“Acho que foi coisa da minha imaginação” [Página|12]

Por Carlos E. Sluzki*

Tempos atrás eu estava ajudando um homem em terapia a reorganizar sua identidade, danificada durante dois meses de impiedosa tortura numa prisão do governo militar do seu país de origem, seguida de exílio forçado. Depois de algumas sessões onde se mostrara profundamente embotado, esse homem começou a chorar de maneira inconsolável, o que durou semanas. Chorava, dizia ele, pelo tempo perdido, pela inocência perdida, por seus ideais traídos, pelos amigos mortos ou que continuavam presos, pelo seu próprio sofrimento. Em certo momento do processo terapêutico incitei-o com suavidade a incluir comentários sobre seus algozes, que expressasse suas emoções sobre o assunto. Freou minha iniciativa: “Não estou interessado neles — disse. — Deixe-me viver meu luto do meu jeito, em paz”. É claro que ele tinha razão.

Recentemente, ao longo do processo terapêutico com uma mulher que fora abusada emocional e sexualmente durante muito tempo pelo seu namorado, ela começou a descrever seu violador referindo-se ao seu contexto, sua história e seu estilo. Como tive a impressão de que com essas descrições ela estava tentando justificar essa violência, desafiei sua descrição, definindo sem nenhuma ambiguidade a responsabilidade que ele tinha sobre tal violência. Ela me corrigiu: ”Não é que eu esteja justificando seus atos. Tento entendê-lo, vê-lo como um ser humano e não como um objeto, para diferenciar-me dele. É isso que eu estou fazendo”. De fato, ela tinha razão.

Outra mulher, vítima de assalto e estupro que a deixou profundamente traumatizada, passou um longo período dominada pelo que considerei um discurso interminável de ódio, com planos fantasiosos de vingança contra seus agressores. Enquanto isso, como testemunha da sua história, eu legitimava a sua indignação, de vez em quando fazendo observações centradas no seu sofrimento, na perda da inocência, sua decepção a respeito do mundo. E cada vez que eu fazia isso, ela me acusava de tentar distraí-la do que era central para ela, isto é, a legitimidade de sua fúria. E, claro, ela também estava certa.

O trabalho terapêutico com vítimas de violência — sobreviventes de atrocidades individuais e coletivas — envolve um processo de descoberta e recuperação de verdades, de facilitar o luto, de reconstituir a autoria e a capacidade de tomar iniciativas através da ação e da reivindicação, de recuperar o futuro e reconectar-se consigo mesmo e com os outros. Isto implica numa tarefa por vezes árdua de ajudar nossos pacientes a mudar especificamente aquelas narrativas sobre a sua experiência de vitimização e as consequências morais e comportamentais das mesmas, que os aprisionaram num mundo onde sua capacidade de autoafirmação, reconhecimento, autoria, autonomia, crescimento, alegria e enriquecimento emocional recíproco foi drasticamente reduzida.

Qualquer ato de violência interpessoal põe em cheque nossas premissas sobre como conceber e descrever nossa vida e nosso entorno, destruindo nosso lugar no mundo. Não surpreende que o primeiro efeito de um ato de violência sobre a vítima seja uma experiência de confusão, uma perda da coerência interna que constitui sua identidade: a violência destrói o modo de descrever o mundo; consequentemente, destrói esse mundo. Uma criança com um braço quebrado por uma surra de um pai ou de uma mãe mal-humorados, uma mulher que recebe um soco de seu marido, um idoso inválido emancipado pelo abandono de seus filhos, uma menina que acaba estuprada num encontro que ela pensou ser amigável, uma pessoa que é assaltada num beco por um ladrão, um cidadão que é torturado por um agente de segurança, o estupro em massa de mulheres para “contaminar seu grupo racial”, o extermínio sistemático de uma determinada população, a expulsão massiva de um grupo étnico, o Holocausto, os atos de Khmer Vermelho, Ruanda, Darfur, todos têm em comum a violação dessas premissas básicas de segurança e de respeito mútuo enquanto seres humanos, desse apoio que esperamos como membros de uma família, de uma comunidade ou da família humana. Em cada um desses casos as vítimas são despojadas do requisito de coerência necessário para viver em um mundo previsível, ordenado e razoável.

Essa fratura na trama do mundo despedaça a identidade e gera, nos que a padecem, uma fome de coerência, um desejo básico de ordem. Consequentemente, buscarão e aceitarão qualquer descrição que lhes permita restabelecer uma aparente estabilidade em sua visão de mundo e de si mesmos. Esta necessidade extrema de clareza faz com que as vítimas de violência estejam disponíveis para incorporar narrativas distorcidas e tóxicas provenientes de sua cultura ou da tradição familiar, de suas próprias experiências anteriores, ou ainda daquelas oferecidas seja por seus próprios algozes ou pelas testemunhas da violência.

