Traición

– Você esteve chorando.
Temi que começasse outra vez a risada histérica. Torci a boca e confessei que, com efeito, estivera chorando.
– Minha esposa me abandonou faz uns meses – disse, tentando sentir uma profunda autocompaixão. – Fugiu com um traficante búlgaro para a Venezuela. Às vezes sinto saudade dela.
Duas lágrimas umedeceram minhas bochechas. Os fatos essenciais estavam corretos, mas os enfeitara um pouco; as pessoas gostam de detalhes exóticos. O homem não era traficante, mas químico; não era búlgaro, apenas vulgar; não vivia na Venezuela, mas em Montevidéu. Tampouco minha mulher me abandonara exatamente, nem fugira; foi uma separação longamente discutida, e em comum acordo.

(LEVRERO, Mario. Deixa comigo. RJ: Rocco, 2013, p. 81)

Tradução é fogo. Vivo querendo dizer isso pros amigos que têm essa sina, mas não banco. Seria canalhice minha, depois do trabalho feito, ficar dizendo, sentado na plateia, que esta ou aquela frase não ficou tão boa, que em português ficou pesado o que em espanhol era leve, que talvez fosse melhor trocar aquele provérbio por um que guardasse o espírito ou a intenção do original em vez de tentar se manter fiel às palavras.

[Canalha mesmo é aquele que pede desculpas e depois segue em frente na canalhice. Prossigo.]

Essa citação lá do começo, por exemplo. Fico pensando que não foi das mais difíceis para traduzir. Até porque está tudo lá: a imaginação, o humor, o toque de cinismo… ou seria aquele costumeiro fingimento das primeira conversas entre dois desconhecidos, a busca da empatia, de um pouco de cumplicidade e crença de que a conexão se estabeleceu? Em todo caso, é quase igual ao original (não consegui o trecho inteiro, mas quase):

—Mi esposa me abandonó hace unos meses —dije, intentando sentir una honda autocompasión—. Huyó con un traficante búlgaro, a Venezuela. A veces la extraño.
Dos lágrimas me humedecieron las mejillas. Los hechos esenciales eran ciertos, pero los había adornado un poco; a la gente le gustan los detalles exóticos. El hombre no era traficante, sino químico; no era búlgaro, sino apenas vulgar; no estaban viviendo en Venezuela, sino en Montevideo. Tampoco mi mujer me había exactamente abandonado, ni había huido; fue una separación largamente discutida, y acordada por ambos.

Não li o original, “Dejen todo en mis manos” (mas adorei o título em português). Só não consigo parar de pensar que, nessa história inventada pelo personagem sobre sua separação, a sonoridade das palavras, a cadência das frases, sua melodia e outras tantas coisas foram grandes parceiras nesse “deslizamento” da verdade para a mentira, de sentimentos, imagens, cenas, conceitos, para outros…

Bom, talvez eu tenha exagerado um pouco em relação a esse trecho, mas insisto no raciocínio. É o caso da letra “v”, por exemplo, que no espanhol da maioria dos países latino-americanos costuma soar como “b”, “El hombre no era traficante, sino químico; no era búlgaro, sino apenas vulgar. Ou seja, de “bulgar” a búlgaro é um pulo, nem precisa fazer força. A imagem se estabelece quase sozinha, não é preciso um personagem com a imaginação e a linguagem afiadas. Já em português… Bom, aos meus ouvidos não foi tão óbvio, a imaginação da gente precisa se esforçar um pouquinho mais, não parece?

Ou a palavra “tampoco”, tão prosaica em espanhol, mas um tanto formal e usada em menor escala em português, pelo menos no português que ouço todo dia, isso para ficarmos com dois pequenos detalhes. (E mais não falo, porque nem terminei de ler o livro ainda e só vim aqui pra me livrar dessas ideias que estão me atrapalhando a vida).

Então me diga, você que escreve e traduz, como faz para escapar desses pequenos ruídos? E como evita que a forma, que as molduras se sobreponham à história, poupando a gente, os leitores, de termos que parar para tirar essas pedrinhas dos sapatos e interromper uma caminhada até ali (ou aqui) tão leve (ou densa, intensa, triste, angustiante, ou divertida, ou irritante)? Conte pra mim porque, cá entre nós, não tenho a menor ideia, como leitor, do que (e como) fazer. E é por isso que preferencialmente leio, deixando a escrita pros escritores, a traição para os tradutores, meu dinheiro para os livreiros e o que sobra do meu tempo rascunhando uma, duas ou três coisas em posts que, volta e meia, não sei como terminar.

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2 respostas para Traición

  1. Deborah Leão disse:

    Uma das minhas grandes motivações para aprender idiomas é poder ler as obras no original, exatamente porque esse ruído me incomoda. Boa parte das traduções me soa como um filme de Sessão da Tarde.

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    • dazibaonomeio disse:

      “Soa a Sessão da Tarde”… E não é que você tem razão? Imagem perfeita!
      Eu deveria querer o mesmo que você. (Na verdade já quis.) Só que ando preguiçoso, em parte pelo que a idade está fazendo de mim, por isso tenho lido muita coisa ruidosa, cheia de arestas…
      Vou voltar mais vezes ao teu comentário, preciso que me ajude a reverter essa onda de acomodação que me engoliu

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