Então é Natal

De: Xxxxxx
Enviado: 24 de dezembro de 2015 11:27
Para: xxxxxxxxxxxxx@xxxxxxx.com
Assunto: Natal 2015

No próximo Natal eu e os meus próximos amigos e colegas do Liceu Pedro Nunes teremos 80 Anos (Frederico, Raul, Souto, Velasco, Viana). Temos a saúde suficiente e a cabecinha, embora já tenha tido melhores dias, ainda está operacional. Do grupo de Estudo e Noitadas dos anos 50 só um morreu: o Pedro Ferreira. Recorda-mo-lo de vez em quando. Os mortos são recordados menos vezes que merecem, alguns dizem: é a vida! Era um amigo seguro e certo (como se dizia na Política).

Quando eu era novo um homem de 80 anos era um velho. Hoje achamos que isso é um disparate. Quem tem razão ? Ontem ou Hoje? Que se lixe a constatação!

Aqui estamos para as curvas (não muito apertadas porque podemos ficar tontos)!

Em 2016 espero que continuaremos “unidos como os dedos da mão” e com uma Esperança cautelosa nos Futuros Brumosos.

“Viva a Malta Trema a Terra daqui ninguém arredou”

Um abraço a todos

Natal de 2015/6

António Cabral

* * * * *

De: Ricardo Cabral <xxxxxxxxxxx@xxxxx>
Data: 24 de dezembro de 2015 16:20
Assunto: Re: FW: Natal 2015
Para: Xxxxxx

Senhor António,

Quero crer que sua missiva tenha sido dirigida a outro Ricardo que não este que lhe responde. Suspeito, inclusive, que vivamos em continentes diferentes, o senhor e eu, já que minha escrita difere da sua, embora permita que nos façamos entender — pelo menos assim espero. E devo acrescentar que consideraria mais curioso ainda se sua mensagem fosse endereçada a um parente seu, dado o comum dos nossos sobrenomes. Quem sabe até um filho, por que não?

Perdoe se em poucas linhas fui tão longe em minhas especulações sem sequer colocá-las em perspectiva, correndo o sério risco de ter sido indelicado com tantas conjecturas. E antes de explicar-me, deixe-me dizer que o erro de remetente resultou no que pode ser expresso por um provérbio português muito conhecido cá no Brasil: “atirou no que viu, acertou no que não viu”. É que eu, Sr. António, tão pouco afeito a festejos natalinos, não pude deixar de abrir um inusual sorriso com sua mensagem. E sem mais delongas, explico-me: o seu nome é igual ao do meu pai, exceto pelo acento agudo no primeiro “o”, coisa que o Antonio dele não portava. Aliás, o pretérito imperfeito do verbo portar não é fortuito. O Antonio Cabral que conheci faleceu há vinte e quatro anos e alguns meses e faria oitenta e dois anos em 2016, diferente dos seus futuros oitenta. Mas não quero constrangê-lo com essa informação, creia, pois foi da leitura do seu email que sobreveio o segundo sorriso. Deu-se justo quando o senhor falou sobre um amigo seu já falecido, a quem recorda de vez em quando, e acrescentou que “os mortos são recordados menos vezes que merecem, alguns dizem: é a vida!” Sim, estou totalmente de acordo. Sem saber o senhor me fez recordar alguém de quem faz tempo não lembrava, alguém que até onde sei tampouco era tão ligado assim em festejos natalinos, apesar de encontrar valor no caráter simbólico que eles carregam para muitos. E aí está a graça, ao menos para mim: um simples engano, um email de Feliz Natal que caiu na minha caixa postal, ter virado um singelo e inesperado presente, algo que há muito não recebia nestas datas.

Ah, pelo fato de tratar-se de uma mensagem encaminhada a vários remetentes, sei que bem o quão improvável é que o Ricardo a quem a dirigiu seja um filho seu. Não importa, uma criança de 51 anos ficou contente mesmo assim.

Atenciosamente,

Ricardo Cabral

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