Rancor

Parou na frente da banca de óculos para vista cansada, cruzamento da Nossa Senhora com Figueiredo, feliz pelo par de dois graus oferecido pelo rapaz magro e de meio sorriso ter dado conta não só do primeiro parágrafo do pedaço de papel ensebado, letras miúdas, mas também do segundo, garantia do produto ser bom e de que os vietnamitas, tudo menino, são mesmo a quintessência da arte de fazer óculos de camelô. Feliz e orgulhoso, pois quinze reais, e repetiu para si mesmo, quinze reais e não mil e oitocentos num par só pra ler de noite e conseguir passar da página vinte e nove sem ter que voltar pra oito porque já não lembro mais o que li, um esforço do cão sempre que tô longe da tela do computador ou do tablet ou do e-reader ou você entendeu o espírito, quinze reais pra não precisar mais de quinquilharias eletrônicas pra aumentar o tamanho das letras é a coisa mais linda desse mundo, pensou.

Só mais duas linhas… pronto, pode embrulhar.

Mas ninguém fica lendo papeis ensebados na esquina de um cruzamento daqueles como se estivesse deitado na cama com um daqueles romances policiais que nem se pisca de tão bons pousado na barriga, e ele não ia ser o primeiro. Porque tem sempre um trombadinha, um crackudo, uma velhinha reclamando do bando de vagabundo atravancando a calçada, onde já se viu, daí se entende aquele borrão escuro no canto esquerdo do par de óculos de dois graus perfeito para o cansaço da vista passar de insignificante à condição de inquietante. E fosse pela curiosidade preocupada ou preocupação curiosa, não se sabe direito, resolveu pôr os óculos de volta na caixa-de-papelão-faz-de-conta-que-é-mesa e ajustar o foco da vista de meia-idade, notando, em câmera super lenta, que o tal borrão tinha cabeça, tronco e pernas, e que os braços moviam-se como os daqueles corredores de marcha atlética de rebolado esquisito e determinados a ir até o fim do mundo, se a linha de chegada for lá.

O ex-borrão-agora-gente parecia destemido; ou suicida; ou louco; ou com um timing fora do comum. Atravessava na diagonal o cruzamento mais barulhento e movimentado da Zona Sul da antiga cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, sozinho, com todos os entes ao redor de plateia. Do lado da Nossa Senhora, quatro motoristas permaneciam parados cariocasdagemamente sobre a faixa de pedestres, um mar de carros atrás de si. Do outro, na Figueiredo, mais um tanto roncava os motores como se fosse sair em carreira desabalada sabe-se lá para onde, dezenas de buzinas a bufar-lhes o cangote. E gente, muita gente parada nas oito calçadas, com medo de atravessar.

Louco ou destemido não sei, mas suicida, duvido. Porque esses olhos injetados, essas sobrancelhas raivosas, o queixo duro feito pedra e as narinas escancaradas estão contando outra história, falou para si mesmo, enquanto tentava descobrir para onde ia toda aquela determinação em diagonal. Pôs-se a calcular ângulo, distância e velocidade para concluir que, se não andasse pelo menos um metro para o lado, o camelô macilento, sua caixa-de-papelão-faz-de-conta-que-é-mesa e ele próprio seriam atropelados sem piedade ou dó. Optou pelo lado esquerdo, mas logo entendeu que daria no mesmo se fosse o direito: o corredor de marcha atlética mudou de direção, coisa de dois graus, e a perspectiva do choque seguiu garantida. Sem contar que ele vinha de mãos cerradas, brancas por fora e quase roxas por dentro. Aquilo devia indicar alguma coisa. Boa é que não era.

O marchador alcançou a calçada e viu sumir o meio sorriso do moço, que mais do que depressa afastou sua caixa-mesa-de-papelão como se fugisse do rapa, mesmo sabendo que não era a polícia e sim um homem, a bem dizer um homem-tsunami, e com tsunamis não se brinca. Faltando dois metros de calçada para atingir o sem óculos, o determinado esticou o braço direito e recolheu o esquerdo, pose de atirador de arco e flecha, prenuncio do golpe direto de alguém claramente canhoto. E apesar de toda a velocidade da marcha, a largueza teatral dos seus movimentos atendeu à esquiva do outro, com toda a graça atlética do primeiro virando um tombo daqueles. A sorte foram as aulas de judô quando menino, pois o tombo virou um rolamento que o salvou de beijar o cimento vagabundo do chão.

O sem óculos deu um salto, sentou na barriga do homem-tsunami e segurou seus braços, formando, na calçada da Nossa Senhora com Figueiredo, o quadro de um Cristo prestes a ser crucificado, a cabeça mexendo de um lado para o outro como se gritasse “me solta, porra, me solta!” mesmo sem sair um ai de sua boca, enquanto o outro gritava, mas gritava de verdade, “olha pra mim, porra, olha pra mim!”. E as pessoas em volta, o punguista, o crackudo, a velhinha reclamando do bando de vagabundo atravancando a calçada, os quatro motoristas cariocasdagemamente parados sobre a faixa de pedestres da Nossa Senhora de Copacabana, o outro monte roncando os motores na Figueiredo de Magalhães e o tanto de pedestres nas oito calçadas, todos estátuas, feito a mulher de Lot.

Um dos braços do crucificado desgarra e dá um soco no sem óculos. (“Eu te odeio, porra, eu te odeio!”, deu para ouvir.) Meio grogue, o segundo imobiliza o braço pugilista, e com a serenidade de um iogue diz “eu sei”. “Mas eu… eu te…”, balbuciou o quase Cristo; “Mas eu te amo, nunca parei de”, recebeu de volta, desmantelando o rancor da marcha, do cruzamento, do arco e do desequilíbrio, com o me solta, o soco e o eu te odeio trocados por “me perdoa”, “é você, sempre foi você”, e o antagonismo feito pó, feito laço, feito A Um Passo da Eternidade, sem Burt Lancaster nem Deborah Kerr.

Copacabana, acostumada a tudo, estranhou. Estranhou de um jeito novo. De um jeito estranho. A plateia-feito-estátua não deu conta. E degelou. E dessilenciou. E marchou de todas as calçadas, e saltou de todos os carros, e deixou todas as lojas. E apupou, e ralhou, e censurou, e condenou, e destemperou, e vociferou, e cercou aqueles dois, dezenas de indicadores primeiro em riste, depois recolhidos, tornados punhos, e começaram a bater, e bateram, bateram, bateram, e chutaram, pisotearam, rasgaram, estriparam desmembraram, descarnaram, mastigaram, deglutiram, e não deixaram nem mesmo uma gota, sim, got’alguma daqueles dois. E todos se foram, às lojas, aos carros, às calçadas, todos vingados, certos de que ninguém, viv’almas como aquelas ou a de quaisquer outros, quaisquer mesmo, ousariam, no cruzamento da Nossa Senhora com Figueiredo, amar assim, tão bonito. Onde já se viu?

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