Sobre sexo: sobra sexo

Si tu avances et tu recules,
Comment veux-tu,
comment veux-tu que je t’encule?…

O caminho para chegar a esse versinho foi típico da internet: em uma lista de discussão, um dos participantes falou da Paula Lee. Esta, por sua vez, comentou em seu blog  sobre alguns livros da Valérie Tasso, dando o endereço de sua página, onde acabei encontrando o verso aí de cima. “Músicas de taberna”, diz Valérie, aprendidas enquanto fazia seu doutorado em Estrasburgo.

Paula Lee me parece uma moça bacana, há de ser um ótimo papo. Idem para Valérie, que suponho que fale espanhol — ela mora em Barcelona — com um ligeiro sotaque francês que lhe acentue o charme. Mas confesso uma coisa: a idéia de ler seus livros me dá uma preguiça dos demônios. Motivo? O sexo como temática central, e ainda por cima com roupagem autobiográfica.

Estou certo que as duas escrevem bem, nos respectivos sítios isso se nota logo. Se por outro lado são pessoas fascinantes ou não, faltam-me subsídios. O que de fato quero dizer é que o meu (pré-)juízo não é literário, e muito menos sobre o quão interessantes ambas hão de ser. Mas no que me diz respeito, preferiria conhecer os aspectos de suas vidas que elas não abordaram em seus livros. Ou seja, em relação à sexualidade, centro de suas obras literárias, admito que ela gera em mim uma espécie de fastio, nos termos da segunda acepção da palavra que encontro no dicionário Aulete: “enfado, tédio, aborrecimento”; e que esses sentimentos estão diretamente vinculados à enxurrada de referências sobre o tema. É como se estivesse empanzinado pela quantidade de textos ficcionais, biográficos, autobiográficos e até mesmo acadêmicos sobre sexo. E o chato disso é perceber que ando na contramão. (Dispenso a companhia dos moralistas de plantão, dos fanáticos religiosos e dos que por qualquer razão abdicaram do sexo. Se quiserem, eles que fundem um clube, uma ONG ou uma sociedade e vão reclamar ao bispo.)

Faço cá uma singela pergunta: qual a graça de ainda escrever obras sobre sexo? Depois de Petrônio e seu Satíricon, de Boccacio e seu Decameron, do onipresente Marquês de Sade, e mesmo do Kama Sutra de  Vatsyayana, sem falar no mestre dos mestres, o grande Carlos Zéfiro, o que tanto ainda há para se dizer de novo sobre o assunto? Sei não, mas talvez eu devesse pedir auxílio a Lisístrata… Certo, se levarmos esse raciocínio a ferro e fogo deixaríamos de escrever qualquer coisa, dirão alguns… Mas não vou tão longe, apenas quero dar uma provocadinha de leve.

E se escrevêssemos só um pouco menos sobre sexo? Digo, que tal se o sexo fosse apenas parte, mesmo que importante, mas não exclusiva daquilo que se tem a digitar (sem duplo sentido)? Sério, tudo o que já foi escrito sobre o assunto dá para muito mais do que uma vida inteira de leitura! Aliás, vou mais longe: também não seria de todo mau se falássemos um tantinho menos de sexo. Mas não se preocupe, nada contra falar no sexo, tudo o que os ouvidos do(a) seu/sua parceiro(a) desejarem ouvir — e o seu fôlego agüentar.

P.S. Há uma discussão análoga (êpa!) acontecendo em torno de um manifesto que o ator Pedro Cardoso fez recentemente a respeito da nudez no cinema e na televisão. A Carla Rodrigues, o Sergio Leo e até O Hermenauta já se debruçaram sobre o tema. Nenhum deles o fez com trocadilho, folgo em dizer.

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8 respostas para Sobre sexo: sobra sexo

  1. Hermenauta disse:

    Me debrucei sim, mas de modo muito macho. 🙂

    abçs!

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  2. efemera* disse:

    rc, olha so ali no “live traffic feed” :

    “Iran, Islamic Republic of arrived from search.live.com on “Ágora com dazibao no meio””

    é essa a graça de escrever sobre sexo : atrair un iraniano pro agua ! kkk

    à part ça, acho que escreve-se mal sobre sexo; havendo qualidade, eu quero é mais !

    ( e vc esqueceu henry miller e anaïs nin naquela listinha ali )

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  3. efemera* disse:

    ha uma diferença entre “sexo” e “pornografia”, nao ha ?

    isso, é pornografiazinha :

    “Si tu avances et tu recules,
    Comment veux-tu,
    comment veux-tu que je t’encule?…”

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  4. Pax disse:

    Escrever menos sobre sexo? Tá, quando a gente não estiver respirando eu topo.

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  5. Pingback: Criatividade? | Ágora com dazibao no meio

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