Posta restante

Querida F.,

Era pra ser um email, mas eu e meus botões ficamos pensando no que a M. falou sobre privacidade, na minha própria relação com o público e o privado e no fato de nós dois blogarmos faz tempo, eu para meia-dúzia e você para as multidões, minha Emilinha Borba das internetes. Foi por isso que resolvi pôr a conversa aqui no blog e deixar pra quem quiser ler do jeito que quiser ler. Você sabe, é a tal questão, comum à maioria, que não sei dizer se o quanto nos inclui, mas agora já foi, e que só se diferencia pela escala: o fato de todos sermos meio voyeurs,  minha flor, sorvendo histórias alheias, furtando-as nos pontos de ônibus (e dentro dos próprios), no restaurante, na fila do pão, da loteria e até na sala de espera do oncologista, torcendo pra não ser melanoma, só marcas da galopante velhice. Além do mais, de vez em quando é bom arrefecer esse péssimo e constante hábito de tentar controlar os pingos da chuva, a dureza das pedras e o fato dos cheiros e dos sons não pedirem licença para invadir-nos enquanto perambulamos por aí, não é? Eu pelo menos preciso aprender.

O que me faz lembrar que há cinco dias — na verdade tinha escrito há três, depois há quatro, mas como não consigo terminar este post-carta nunca, anteontem já é hoje e nessa marcha daqui a pouco será há trinta e três dias atrás —, naquela hora do dia em que a gente resolve dizer boa tarde e os outros respondem boa noite, aconteceu da minha composição chegar na estação X do metrô, pertinho aqui de casa, eu posicionado na primeira porta do terceiro vagão, a mais próxima da escada rolante — você bem sabe como o tédio das longas jornadas leva a mim e outros tantos a calcular essas coisas — e nem te conto, ou melhor, conto sim, sabe quem entrou antes que eu conseguisse dar o primeiro passo? Uma maresia inverossímil e intensa, e tinha mesmo que ser assim para ter chegado até ali, a seis quadras da praia, minha preta, isso mesmo, seis, sem contar as duas escadas rolantes que ela teve que descer quando resolveu entrar na composição em que eu estava, com especial atenção ao terceiro vagão, tenho pra mim que porque achou de resolver mudar de praia. Maresia pra maravilhar crianças, linda minha, e ao mesmo tempo preocupar velhos, temerosos de que aquilo seja mais um sinal daquele fim do mundo que eles ouvem falar desde que se entendem por gente.

Mas as visitas inopinadas não pararam por aí. Dois dias depois, ou seja trasantontem — palavra que o Houaiss diz ter surgido em 1721, sessenta e oito anos antes de trasanteontem —, tomei um susto danado quando vi uma abelha na capa do livro que há uma semana venho lendo todo dia de manhã a caminho do trabalho — sabe como é, nessa hora do dia a vista ainda está razoável, bem diferente do lixo que ela fica oito horas depois e que me tira a concentração e me convence que emburreci, ou seja, melhor rever de uma vez o grau dos meus óculos de velhinho. Mas eu falava da abelha que pousou na capa, tenho quase certeza de que na cadeira vermelha ali estampada, vá entender o que essa abelha viu nela, mas vale dizer que a cadeira deixou a capa bem bonita, pelo menos eu achei, não sei se você também vai gostar, espera um pouco…

pronto, olha ela aí, não tem mesmo o jeito de puteiro de cidade do interior de que o livro trata? Dá até pra imaginar a Nelly, a Irene, a Maria Bonita ou o próprio Larsen sentados nessa cadeira. Aliás, não sei se você o conhece, é o Junta-Cadáveres do título, chamado assim

… por se fazer ‘colecionador de putas pobres’, do hábito de tratar mulheres já gastas com uma condescendência interesseira e ao mesmo tempo mesclada de dolorosa piedade — desde que elas, as mulheres, fossem aproveitáveis.

