Chame o Foucault [1]

Este post relaciona-se (em parte) ao anterior, não sem dialogar com outros, em particular com o que trata do tema das relações de amizade. Ainda não sei bem o que tenho a dizer, pois pouco dá para falar quando a palavra está com Foucault, como é o caso da entrevista intitulada Sexo, poder e a política da identidade (vale uma lida), que por fortuna um comentarista do Weblog lincou.

Assumo a grave falha de não conhecer a fundo a obra de Michel Foucault. (É claro que se trata de um mea culpa ardiloso, antecipando-me a prováveis críticas sobre esta minha leitura dos argumentos do autor.) Apesar disso, creio poder adiantar que, a meu ver, é preciso ler a entrevista levando em consideração as mudanças na sociedade em relação à época em que ela foi feita. A AIDS, que tanto influiu no comportamento sexual na década de 80 do século passado (e que vitimou o próprio Foucault em 9 de junho de 1984), diminuiu a sua força por conta dos coquetéis de medicamentos surgidos nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a sexualidade perdeu muito de sua aura de tabu, sendo fortemente assimilada pela indústria cultural. E vale dizer que com a internet elevou-se à enésima potência a facilidade de acesso a material de cunho sexual — erótico ou pornográfico, não importa —, fazendo com que vários exemplos dados na entrevista — “sub-cultura S/M” [Sado-masoquista],  “filmes gueto-pornôs” etc. —, hoje em dia sejam bem menos marginais.  Ainda assim, várias são as reflexões desse texto que seguem atuais — e me interessam. Para começar, quando ele comenta, por exemplo, que

“A sexualidade é algo que nós mesmos criamos — ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa.”

Impossível não lembrar de Simone de Beauvoir e sua clássica citação:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Só a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro.” (Beauvoir, O Segundo Sexo, 1980, p. 9)

Voltando à entrevista, Foucault avança sobre a questão do prazer, propondo, entre outras coisas, que ele deva ser dessexualizado, acrescentando que

“A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso. (…)
A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É ai que se limita, me parece, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. O que me frustra, por exemplo, que se considere sempre o problema das drogas exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. Penso que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura.”

Aplaudo esse ponto, que atravessa a entrevista inteira (inclusive o seu chamado à reflexão sobre as drogas, que ele desenvolve linhas depois) — e não duvido que atravesse a própria obra de Foucault, só não a conheço para afirmar algo assim (ah, mais “desculpas providenciais”…). Mas se por um lado a noção de prazer é apresentada de forma libertária, ligada a uma multiplicidade de escolhas, por outro, fico sempre insatisfeito com a utilização do prazer como régua e compasso do que fazer com nossas vidas. É que por mais que “a versão” apresentada por Foucault sobre o prazer “afaste-o” um pouco do sexo, ela ainda localiza a atividade humana ao redor dessa “versão ampliada” do prazer. E da minha parte, defendo que o sentido é mais central (e interessante) do que o prazer como motor do homem. O sentido pode até mesmo ser colocado no prazer, dependerá da escolha de cada um. Mas há de se ter em mente que se trata de reduzi-lo ao prazer. E por mais que este último seja quase interminável, é ainda uma versão limitada das possibilidades humanas, penso eu.

E para não alongar mais este assunto, deixo o resto de minhas singelas reflexões para o próximo post.

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2 respostas para Chame o Foucault [1]

  1. Catatau disse:

    Salve Ricardo! Interessante post!

    Primeira coisa a notar: há diferenças entre Beauvoir e Foucault: a sexualidade “criada”, no segundo, não se identifica com o “tornar-se mulher”, da primeira. Foucault quer mostrar que existe um deslocamento em função do caráter “biológico” ou “social” da sexualidade, surgido gradativamente durante vários séculos. Desse modo a sexualidade é “criação”, não “descoberta”. Os dois tem uma pequena confluência quando se trata desse “tornar-se”. Mas talvez os campos de referência sejam bem diferentes.

    É nesse sentido de “criar” algo outro que não esses caminhos que levam ao “normal” que o Foucault segue, inclusive desvinculando o prazer do sexo (tua outra citação).

    Quanto ao prazer, é difícil também colocá-lo, no Foucault. Lembremos que ele está com o “olho” voltado aos antigos, então muito mais às práticas de si, do que necessariamente às práticas de si hedonistas; muito mais a formas do que necessariamente aos conteúdos. Aí o negócio fica complicado, qdo vc fala de sentido. “Sentido” pode significar muitas coisas: algo relativo a um “projeto” e uma “espontaneidade” fenomenológica; ou também algo mais voltado aos antigos, a práticas de governo de si que independem dos “sentidos” sociais (exemplo: a felicidade alheia à massa, em Sêneca; os procedimentos das escolas antigas, etc..). Talvez até haja relação entre o sentido, e o que você enxergou como o Foucault chamando a atenção do prazer. Muito embora a questão e´bem mais complicada, teríamos que ver de que modo esse “sentido” seria comum aos modernos e antigos, e de que modernos estamos falando.

    O Pedro Doria lendo Foucault? Isso é curioso, o que será que ele matutaria? 😉

    abraços,

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  2. Catatau disse:

    Ah sim, é importante notar que, quanto à sexualidade, o Foucault notou muito, durante esse “período”, sobre como suas novas formas não implicaram mudanças no capitalismo; pelo contrário, mostraram que ele se passa muito bem com essas mudanças, ao contrário do que pressupunham alguns adeptos da hipótese repressiva (como um pessoal meio reichiano que acreditaria vincular o tesão à libertação)

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