Conversê

Você pensa: entender a “impermanência” e exercitar o “desapego” são a combinação perfeita para lidar com isso que chamamos “viver”. Então pensa mais um pouco e vê que gerações mais novas do que a sua já experimentam essas mesmas palavras, só que de outro jeito, um jeito próprio… de gerações mais novas. Em parte é isso mesmo, um jeito parecido com gerações anteriores — a sua inclusive —, quando eram… mais novas; em parte não, pois é um jeito que carrega algo próprio, relacionado aos últimos quinze, vinte anos se tanto, e ainda por cima elevado à terceira potência nos dez ou cinco que se passaram. As novas gerações, pois, vivem a impermanência e o desapego de maneira diferente. É que elas não se empenham em exercitá-las, como faz um aprendiz do budismo; elas são consumidas, às vezes até atropeladas por elas.

Ocorre que “impermanência” é o nome próprio que o cotidiano das últimas duas décadas carrega, onde tudo é costumeira e baumanianamente líquido, em especial para os nascidos há 20 anos ou menos. Você pode argumentar: ora, isso é ter vinte anos ou menos, e não poderei negar (de todo). Mas acrescentarei que a parafernália tecno-eletrônico-informática que nos envolve resultou, sim, numa forma qualitativamente distinta e transformadora em relação às noções de tempo, espaço, afetos,* tendo papel central no que chamamos “viver” e “mundo” — e aqui é você que vai ter que pensar um pouco antes de negar o que digo. É com o auxílio dessa parafernália que a noção de que tudo é impermanente deixou de ser algo que só se consegue compreender por meio de muita reflexão, meditação, do esforço por desidentificar-se — do corpo, do eu, de objetos, de conceitos etc. —, entre outros métodos ativos, e passou a ser “a” realidade. Só tem um porém: uma realidade que nos dirige, não uma realidade que somos.

Não sei se fui muito feliz na última frase acima, então deixe eu tentar distinguir o que seriam essas “duas impermanências”, falando principalmente da dos tempos atuais. Primeiro devo dizer que esta impermanência contemporânea não é o que nos constitui:** trata-se apenas de um efeito, o resultado da incrível velocidade que imprimimos (e/ou que nos imprimem) a tudo o que fazemos, tocamos, sentimos, pensamos e desejamos. Ora, é senso comum que hoje em dia tudo se torna obsoleto em segundos; ou melhor, tudo é planejado e construído para que sua obsolescência seja quase instantânea. Não é de estranhar que as próprias relações afetivas sejam influenciadas por isso. E é aqui que entra o tal desapego: ele não é exatamente o modo como se quer efetivamente lidar com os objetos, as pessoas, o próprio corpo. Não se trata da compreensão de que o apego é uma prisão, uma ilusão irresistível de que devemos nos libertar ou coisa parecida. No fundo, o que parece desapego não passa de uma versão do seu antônimo, o próprio apego, só que vivido em versão acelerada. Pula-se de um apego ao outro como se pula de um pensamento a outro, de um desejo a outro, feito um cavalo xucro lutando para não ser domado; mas a busca pelo apego segue a mesma e não cessa. Se há desapego, ele só exite no intervalo entre um apego que não se quer mais e o apego que ainda não foi alcançado.

Se falei que no mundo das gerações mais novas a impermanência e o desapego não passam de versões disfarçadas de permanência e apego, entre os*** mais velhos as coisas não são muito melhores. Contra o que lhes parece volátil demais, inconstante demais, apegam-se aos seus objetos e lembranças, sentindo-se estrangeiros neste viver etéreo, certos de que o bom já aconteceu e o hoje não passa de uma versão resumida e descartável do ontem. Com isso, muitos não percebem que, ao viver assim, o presente passa inadvertido por eles.

É tudo isso e não é nada disso.

Se, como disse por aí, o mundo das novas gerações não conhece o limo, só os filtros do Instagram que o emulam, preciso acrescentar que o limo das velhas gerações também não parece mais ao alcance da mão, pois só existe o de suas lembranças.

Vamos sair à rua e andar com vagar: uns diminuindo a velocidade do passo e olhando ao redor; outros, deixando as lembranças em casa e vendo tudo como se fosse pela primeira vez.

Hora dessas pretendo fazer isso. As duas coisas.

.

_______________

* A compressão do tempo e do espaço em função de novas tecnologias ocorre desde que o ser humano criou sua primeira ferramenta. A diferença hoje talvez esteja não apenas na velocidade das mudanças, mas na capacidade que o ser humano tem de digeri-las adequadamente nesses intervalos cada vez mais curtos. Particularmente, percebo uma indigestão generalizada, o que considero um tipo resposta de nossa espécie sobre a lida com essa questão.
** Vale dizer que não sei bem o que nos constitui, mas isso é outra conversa.
*** Talvez o mais correto seja dizer “nós”.

Anúncios
Esse post foi publicado em (re)flexões, conversê. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s