Eu era nené-em, não tinha talco…

Deu nisso zapear num sábado à noite, que por chuvoso pediu casa e preguiça. Parei num programa sobre “malditos” da MPB e do pop: Jards Macalé, Luis Melodia, Jorge Mautner, Itamar Assumpção e (o escroto, mais do que maldito) Carlos Imperial. O programa é do Nelson Motta, figura que anda em baixa para importante parte da blogosfera. (Não é para menos, seus recentes textos no Estadão, especialmente os que se aventuram pela análise da conjuntura política, são tão primários, tão do gênero neoudenista suavizado por um ar blasé Zona Sul carioca, que chegam a dar vergonha.) Convenhamos, com suas raivinhas e análises rasas ele facilita bastante a vida da blogosfera à esquerda, até mesmo aquela mais chapa branca (para a qual os problemas da gestão do MinC são irrisórios, não há nada de errado com Belo Monte e os índios que moram por aquelas bandas não passam de uns vendidos, e para quem não se pode criticar o governo porque é dar munição ao inimigo etc..). Ou seja, que vontade de tratá-lo como um Jabor ou um R. Azevedo e não dar a menor pelota para o que ele diz. (Você nunca fez isso? Bom, eu admitido que fiz, apesar de não haver nenhuma vantagem ou superioridade moral/intelectual nisso.)

O problema de darmos corda a esse tipo de vontade, a essa surdez e desdém por quaisquer opiniões emitidas por aqueles com quem não temos afinidade, é que nem sempre se trata de atitude sábia. Aos poucos nos acostumamos a dar ouvidos apenas àqueles com quem temos o hábito de concordar com frequência — e de tanto fazê-lo nem nos damos conta quando eles dizem coisas de que nem concordamos tanto assim —, sobretudo às opiniões que ratifiquem aquilo que pensamos. (Cá entre nós, fazemos isso boa parte do tempo e desde a mais tenra infância, algo que decerto só deixará de ocorrer quando decretarem a hora do nosso óbito.) Isso sem contar com o auxílio luxuoso dos filtros-bolha que cada vez restringem mais a diversidade ao nosso redor. E sem o contraditório, sem a diferença, acabamos reforçando uma versão diametralmente oposta à daquele pensamento único que tanto criticamos no passado, que justo por ser diametralmente oposta acaba sendo tão pensamento único quanto. Sério, se soubéssemos o quanto perdemos com isso veríamos como valeria a pena dedicarmos um pouquinho do nosso tempo para explorar falas, ideias e ações produzidas por pessoas de praias que não costumamos frequentar.

Todo este conversê só para dizer que foi bom, muito bom assistir ao programa do Nelson Motta, que valeu a pena desentortar o nariz para ele por conta de suas colunas reaças no Estadão e, por que não, aprender e me deliciar com algumas de suas informações sobre figuras tão importantes do nosso cenário musical. Não foi um programa erudito ou sofisticado (nem precisava), mas um bom passeio pela trajetória desses multi-artistas. Do Jorge Mautner, hoje setentão, aprendi que aos vinte e um anos ganhou um prêmio Jabuti por seu primeiro livro, Deus da Chuva e da Morte (1962). (Se já gostava da figura, passei a gostar mais.) Do Jards, do Luis e do Itamar não vi nada de que já não tivesse notícia, enquanto do Imperial valeu a pena descobrir algo além do seu propalado mau-caratismo, das pornochanchadas que dirigiu e em que atuou, e do bordão Dez! Nota dez! surgido na apuração do desfile das escolas de samba do Rio, em 1984. As imagens e a costura do texto de Nelson Motta foram redondas e belas o suficiente para me fazer esquecer dos gritos da vizinha e de sua filha, das contas a pagar na segunda-feira e dos trabalhos de alunos que ainda falta corrigir. E esqueci também da passagem do tempo, trinta, quarenta anos atrás eram hoje, a ditadura em que nasci estava de volta, gritando malditos comunistas, malditos subversivos, e estes respondiam com sambas, tropicalismo, contracultura e vanguardas que hoje tanto nos orgulham, ao menos a mim sim. Essa é a graça da história. O eterno “jovem” Nelson Motta, que hoje em dia dedica tempo demais a cometer suas conservadoras desinteligências políticas em colunas de jornal e televisão, seus revisionismos de fazer o cadáver de Bob Fields sorrir, esse moço bem mais velho do que eu produziu um programa, a partir de sua própria experiência na cena cultural das últimas décadas, e resgatou impressões, memórias e sentimentos com os quais me identifico tanto e que, ao que parece, sobrepuseram-se ao seu próprio crivo reacionário. Resumindo, vale a pena pôr nossos a priori de lado e desfrutar com gente de quem provavelmente não temos a melhor impressão. Afinal de contas, mesmo que você e eu não tenhamos nenhuma expressividade pública, é bem provável que também sejamos mal-vistos por uma pá de gente, não é?

Só um porém: no que me diz respeito, deixo claro que do Nelson Motta eu dou conta, mas do Reinaldão e do Jabor não. Falta-me desprendimento e/ou maturidade necessários para a insalubre empreitada de esmiuçar as entrelinhas dos escritos de figuras como esses dois em busca de saberes que não possuo. Como eles são um limite que não me convém cruzar, melhor buscar saberes nos escritos de outros tratantes sujeitos cuja proximidade provoque em mim menos engulho e outros tantos efeitos colaterais.

P.S. Para quem não conhece, o título do post é parte da música “Mamãe passou açúcar em mim” interpretada por Wilson Simonal e composta pelo Carlos Imperial.

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7 respostas para Eu era nené-em, não tinha talco…

  1. Pingback: Ricardo Cabral

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  3. Luiz disse:

    Reinaldão e Jabor?

    Cruzes…

    Vou ali rezar um terço para São Hermenauta (padroeiro dos caçadores de direitobas), para me proteger desses espectros malignos…

    Se bem que já me peguei, tempos atrás, concordando com uma coluna do Jabor…
    Passou logo, Thanks God….

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  4. Monsores disse:

    Vocês, reaçofóbicos, deviam parar com isso. Daqui a pouco eles aprovam um projeto de lei considerando racismo.

    Agora falando sério, eu detesto o Jabor e o Azevedo e vocês conhecem bem minhas opiniões políticas: Acho essa palhaçada de direita/esquerda um entrave ao progresso. Deixando isso pra lá, o que eu queria dizer é que eu nem sabia que o Nelson Mota era um bestacionário. Pra mim o cara só entendia (e muito) de música.

    Parabéns pelo post, Ricardo. Nos ensina.

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    • Ricardo C. disse:

      @Monsores, entendo o que dizes sobre a tua posição política, que por sinal me parece de centro, quando muito de centro-direita. Só não creio que tudo o que você diz corresponda ao que você exercita cotidianamente, que é bem mais à esquerda do que você suportaria admitir, hehehe!

      Ah, é preciso braço esquerdo e braço direito para te mandar um grande abraço

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