Ontem e hoje

Sabe qual é a diferença? É que dez anos atrás havia certo orgulho no ar, visível quando conversávamos com gente de fora do Brasil. Era uma sensação nova para muitos de nós, diferente daquela vivida nos primeiros anos da redemocratização. O que sentíamos há dez anos era a possibilidade de finalmente observar mudanças em certas estruturas antes vistas como constitutivas da nação e, por isso, até então inamovíveis. Claro, havia o contexto exterior favorável, as commodities em alta, o emprego formal nas alturas. Tudo isso ajudou a encobrir uma enorme quantidade de equívocos em diversas políticas públicas, falhas bastante graves e em certa medida eclipsadas por conta dos consideráveis resultados na diminuição da pobreza a pela forte impressão de que finalmente caminhávamos para a diminuição real dos inacreditáveis índices de desigualdade social que sempre foram a nossa marca registrada.

E aqui abro um parêntese. Esse quadro me fez lembrar de um filminho pipoca de 1990, “tempo de Despertar” (Awakenings), com Robert de Niro e Robin Williams. Nele, Williams representa o neurologista Malcon Sayer, que ao conseguir emprego num hospital psiquiátrico se depara com vários pacientes aparentemente catatônicos, mas que sente estarem só “adormecidos” e que, se medicados da maneira correta, poderiam ser despertados. Ele recebe autorização para utilizar um medicamento (a L-Dopa) em Leonard Lowe (de Niro), paciente há décadas naquele estado. Gradualmente, Lowe se recupera e o médico passa a administrar a droga em outros pacientes. É tocante vê-los “acordar” e tentar recuperar o tempo perdido em suas vidas, só que, infelizmente, aos poucos o medicamento para de fazer efeito e tudo volta ao que era antes, ao estado adormecido que caracterizara boa parte dos pacientes daquela instituição.

Dez anos. E o tal orgulho virou um imenso constrangimento — ou, em termos mais pessimistas, voltou a sê-lo –, com o gigante retornando à catatonia habitual.

Essa é a diferença.

[Guardo aqui o que publiquei no facebook. Talvez assim eu não o perca de vista.]

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