Pensata de segunda

Que fique claro: não se trata de nada novo ou original. Quero apenas reiterar o que penso sobre um dos nossos modos de funcionar socialmente. Sim, falo de religião, do fato de que as promessas de redenção e de felicidade e vida eternas após a morte de boa parte das tradições religiosas sirvam acima de tudo para aplacar a angústia inerente à condição humana. E as religiões não são nada bobas: o discurso moral de que se servem é acessível a todos, justamente por operar sobre o cotidiano do homem comum, mostrando-se facilmente assimilável. Ferramentas como discursos habitualmente maniqueístas, uso de bodes expiatórios e a suposta remissão dos pecados “intermediada” por representantes de uma instância pretensamente divina também ajudam, além do fato de que boa parte dessa instrumentalização afetivo-cognitiva ocorre em grupo, em celebrações com cantos e sons que induzem ao transe, o que contribui para reforçar ainda mais as convicções religiosas individuais (tanto as que o sujeito já possuía quanto as que recém-adquiriu no próprio contexto religioso).

Dito isso, tudo o que diz respeito à religiosidade fica esclarecido? Não, não fica. Tenho para mim que de fato há mistério na dimensão religiosa, um mistério tão válido quanto aquele que move a ciência. Claro que é necessário distinguir essas duas áreas e a forma como religião e ciência lidam com elas. Enquanto a ciência reconhece que há uma imensa área escura atestando a ignorância humana sobre o universo, que o saber alcançado até o presente momento é precário e provisório, passível de reformulação à medida em que novas formulações deem conta de explicar melhor o funcionamento/sentido das coisas, boa parte das religiões sobrevive graças à  sacralização do mistério, isto é, à noção de que sobre certas coisas não se deve sequer perguntar, basta aceitá-las da forma como se apresentam e, sobretudo, aceitar o papel de intermediador das instituições religiosas. A elas não parece realmente interessar que se amplie a “área iluminada”: o terreno das sombras deve seguir como está, ameaçador, especialmente para quem estiver fora do círculo das religiões.

Eu disse que esta singela pensata era mesmo de segunda categoria, bem aquém do que certa vez consegui expressar sobre o assunto anos atrás neste mesmo blog. Falo especialmente sobre três posts:

Crença, fé e experiência religiosa (1): a psicodinâmica da crença;

Crença, fé e experiência religiosa (2): a fé; e

Crença, fé e experiência religiosa (3): o que dizer desta última?

As ideias contidas neles não são minhas e sim de Ken Wilber — em seu livro Um Deus Social: Breve Introdução a uma Sociologia Transcendental (Cultrix, 1987) —, com meu papel tendo sido apenas o de sintetizá-las. E aquela caixa com excelentes missivistas e seus comentários foi uma das que mais alegria me deu nestes anos todos de blogagem.

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4 respostas para Pensata de segunda

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Quequel disse:

    Solta Ricardo, me deixa ir trabalhar.
    Os seus textos me tiram de qualquer atividade, tão bons que são, sempre. Esses sobre religião me deixaram meio zonzinha. Muita limitação intelectual, conceitual e vivencial (parafraseando-te) de minha parte.
    Eu, que me via como uma pessoa sem fé, já não sei mais quem sou. Estou em dúvida.
    Muitos dias, leituras e conversas me serão exigidos para me aproximar do debate tão interessante que você e seus leitores travaram.

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  3. Quequel disse:

    É sempre um prazer, Ricardo.
    Vá me visitar no “meu mundo”, qualquer dia. Visitas fazem com que queiramos deixar o café sempre quentinho, e a cerveja gelada. : )

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