Li esse livro faz uma eternidade, mas naquele então não lhe fui digno, se é que dignidade é a melhor palavra, porque só agora, nas manhãs a caminho do trabalho, com surpreendentes abelhas me acompanhando e tendo a vista remoçada por um tiquim de sono bem dormido, e também semi-saciado do mundo ao redor por conta dos registros matinais em P&B feitos em dezembro e janeiro, consegui apreciar com o vagar necessário as imagens meio Francis Bacon meio Lucian Freud que o Onetti imprimiu nas minhas retinas, só consigo falar mesmo das minhas. E invejei tudo o que li até agora, F., as cento e dez páginas — porque leio devagar, umas vinte por viagem, até a trezentos e dezessete ainda falta a companhia de um enxame inteiro —, sem essa conversa de inveja boa, inveja branca e que tais, pois vá pôr em cinco linhas tanta poética lá no raio que os parta, seu Juan Carlos.

Sabe, tô aqui pensando que não é só a beleza das prosas que me arrebata. É que depois de velho reconheço ter finalmente sucumbido às tais identificações, minha nega, à precária ilusão de que quando algo se parece com um arremedo do (que imagino ter sido) real colecionado nestas mais de quatro décadas respirando por aí, esse meu instável real, só me resta baixar a guarda e dar corda à condescendência, igualzinho àquelas mães que veem seus filhos sociopatas como anjos barrocos, sabe? E a cada dia parece que conservo com mais carinho, nos cantos da minha divagante memória, essas histórias relatadas, filmadas, emolduradas ou encapadas, brochura ou capa dura, tanto faz, que com a guarda baixa conseguem me tirar do sério, do conforto, das certezas que vivo dizendo que não tenho e que de vez em quando dão o ar da graça. O exemplo mais próximo, fora a ficção do Onetti lá de cima, é o filme que vi ontem, que a R. gostou, mas que eu disse gostei com a boca mais cheia, os olhos mais abertos, mesmo não sendo o filme do ano de 2010, deste mês então nem se fala. Mas tenho que te dizer que ele é próximo, F., próximo da história da gente, da nossa geração, daquela história que alguns andam dizendo que nem existiu ou então que temos que virar a página, parar de insistir. Pois eu só quero esquecer aquilo que estiver doendo demais, minha amiga, mas só enquanto estiver doendo demais. Assim que o sangue esfriar um pouco quero mais é lembrar, lembrar e elaborar, lembrar e chorar, gritar, acusar, sei lá se perdoar (embora saiba que faz um bem danado pra quem perdoa), e depois seguir em frente, se der. E esse filme bateu ali, nas identificações, no latinoamericanismo que carrego e que não sumiu, não tem como sumir, e por isso condescender vai virando o verbo a conjugar, em papel, película, tela ou suporte que for.

Bom, é isso, dona moça, acho que te atualizei um pouco das coisas por estas bandas. Tem outras novidades, coisa boa, mas essas só você ouvindo a minha voz, sem registro escrito. Te ligo, me ligue, o celular você tem e pode chamar quando quiser, pode ser por skype.

Beijo grande,

Eu

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7 respostas para Posta restante

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Pingback: O Pensador Selvagem

  3. fal disse:

    Querido R.
    Nada, só isso, só pra te chamar de querido. E de R.

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  4. Colafina disse:

    R., primor de texto!
    Saiba que essa sua desatenção com seus beeeem mais que meia dúzia de leitores assíduos é injustificável! Como já bem disseram o P., e o G., e o D. também… cadê o seu livro, pô?
    C.

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  5. Ricardo C. disse:

    Não são tantos assim, meu velho e bom amigo, mas certo é que são generosos, muito generosos com os meus escritos 🙂 Quanto ao livro, ah, meu caro, demorará a sair algo assim. Já as tuas publicações eu tenho certeza que serão muitas, porque material não te falta!

    Abração

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  6. Que beleza de texto! Hoje quando estiver voltando para casa, quem sabe na mesma composição de metrô (a minha estação é a do Cantagalo – nome bonito não é mesmo), não posso esquecer de procurar as abelhas e sentir a maresia… Ah que texto bonito!

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  7. Ricardo C. disse:

    Coisa boa ser surpreendido por um comentário teu, Alexandre, mais ainda quando o blog anda às moscas, a culpa disso quase toda minha, é claro.
    Coisa boa mesmo, viu?
    Abração

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