Uma bofetada, o estupro, um ato de tortura, uma morte violenta são rótulos descontextualizados, desnudos, que definem atos de violência e não a sequência dos atos, o total de participantes, o contexto ou os preceitos morais ou relacionais, a totalidade de elementos constitutivos de uma história. Muitos dos traços das histórias — e de suas transformações a partir de uma experiência de violência e a partir de uma terapia — são facilitados pelas histórias dominantes em nossas culturas, pelas tradições e mitos e múltiplas histórias que outorgam identidade a nossa família e a nosso entorno cultural e étnico, pelos temas dominantes em nosso estrato sócio-econômico-político — com sua cota variável de sexismo, classismo e regionalismo —, por nossos credos — tais como a noção de carma num contexto budista e a de pecado e castigo num contexto judaico-cristão —, e pelos relatos dominantes nos meios de comunicação de massa. Esses mitos e histórias arquetípicas ou idiossincráticas proporcionam anteprojetos explicativos prontos para influenciar ou ainda guiar as histórias pessoais em vias de serem reorganizadas logo que uma experiência de violência tira uma pessoa do prumo.

Só que os algozes, os cúmplices, os possíveis espectadores, as testemunhas (mesmo as mais bem intencionadas) e até a própria vítima têm o poder de, através de suas ações e comentários, facilitar, semear, inocular certos argumentos que mistificam, opacam e re-editam, por assim dizer, a natureza violenta do ato, assim como a responsabilidade tanto dos perpetradores quanto de suas vítimas.

Quando se deturpa a quem pertence a iniciativa e se mistifica o papel do agressor, a violência passa a ser definida como se seu autor tivesse sido forçado por alguma outra instância (“Eu não queria, mas …”), culpando, em última instância, a vítima (“você me fez fazer isso”), as circunstâncias externas (“Eu estava estressado pelo meu trabalho”,”Eu apenas obedecia ordens”), os hormônios (“O que você quer? Eu não sou feito de pedra! “), os genes (“você sabe que eu sou assim, temperamental. Por que foi me provocar?”), os mal-entendidos (“Você me convidou para ir ao seu apartamento, por isso não venha me dizer que não esperava que fôssemos para a cama!”), as outras gerações (“Eu estava me vingando pelo que seus avós fizeram com os meus avós”).

Acrescentando mais confusão ao cenário, o agressor — ou uma testemunha, ou mesmo a vítima, quando foi “adequadamente treinada” por suas experiências anteriores — pode rotular o ato de violência não como violência, mas como educação (“É pra você aprender!”) ou como amor (“Fiz isso porque te amo demais!”).

Desqualificando a experiência da vítima, o efeito físico ou emocional da violência pode ser negado (“Não doeu tanto assim!”; “Bem que você gostou, não é?”).

Mistificando o corolário moral, a intenção do ato de violência pode ser redefinida (“O que estou fazendo é pro teu bem!”). Além disso, o agressor, o contexto ou mesmo o imaginário da vítima podem forçar esta última a aceitar uma versão distorcida da realidade, através de ameaças de isolamento social, de risco de desesperança, do apelo à vergonha (“Todos te conhecem e vão ficar sabendo que, na verdade, foi você que provocou, você vai ser motivo de chacota pra todo mundo!”), à falta de credibilidade (“Ninguém vai acreditar em você!”), ao terror (“Se você contar pra alguém eu volto e te mato!”), à loucura (“Você está completamente louco/a! Isso nunca aconteceu!”).

Resumindo, depois de sofrer atos de violência intensa e às vezes repetida, as vítimas, em função dos processos descritos acima, tenderão a apresentar graus variados de confusão ou desorganização — efeito da diminuição de sua capacidade de narrar sua história sobre as circunstâncias e manter a coerência a respeito do seu mundo —, ou então distorções na história da violência onde creem ocupar, em alguma medida, a posição de auto-agressoras ou no mínimo cúmplices de sua própria vitimização e sofrimento (“Fui eu que provoquei”; “Fui eu que procurei”; “Eu mereci”; “Acho que foi coisa da minha imaginação”).

