A função psicológica do trabalho

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“A história não diz respeito ao passado. A história é precisamente a transformação do passado em futuro ou o fracasso dessa transformação” 

Lev Vygotski

Ontem lembrei da minha velha dissertação de mestrado. E só compartilho essa lembrança por conta da forte inflexão que o que escrevi à época vem sofrendo, especialmente nas últimas semanas. Não vem ao caso me alongar muito em questões acadêmicas, já que (pelo menos) este blog não é o melhor lugar para isso. Basta dizer que o que desenvolvi girava em torno da noção de trabalho, em particular da categoria “sofrimento no trabalho”, sobretudo no que se refere às transformações que vêm ocorrendo nas últimas décadas, no contexto da globalização.

[Espere, não desista de ler. Talvez piore um pouquinho antes de melhorar, mas quero crer — e que você creia — que o saldo será positivo.]

Anos atrás falei um pouco sobre esse tema aqui no blog, numa série (inacabada, eu sei) que, não por acaso, intitulei Tripalium (1 e 2) — nome de um instrumento de tortura que os romanos usavam para supliciar os escravos e que se acredita ter dado origem, na língua portuguesa, à palavra “trabalho”. Foi no clima de desencanto que essa etimologia carrega, assim como de derrota diante das transformações que prometiam a diminuição do trabalho (mas resultaram em sua intensificação e precarização) que escrevi aqueles posts. E, sendo justo, ainda considero que tudo o que está ali continua válido, embora não creia mais que dê conta do que seja a atividade laboral, menos ainda quando comparado ao que ultimamente tenho visto, acompanhado e, reconheço, vivido.

Antes de dizer o que mudou, deixe eu situar algumas diferenças. Naquele tempo a principal referência que usei foram os trabalhos do psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, um ícone da psicodinâmica do trabalho. E foi a partir de textos como O fator humano, Psicodinâmica do trabalho e, sobretudo, do polêmico A banalização da injustiça social que analisei a questão do sofrimento psíquico no trabalho, das estratégias coletivas de defesa para lidar com a banalização do mal e da injustiça social, assim como também subscrevi a visão dejouriana de que essa banalização se sustenta muito menos na violência do que na colaboração (ou no “colaboracionismo”) e no zelo com que a maioria dos trabalhadores age ao lidar com as novas formas de organização do trabalho. (Ou seja, os trabalhadores seriam co-autores da injustiça e do verdadeiro “trabalho do mal” sofrido por eles mesmos e que regeria o cotidiano das organizações.)

Mas sempre tem um mas, e ele tem alguns nomes: Yves Clot (e sua Clínica da Atividade) e o Complexo do Alemão. Do primeiro vem o nome do post, justamente o título de um de seus livros. E o “mas” que ele representa é que para ele, diferente de Dejours, a subjetividade no trabalho não se une automaticamente ao sofrimento a respeito do qual os sujeitos podem no máximo defender-se. Para Clot, o sofrimento no trabalho deve ser considerado

como atividade contrariada e até reprimida, […] como um desenvolvimento impedido. Trata-se então de uma amputação do poder de agir que proíbe os sujeitos de dispor de suas ações, que não os deixa transformar seu vivido em recurso de vivência de uma nova experiência. (2006, p. 9-10)

É verdade que no trabalho há conflitos insolúveis e de caráter perverso, mórbido mesmo. Mas isso não quer dizer que a única saída seja compensar as dificuldades sofridas por meio de defesas. Isso porque estas, “[…] ao fixar as proteções sobre objetivos fictícios, diminuem aqueles que trabalham”. Existe a perspectiva de reagir. E no sentido inverso das estratégias defensivas, “as reações autorizando um real desprendimento subjetivo dos conflitos do real, coloca os trabalhadores ‘uma cabeça acima deles mesmos’, segundo a expressão de Vygotski” (Clot, 2001, p.7).

Falta falar do outro “mas”, o Complexo do Alemão, mesmo que eu tenha dito no post anterior que ainda é cedo para entrar em detalhes. Reitero apenas que de segunda a sexta-feira tenho estado por lá a trabalho, e que este não é voluntário. Afirmo também que aquele conjunto de comunidades somando mais de duzentas mil pessoas tem sido um manancial de reações nos termos postos acima pelo próprio Clot. Além disso, as condições de trabalho estão longe do ideal e as relações com (e entre) os atores (governos estadual e municipal, ONGs, empresas privadas e estatais, e sobretudo moradores) são complexas, permeadas de tensões, expectativas, conflitos e frustrações, mas também de esperança, aprendizado e transformações, muitas transformações.

Costuma-se dizer que tudo falta no Alemão. O que tenho visto e vivido desmente com sobras essa afirmação. Digo isso porque por lá sobra aquilo que falta em boa parte das atividades laborais contemporâneas: sentido. Ele está presente no trabalho, nas relações entre as pessoas dentro e fora dele, no que lhe falta e nas suas possibilidades insuspeitas. E graças a ele a história tem se configurado em efetiva transformação do passado em futuro, como disse Vygotski. Mas que fique bem claro: não falo (apenas) do meu passado.

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Referências

CLOT, Yves. Clínica do trabalho, clínica do real. Le journal des Psychologues, nº 185, março 2001.

_______ (2006). A função Psicológica do Trabalho. Petrópolis: Vozes.

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[A foto que ilustra o post é minha, a primeira de uma série que comecei e que intitulei “O último (vagão do) metrô”, brincadeira com o filme do Truffaut e alusão ao fato de todos os dias pegar o metrô em Copacabana e saltar em Del Castilho, sempre no último vagão. Uma parte dessa série está aqui, disponível para contatos no facebook.]

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3 respostas para A função psicológica do trabalho

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Catatau disse:

    Hum, entendi que alguns lugares comuns da Psicologia do Trabalho estão sendo balançados em nome de uma noção de “comunidade” (digamos, koinos kosmos) mais poderosa para dar conta de nossa atualidade (e seus microfascismos que se arrogam “comunidade”) e também fazer juz ao próprio termo “comum”. Se é assim, aí vem coisa muito boa e torço para você ter tempo de também escrever 😉

    Sobre o sentido no trabalho, isso é muito interessante também. Por ex., vc chama a atenção ao fato do regime de sofrimento/banalização etc. não obedecer os mesmos termos de certos psicólogos: não é o mesmo trabalho “normal” da crasse “média”, não é também exatamente o mesmo trabalho encontrável em outras abordagens, digamos, “não médias” (ex. comunidades de produtores rurais, assentamentos etc.), mas outra coisa, que permite construir sentido ali onde todos enxergam déficit de sentido (o que ultrapassa a esfera de psicologia do trabalho e põe termos por ex. como a história do Brasil, as relações público x privado nesse país, a história do RJ, etc…). Novamente, parece que vem coisa muito boa por aí… 😉

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