando no natural — tenham em mente a série “Cloaca” (Original, Quattro, Nº 5, Turbo, Mini Cloaca, Personal Cloaca), assim como a “Toilet” —, seja pelo teor provocador frente ao corpo — as séries “SexRays”, “Anal Kisses” e “Tim” são bons exemplos.

Reconheçamos, às vezes Delvoye parece uma dessas crianças quando tira meleca,  mostra para os pais e fica esperando a reação de nojo deles, ou então aqueles adolescentes fazendo concursos de flatos e arrotos e caindo na gargalhada. Mas uma leitura que pare por aí, reduzindo o belga a uma espécie de Jackass das artes seria muito pobre, por mais que em alguns momentos dê vontade de fazê-la. Inclusive porque, no caso de elementos religiosos, por exemplo, de clara presença em algumas de suas obras — tais como vitrais e catedrais — nem sempre são usados por ele para chocar e/ou indignar — ainda que certamente para espantar.

Mas é melhor ilustrar logo com exemplos. Como sua obra é enorme, vou escolher algumas séries. (Quem quiser ver mais é só ir ao sítio do moço e passear por todas as edificações da Sim City pessoal que ele criou para mostrar seus trabalhos.) A elas, pois.

Entre as fotografias escolho esta, da série Marble Floors:

São composições feitas de… frios. Presunto, salame, está tudo lá. Claro que a obra é exposta em fotos, mas certo é que houve um bom pepperone no meio dessa geometria aí de cima.

Da série Gothic Works escolho duas:

Trata-se de “Cupo”, uma torre feita em aço inoxidável cortado a laser, com esse retorcimento dando-lhe um quê de Escher (que o Delvoye não me escute).

.

.

A outra peça chama-se “Torre”, feita em aço também cortado a laser. A foto da esquerda mostra sua instalação no museu Peggy Guggenheim em Veneza, um lugar a meu ver perfeito para ela. (Na outra foto dá para ver seus incríveis detalhes por dentro.) Uma observação: parece até que a banalidade de alguns títulos que ele escolhe é mesmo para contrastar com a complexidade e o impacto de suas obras… “Torre”? Sério mesmo?!

A série Chantier (Canteiro de Obras) tem os mesmos elementos góticos, mas usados tanto em aço quanto em madeira. São caminhões, betoneiras, misturadores de cimento, escavadeiras, todos impressionantes e curiosos por esse jeito de peças saídas do universo Steampunk.

Ao vivo elas impactam, sem dúvida. Pena que só vi algumas de madeira. (Essa betoneira da foto.) Recomendo que cliquem no link que dá nome à série e vejam todas as peças. Algumas estão em um cenário totalmente coberto de neve. Ficou muito bonito.

Ah, faltou avisar que se clicarem nas fotos poderão vê-las em tamanho maior...

Bom, entrando de uma vez no terreno das provocações, são várias as séries. Nas primeiras linhas mencionei algumas, mas fico um pouco constrangido de colocar fotos sobre o que seja, por exemplo, a série “Anal Kisses”, embora ela seja  mais singela do que chocante, mais ainda se eu disser que a técnica envolve batom e papel (o link é este, se interessar). Outra série que comentei foi SexRays, nada menos que chapas de Raios X, algumas com “cenas de ação”. Também não tem nada de mais, embora prefira que vocês mesmos escolham as fotos que considerarem mais representativas para a série, enquanto eu ponho duas simpáticas por aqui:

.

.

.

.

.

A de cima chama-se “Lick” e a da direita chama-se “Fuck”. Como já disse, nomes banais de tão óbvios.

Mais provocações, estas por tabela dirigidas às associações de defesa dos animais, suspeito. Refiro-me à série Art Farm, em que porcos tiveram suas costas tatuadas, algumas inclusive com motivos religiosos (vejam as costas da Sylvie e do Rex, os porcos da quarta e da quinta fotos abaixo). Ao que parece houve cuidados no processo e nenhum sofrimento para os bichos, como sugere uma das fotos abaixo:

Mas não só porcos. Há uma série chamada “Tim”:

Trata-se do nome do rapaz sendo tatuado junto com um porco, o mesmo que  aparece mais tarde brincando com outros tatuados como ele.

