Rua do Passeio

​Na entrada de um prédio, em meio à multidão de pedestres apressados, um casal de não mais que vinte e cinco se beija. Ele no rés do chão, ela três degraus acima, compensando a diferença. Beijo de cinema. Demorado, rostos virando de um lado pro outro, em câmera lenta, olhos primeiro cerrados, depois semi-abertos no intervalo em que sorriram ao pausar para respirar. Sim, de cinema, aquele conhecido truque onde o foco da câmera está no centro da imagem e tudo em volta corre tão veloz que se vê borrado.

Só ficou um porém. Praqueles dois terá sido mesmo um beijo de parar o tempo, de borrar o mundo ao redor e de fazê-los um? Ou nada de um pois permaneciam dois, de olho no que os rodeava, se não olhos certamente ouvidos, atentos, buscando sinais de aprovação, de espanto, da inveja que os confirmasse para um mundo-platéia, uma audiência doadora de sentido, que pelo sim ou pelo não fizesse valer aquele beijo na entrada de um prédio na rua do Passeio?

Será que não?

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