Solidão, que poeira leve

E você lembra que foi na página 177 que leu a palavra “tensoku”. E que na seguinte dizia ser o método chinês de colocar os pés das meninas à força num sapato pequeno para que não crescessem. E que ficou na dúvida se a palavra era chinesa, já que o método vinha de lá, ou se era a sua versão japonesa, porque a explicação fora dada por um professor japonês – e o autor do livro também era japa. E um dia você acorda lembrando disso; e trata de dividir com mais gente – supondo que muitos leram o mesmo livro, já que ele foi bem avaliado nas resenhas de 2012 e a humanidade costuma ser sensível à opiniões alheias que carregam ares de autoridade no assunto –; e esconde de si mesmo a crença de que essa experiência, por mais que possa parecer coletiva, comum, compartilhada, essa experiência em que todos os não japoneses ou não chineses sem conhecimento enciclopédico que passam pelas mesmas páginas 177-8 e veem pela primeira vez a palavra “tensoku” descobrem o que ela significa é só isso, uma crença, e que o mais alto grau de experiência comum que ela possa parecer guardar não muda o fato de que há um abismo, uma solidão intransponível que nos constitui e não há rede social no mundo que mude isso, porque todos nós vamos morrer sós por mais que estejamos cercados por uma multidão de amigos, parentes e contatos do facebook.

Bom dia!

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