A penúltima série que aparecerá aqui (prometo) é “Movies”. Só vi um vídeo por lá, esse que vai abaixo. Deixo para vocês verem e entenderem por si sós em que consiste. O título, “Sybille II”, não conta muita coisa. Vale dizer que a mim a melodia pareceu um pouco piegas, embora concorde que combinou com a plasticidade das cenas. (Recomendo que assistam em tela cheia.)

httpv://www.youtube.com/watch?v=6WHIaf-x0jo&

[Diz o artista sobre seu vídeo: “I want to portray human beings as a kind of organic living being, that’s what they are actually, an organism.” O que vocês dizem?]

Para terminar, um pouco da (verdadeira) escatologia do artista. Trata-se de uma de suas obras mais conhecidas, a Cloaca. Como disse no início do post, vi uma exposição bastante completa dos trabalhos de Wim Delvoye no museu de arte moderna de Prato, cidade perto de Florença. E nela havia uma sala reservada para o que era a última versão da “Cloaca”, a “Cloaca Turbo”.

E o que vem a ser esse enorme e barulhento aparelho, em parte controlado à distância pelo artista, independente do lugar em que esteja sendo exibido, e que pode ser chamado de qualquer coisa, menos de belo? Trata-se apenas de uma emulação do aparelho digestivo. Em outras palavras, essa máquina é alimentada, de preferência com vegetais (mas também com massas, pelo menos na Itália assim fizeram), e que depois de algumas horas expele matéria fecal sólida. Isso mesmo, é uma máquina que faz cocô.

Bom, tudo na obra do Wim Delvoye parece ter traços de humor e provocação. Além disso, o hibridismo entre arte e tecnologias de toda sorte também diz respeito a outros entrelaçamentos, dos quais destaco o fato de que o artista brinca constantemente com a questão do valor da arte, em termos econômicos. Sendo assim, há inúmeras peças especialmente produzidas para serem postas à venda, mas não como mera “lojinha de museu”. (A provocação está no folder abaixo, com o selo “As seen on TV”.) Encontramos desde um boneco do artista com uma miniatura da Cloaca e alguns porcos tatuados, até camisetas, livros, quebra-cabeças, óculos 3D (para fotos 3D de alguns de seus trabalhos),  incluindo rolos de papel higiênico:

Ah, claro, ele também vende, embalado a vácuo, o que a Cloaca produz. Com vocês, as “Cloaca Faeces”:

Um sujeito do século XXI, esse Delvoye. Seguirei acompanhando a sua obra, digo, o seu trabalho artístico. Ele ainda vai aprontar muito, aposto.

Anúncios
Esse post foi publicado em arte e marcado , , , , . Guardar link permanente.

9 respostas para O que o artista plástico Wim Delvoye anda fazendo da vida?

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Pingback: Bruno Cava

  3. Deveria escrever mais sobre arte, Ricardo! Gostei demais.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      @Rodrigo Cássio, confesso que entendo quase nada sobre o assunto, a questão do híbrido foi a única que consegui pensar e só ficou interessante quando fui ao dicionário e vi na etimologia a questão do ultraje. Em todo caso, agradeço ao Houaiss 😉

      Mas que bom que gostou, meu amigo, me deixou contente.

      Abraços

      Curtir

  4. Diego Viana disse:

    Dele, a única que eu conhecia era Cloaca, mas não tinha guardado o nome do artista. Foi num curso sobre o conceito de ciborgue em Nanterre, associado a artistas como Stelarc e as discussões de Donna Haraway. A série barroca é brilhante!

    Abs

    Curtir

  5. Pingback: Laio Bispo

  6. Pingback: O Pensador Selvagem

  7. Pingback: Fabiano Camilo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s