Primeira primeira vez

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.*

Todo dia.

E de tanto cotidiano, do tanto que o viver da gente é um tal de repetir, chega-se à impressão de que uma boa parte dele só tem variações mínimas, cosméticas, e que até mesmo as grandes mudanças e as experiências-limite — a formatura no ensino médio, o nascimento dos sisos, a primeira passeata, o enterro do avô —, se não se repetirem em nossa própria vida, decerto vão acontecer na do amigo, do vizinho ou do colega de trabalho do andar de cima, aquele que você só viu uma vez no elevador porque resolveu sair pra almoçar mais cedo. Ou seja, o caso é que mesmo mudando a cor do cabelo, deixando a barba crescer e trocando o sofá de lugar, nós todos experimentamos as coisas de um jeito meio parecido, jeito de Todo dia tudo sempre igual nesse intervalão entre o nosso choro na chegada e o dos outros na despedida.

Tudo sempre igual todo dia não. Porque na sexta-feira passada isso que acabei de dizer deu um revertério só. Coisa de cinco e meia, quando cheguei ao prédio e dei de cara com apenas um elevador funcionando e com um rapazinho encostado na parede esperando para subir. Pensando bem, justo na hora em que cheguei a porta do elevador estava fechando e não fez muito sentido vê-lo subir sem o rapazinho ter entrado nele. Mas isso eu só pensei bem alguns minutos mais tarde, quando finalmente o elevador chegou e nada do moço entrar, por isso fui na frente. E se já faltara sentido antes mesmo de eu ter pensado sobre, agora sim achei um tantinho estranho o rapazote desses comuns, bermuda-tênis-camiseta-óculos-e-dezenove-anos, só resolver entrar depois de mim e ainda falar que o elevador vai para o oitavo andar. Como não entendi muito bem a frase, já que não era uma pergunta, comentei que sim, o elevador vai pro oitavo. “É que eu nunca andei de elevador”,  disse ele, com a mesma voz baixa e a falta de entonação que antes me confundiram, e eu rapidamente completei que também ia pro oitavo, que já tinha apertado o botão e quando finalmente saímos avisei que quando quisesse descer deveria apertar aquele botão na parede, o de baixo, esperar a porta se abrir e uma vez lá dentro apertar o botão com a letra A que o levaria até a portaria e à saída do prédio, tudo isso dito meio de lado, já quase virando no corredor sem querer olhar muito pro moço, puro receio de constrangê-lo por conta do sorriso que se formara em meu rosto e que passava longe do deboche, um sorriso de espanto e contentamento não tanto pela primeira vez daquele rapazinho subir num elevador, mas da minha própria vez primeira presenciando algo assim, dessas que não imaginei ainda restarem reservadas para mim e ainda por cima avisando, com todo carinho, que nem tudo é sempre igual todo dia, só prestenção, viu?

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Trecho de “Cotidiano”, de Chico Buarque.

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4 respostas para Primeira primeira vez

  1. Renata Lins disse:

    Caramba, que história legal. É de verdade?

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  2. Eduarda Lourenço disse:

    Nossa! Fiquei tentando lembrar quando foi a primeira vez que andei de elevador… Não me recordo! Rs

    Curtido por 1 pessoa

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