Filosofia de botequim

Alguém sabe dizer se existe algum estudo sobre “a história universal do” elogio ou da crítica elogiosa? Porque só hoje, depois de semanas desatualizado sobre o que anda sendo noticiado, comentado, criticado, elogiado e sei lá o que mais, acabei lendo em blogs, Facebook e twitter umas quatro ou cinco críticas elogiosas sobre os temas mais díspares, mas todas com uma característica comum: seus autores acrescentaram às tais críticas elogiosas que fizeram o fato delas coincidirem com aquilo que eles mesmos pensavam.

Mesmo sem ter saído do país nos últimos oito anos e circulando relativamente pouco pelos diferentes estados da nação nesse mesmo período, tenho a nítida impressão de que a gente — você, eu, o Eike Batista, o Mr. Catra e boa parte das torcidas dos times mais populares do país — anda mais umbiguista do que antes. Se de fato a diferença não for estatisticamente significativa, parece que as manifestações do gênero têm sido mais visíveis. Claro, é preciso levar em consideração que estamos muito mais conectados do que antes, acessando informações e manifestando nossas opiniões em fóruns diversos com muito mais facilidade do que na era pré-internet. Ou seja, o que antes dizíamos apenas a um círculo restrito de pessoas, hoje pode se tornar um viral e chegar ao outro lado do planeta em poucas horas, com gente respondendo, concordando, discordando e tudo mais. Mas insisto no ponto: é possível avaliar se com a consolidação de uma cultura do narcisismo e do individualismo — ao menos em boa parte do Ocidente — a autorreferência do nosso olhar para o mundo aumentou nas últimas décadas?

Em outras palavras, espero não estar confundindo duas coisas:

1) que, de forma explícita ou não, nós realmente andamos mais autorreferentes do que em outros tempos; e
2) o fato de hoje em dia explicitarmos com maior frequência aquilo que pensamos (e sermos incentivados a fazer isso), ou seja, que isso é apenas mais visível do que antes, mas que sempre funcionamos mais ou menos do mesmo jeito, que é algo relativamente atemporal e universal, mudando um pouco a forma como isso é manifesto, levando em consideração diferenças culturais, de gênero, de geração, de classe social e de crença religiosa, entre outras.

Por último, tenho para mim que quanto mais conseguirmos enxergar aspectos positivos em notícias, modos de viver, pensar e agir que sejam francamente distintos das nossos (e mesmo opostos), o nosso mundinho pessoal se verá amplamente enriquecido, a despeito da angústia que esse tipo de atitude possa gerar em nós. Só espero conseguir agir de acordo e ainda por cima manter-me firme nessa trilha.

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9 respostas para Filosofia de botequim

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Quequel disse:

    Eu acho a sua conclusão acertadíssima, com exceção de não entender porquê isso geraria angústia. Não sei responder aos seus questionamentos, mas acho-os muito curiosos. Já que a conversa é de botequim, vou palpitar, apesar de nunca haver me debruçado sobre essa questão.
    Minha primeira impressão é de que sempre fomos muito autorreferentes, e continuamos sendo tanto quanto antes, mas acho verdade que poucos de nós aprenderam a pensar e, então, assumir como nossos os pensamentos de outrem que nos caíram bem é fácil e tentador. Paralelamente, vejo que a mídia reforça muito a ideia da verdade absoluta, o que é empobredecor e reforça a autorreferencia.
    Quando eu manifesto minha opinião sobre pessoas e fatos, estou na verdade falando de mim mesma, certo? Um olhar mais atento vai ver a mim, quando eu falar de outro. Mas isso não deveria embotar a minha capacidade de entender o diferente, seja ele gay, tatuado, muçulmano ou a favor da SOPA/PIPA (prá tocar num assunto atual). E quando eu, Raquel, tento comentar algo com imparcialidade, aceitando o diferente, sinto-me muitas vezes sozinha, criticada (por uma parte boba e maléfica de mim mesma) como sem personalidade, isso porque eu não tento demover o outro de seus conceitos, não tento ganhá-lo para a minha causa, digamos assim.
    Enfim, hoje em dia temos muito mais possibilidades de nos informar e crescer intelectualmente, mas temos também muitas possibilidades de empobrecimento cultural e fortalecimento do “nosso mundinho”, e esse é o caminho escolhido pela maioria, ou melhor, esse é o caminho que escolhe a maioria. Sendo assim, concluo supondo que a autorreferência hoje é maior que ontem. Infelizmente.

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    • Ricardo C. disse:

      @Quequel, desculpe a demora, o tempo de responder anda curto por estas bandas… 😦
      Começo pela angústia que mencionei e que você não entendeu. Ela decorreria da nossa abertura para ouvir aquilo que não coincide com o que apreciamos, pensamos, acreditamos e afins. Acontece que é confortável relacionar-nos apenas com aqueles que pensam parecido com a gente, já que não há impasses, confrontos ou debate, no máximo arremedos disso — e geralmente solucionados logo. Já quando nos estamos disponíveis para ouvir e relacionar-nos com o contraditório, precisamos a todo momento não apenas defender, mas também estarmos abertos a rever nossos conceitos, opiniões e crenças sobre o que esteja em questão, já que o outro, seja ele quem for, traz consigo um ponto de vista construído ao longo do tempo que pode surpreender-nos pela consistência/coerência, por exemplo. É uma maneira de renovar nossas construções teóricas, nossos juízos, nosso modo de entender as coisas. E futucar nessas áreas gera angústia.

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  3. Quequel disse:

    Ricardo, não sei se viajo demais, mas deparei-me com duas frases que, acho, se encaixam no post:
    “Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo” – Fernando Pessoa

    “A compreensão de outrem somente progredirá com a partilha de alegrias e sofrimentos” – Albert Einstein

    Que tal? viajei muito ou pouco?

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  4. Pingback: Marcelo Darw

  5. judacoregio disse:

    Eu não sei se estamos mais umbiguistas, mas se estivermos, tem tudo a ver com o fato de dispormos de mil e um canais para expressar nosso umbiguismo. Não tenho de fato uma opinião formada, mas creio que o ser humano tem mesmo uma tendência ao egocentrismo desde sempre. O que acontece é que quanto mais dispomos de recursos financeiros, tecnológicos e meios de expressão, mais podemos dar vazão ao nosso ancestral umbiguismo.

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    • Ricardo C. disse:

      @judacoregio, nosso umbiguismo se vê incrível e proporcionalmente reforçado pela quantidade de retorno e aprovação que a esfera virtual nos proporciona, não importa que esse retorno seja raso e que venha de um contingente anônimo. Quantidade faz um efeito danado sobre nós, não é? Por exemplo, imagino que nos dias de hoje seja praticamente impossível que o tal do Michel Teló consiga fazer uma avaliação crítica de sua produção musical e chegue à conclusão de que é melodicamente indigente, quando boa parte do mundo aplaude, canta, dança e enche o bolso dele de dinheiro. Aliás, será que alguém conseguiria autoavaliar-se assim? Ou melhor, mesmo sabendo-se apenas mediano e reconhecendo-se uma instant celebrity, depois de muito tempo de assédio será que qualquer um de nós não desconfiaria que é muito mais do que pensava?

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  6. Pingback: Juliana Dacoregio

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