Martedi, 7 agosto, de Ipanema a Laranjeiras, passando por Copacabana

Visconde de Pirajá, Gomes Carneiro, Francisco Sá, o sinal fecha. Uns três minutos para o 485, linha Penha – Pça. General Osório, tornar a andar e logo virar à esquerda, mais ou menos no início da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Éramos o motorista, o trocador, eu e mais um, até o ônibus frear nalgum ponto do bairro e outro passageiro entrar. Parei de ler meu livro e dirigi o olhar para a roleta, sabendo que a explicação do gesto fica por conta das teorias sobre atenção e percepção. Não notei se o pagamento foi em dinheiro ou com algum bilhete eletrônico, mas lembro de ter perguntado aos meus botões se o cara seria estrangeiro, um estrangeiro de cara conhecida, ou se era cearense. A dúvida só acabou quando o sujeito atendeu o celular com um sotaque de alguém vindo de terras mais distantes que o nordeste brasileiro, e a cara que não me era estranha ganhou nome e sobrenome bem na hora em que ele olhou de rabo de olho para mim, eu sorri e perguntei “o senhor não é escritor?”, e ele acenou naquele gesto universal dizendo que sim, sorrindo de volta.

Voltei meus olhos para o livro assim que o tempo regulamentar dos sorrisos entre cidadãos que não se conhecem acabou, mas não deu nem meia página até  ter que guardá-lo na pasta e apertar o botão para descer do ônibus. Mais de cinco passos e escutei um “ei!, ei!” e me virei para ver que se tratava do estrangeiro de cara conhecida que se aproximava estendendo a mão para me cumprimentar.  “Eu até tive vontade de tirar um retrato seu, mas fiquei constrangido, não queria ser invasivo”, disse a ele, deixando claro por que não há a menor chance de um dia eu vir a ser um bom fotógrafo. “Pode tirar”, foi o que entendi ele responder. Tirei da pasta a câmera que vivo levando para passear comigo, a cara conhecida postou-se ao meu lado e bati a foto. Achei o registro aceitável, ele pareceu concordar, então perguntei como andavam as coisas. “Tem só um juiz chateando, falou que não dei meu endereço pra polícia federal, mas não é verdade. Acho que quer mídia”, e depois piscou. “Então boa sorte”, foi a última coisa que eu disse, os dois seguindo em direções opostas.

Sigo achando que o Cesare Battisti tem um pé no Ceará

Pode que ele tenha feito aquilo de que o acusam, pensei.  E se eu tivesse certeza, teria bateria a foto?, pensei também.

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3 respostas para Martedi, 7 agosto, de Ipanema a Laranjeiras, passando por Copacabana

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  2. Mário de Oliveira Pinheiro disse:

    Pô, leitor peripatético, o que tu achas que o Cesare Battisti fez? Caro cidadão,temos certeza, sim, de que não bateríamos fotos de seus acusadores, de lá e de cá.

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  3. Colafina disse:

    Puis… acho que sim, você teria batido a foto. E a postaria acompanhada de outro belo texto, como este que acabo de ler, no qual se perguntaria o que teria levado este homem a fazer o que fez, ou se você poderia fazer ajudá-lo, se alguma ajuda fosse necessária, ou por que você não saiu correndo antes de tornar-se sua próxima vítima, ou… 😀

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