Nadando contra a corrente, só pra exercitar (ou, por que não, "a Geni da vez")

Ok, muita gente se indignou com a privatização da praia do Forte de Copacabana, veiculada na matéria que saiu na Veja Rio no fim de semana passado. (Tem por aí, é fácil de achar na rede, não quero ficar fazendo propaganda gratuita dessa publicação.) Cá entre nós, eu também fiquei bastante contrariado. E ainda vimos o tom de indignação nas redes sociais ser turbinado pela legenda da foto de uma moça, “A socióloga Camila, que trocou Ipanema pelo beach club carioca”, e pelo que seriam trechos de um depoimento seu. Diz a “matéria”:

‘Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado’, diz a socióloga Camila Diniz. ‘Posso beber champanhe na taça e fazer escova no cabelo após mergulhar.’ Assídua desde a inauguração, ocorrida em 9 de janeiro, Camila calcula já ter gastado 3.000 reais na brincadeira (veja o quadro com os valores nesta página). ‘Vale muito a pena. Nem em Paris os garçons entendem tanto de bebida’, justifica.

Ok de novo, porque essas falas acompanhadas pelo “socióloga” de fato não ajudam muito. E com isso a moça virou a representante mor de um grupo de endinheirados em busca de privilégios em relação à matulagem – e, sobretudo, querendo distância dela.

Esse é o resumo da história.

Mas é isso mesmo? A moça seria a reencarnação de Maria Antonieta, ou melhor, do infeliz raciocínio atribuído à L’Autre-chienne (“Se o povo não tem pão, que coma brioches!”)? Ainda bem que apareceu um “outro lado”, não na Veja, mas no jornal O Globo, seu aparentado. Mesmo sem livrar a moça de todo o mal, amém, a matéria sugeriu que as coisas não foram bem assim, que as falas da menina teriam sido editadas e, com isso, soaram a puro preconceito:

 Me senti prejudicada com a matéria, pois colocaram duas coisas de contextos diferentes em uma frase: ‘A socióloga Camila Diniz deixou de frequentar Ipanema para ir ao Beach Club: o público é mais selecionado’. Isso soou com tom de preconceito da minha parte e não falei isso. O que eu disse foi que deixei de ir onde ia enquanto o clube funcionava naquela temporada e que as pessoas que vão ali buscam algo diferente do comum, uma praia com djs, com garçom, com ambiente diferente, buscam ter uma praia pra dançar, um clube onde você tem outros atrativos.

Terceiro oquei, porque a defesa que a moça faz de si mesma não é propriamente um portento, mas tampouco dá a entender que se trate de uma alienada fútil cujo diploma de sociologia foi tão comprado quanto qualquer bolsa L&V ostentada pelos beach clubs mundo afora, e que o canudo só teria sido dessa profissão porque os das outras já tinham acabado.

Mas nada disso importa, porque seguir nessa toada é continuar a malhar [a] Judas ou jogar pedra na Geni, enquanto outras personagens mais centrais ficam de fora. (Aliás, é interessante saber das iniciativas que pretendem “invadir a praia” dessa gente de salto alto bebendo champanhe, semelhante ao Churrascão da Gente Diferenciada que ocorreu em Higienópolis em 2011. Saberemos dos desdobramentos, caso eles resolvam mesmo sair do virtual.) Dito isso, ninguém vai falar sobre o veículo que fez a matéria, sobre sua (questionável) credibilidade? Ninguém vai discutir, por exemplo, o tom irônico da “reportagem”, um tantinho crítico a tudo e todos os que ela descreve, ironia essa que, curiosamente, serve para neutralizar seu próprio lado deslumbrado, estilo Revista Caras, que adora mostrar a “pujança” do capital, neste caso emoldurada pelos dezessete valores em Reais citados – que vão de 65 a 2,5 milhões – e por sua referência a uma atração que aproximaria o Rio de Janeiro das “[…] sofisticadas praias de Ibiza, na Espanha, […] [de] Punta del Este, no Uruguai, e […] [da] badalada Jurerê Internacional”? Ninguém vai indagar sobre a edição das entrevistas, cujo tom oscila entre a crítica desdenhosa e o elogio “inveja boa”? E não há nada a dizer sobre o foco da matéria ter sido posto nas mulheres? Porque, convenhamos, até os grãos de areia da praia do forte sabem que ao colocar o feminino em evidência abre-se a porteira para incontáveis argumentos ad hominem, todos eles rondando o significante “puta”, não é?

E para piorar um pouco as coisas, houve menções aqui e acolá sugerindo que os críticos do empreendimento na praia do forte de Copacabana estariam apenas com inveja, que no fundo eles queriam mesmo ter grana para gozar daqueles mimos todos regados a champanhe e embalados em música eletrônica. Pois direi algo que talvez vocês estranhem, se é que não vão detestar: esses comentários, por mais babacas que soem, não são tão descabidos assim, mesmo quando dirigidos a defensores da justiça social nem um pouco chegados à música eletrônica e que preferem uma boa cerveja numa roda de samba. (Eu avisei que pioraria as coisas.) Sim, a inveja é uma merda, mas ela não deixa de ter seu quinhão nesse imbróglio todo. (Não sei se consola, mas se ela diz respeito a vocês e a mim, não deixa de incluir os próprios comentaristas babacas do início do parágrafo.) E para dar sustança ao que digo, recorro a um artigo do psicanalista Manfred F. R. Kates de Vries: 1

O sociólogo Helmut Shoeck […] levanta a questão da universalidade da ‘causa da inveja’. Ele sustenta que ‘a inveja é uma força que se situa no coração do homem como ser social e que se manifesta assim que dois indivíduos estão em condições de estabelecer uma comparação recíproca.
Segundo Shoeck, a essência da inveja reside na rejeição da diversidade. O homem experimenta uma grande necessidade de igualização. Por exemplo, mesmo uma política governamental, como a progressividade dos impostos, encontraria raízes na inveja. É assim que a inveja geraria os controles sociais dos quais depende a sociedade.

Bom, conviria comentar um pouco mais sobre a citação aí de cima, mas fica para outro dia. É que está na hora de terminar, já falei muito sobre uma notícia velha demais para os parâmetros da internet. Agora vou ali, pedalar vendo o mar, imaginando a praia do forte de Copacabana não mais privada, por fim livre de riquinhos e outra vez exclusiva dos valorosos militares que servem por lá e precisam renovar constantemente suas energias mergulhando nas águas daquele pedaço de paraíso. Vou na direção de Ipanema, perguntando-me se a Camila Diniz já pode voltar a frequentar essa praia sem medo, quem sabe escolhendo ficar no posto 9, e, já pensou, com sua canga estendida pertinho d@ jornalista que a entrevistou e do grupo que pediu a cassação do seu diploma.

__________

1 “A inveja, grande esquecida dos fatores de motivação em gestão”. In: CHANLAT, Jean-François (coord.). O Indivíduo na Organização: Dimensões Esquecidas. SP: Atlas, 1996, pp. 67-82.

Anúncios
Esse post foi publicado em (re)flexões, humanidade, notícias, sociedade. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s