Estas descrições distorcidas dão à vítima uma pausa temporária, uma saída provisória para o terrível sentimento de traição das premissas básicas da vida por parte do ato de violência, já que essas mistificações questionam a própria existência da traição: na verdade teria sido um ato de amor, ou pedagógico, ou provocado pela vítima ou mesmo desfrutado por ela. Assim a vítima esquece o que aconteceu, redesenhando e adequando a história distorcida. Essa alternativa, a que muitas vítimas de violência se agarram como tábua de salvação, ocorre às custas do abandono de qualquer insight,validação e protagonismo ético. De fato, tal saída acarreta desvantagens significativas: requer um intenso esforço psíquico para ser mantida, já que ocorre a partir da negação de sinais provenientes do feedback dos demais, do próprio corpo e até do senso comum; portanto, esta estratégia promove um entorpecimento emocional, levando ao isolamento progressivo em relação aos membros significativos da rede social — família, amigos, vizinhos — que contrariam essa versão da realidade, levando à redução do contato social íntimo; aumenta o risco de recorrência do dano, posto que não favorece comportamentos protetores necessários para evitar a recorrência da violência, ou seja, reduz a possibilidade de aprendizagem e mudança, obscurece a necessidade de uma reparação em relação ao sofrimento, já que o agressor deixa de aparecer como tal na história. Portanto, escamoteia a ética relacional e, a longo prazo, consolida uma visão solitária e desesperançada da realidade, já que a visão de mundo adotada frequentemente implica que “as pessoas estão sempre prontas para tirar vantagem de mim” ou que “eu mereço ”, minimizando a resistência e facilitando a perpetuação da violência.

Um dos resultados — e às vezes uma das intenções — de todo tipo de violência coletiva é não apenas a eliminação da própria vítima (seu desaparecimento, seu absoluto denegrir, sua expulsão), mas também a destruição da história de vida das vítimas, de seus testemunhos e lembranças, da sua identidade. Esse processo é frequentemente compartilhado pela violência interpessoal, privada.

O objetivo do processo terapêutico com vítimas da violência é exatamente o oposto: é “dar voz” às vitimas desestabilizando os componentes mistificados da história de vitimização, restaurando a memória e a identidade e abrindo as possibilidades de re-capturar o protagonismo de sua vida, assim como de recuperar sua dignidade.

Narrativas de recuperação

A evolução de cada narrativa de violência daquele que sobrevive é idiossincrática: cada paciente evoluirá em seu próprio ritmo, através de seu próprio calvário e seus próprios ritos de passagem. A cura frequentemente inclui uma série de transformações na história da violência. Cada paciente permanecerá em uma ou outra das possíveis narrativas durante o tempo que precisar para poder tecer a trama que recapturará de forma digna suas identidades, suas introspecções e sua capacidade para a alegria e a esperança. Algumas incluirão o mundo dos seus agressores, o mundo dos seus autores, algumas não (e ela pode evoluir da não inclusão para a inclusão ou vice-versa). Algumas localizarão a fonte da responsabilidade de vitimização no agressor, outros nos expectadores, ou no contexto, ou em outros personagens (frequentemente movendo-se de uma história simples, linear, para uma mais complexa e rica) ou, em parte, na vítima — se disto se depreenderem aprendizagens e insights enriquecedores. Alguns apresentarão uma história em contínua evolução, enquanto outros alcançarão um determinado ponto e pararão por aí. De fato, existem muitas maneiras de viver uma vida.

No curso desse processo acompanhamos nossos pacientes através de alguns paradoxos resistentes. Um deles é que o fechamento da história, a resolução interior é algo necessário, mas toda conclusão definitiva da história é impossível, já que para garantir que se retenha tudo o que se aprendeu dela é preciso, até certo ponto, mantê-la viva.

É importante ter em mente que, apesar de toda a expectativa, a terapia não é restauradora, isto é, as vidas dos sobreviventes nunca serão “como antes”. Eles viverão, esperamos, vidas diferentes, vidas com menos sofrimento e mais prazer, com mais iniciativa e mais liberdade, vidas valiosas, mas não “como antes”. De fato, as fantasias de restitutio ab initio (ou seja, de que a experiência traumática vai desaparecer através da terapia, como uma espécie de recompensa pelo esforço e pelo sofrimento) constituem uma expectativa ilusória bastante frequente não apenas em muitas das vítimas de violência em processo de recuperação, mas também em muitos terapeutas, o que acrescenta ao processo mais um nível de luto (a perda do final feliz tanto para a vítima quanto para o terapeuta). É por isso que podemos prever que a conclusão de um processo de reparação será seguida por uma sensação ambivalente de sucesso e de fracasso, de satisfação e de vazio.

* Extraído do artigo ”Victimización, recuperación y las historias ‘con mejor forma’”, incluído na revista Sistemas Familiares y otros Sistemas Humanos, da Associação de Psicoterapia Sistêmica de Buenos Aires.

[“Las ‘Narrativas’ en la Terapia con Víctimas de Violencia”, Página|12, domingo, 4 de março de 2012. Tradução: Ricardo Cabral.]

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