Uma andorinha não faz verão, mas é mais do que uma gota no oceano

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Essa obra aí de cima é a famosa O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, que faz parte do acervo da espetacular Galleria Uffizi. Se eu já gostava desse museu e tinha uma grata lembrança do impacto que esse quadro causou em mim, em minha mulher e nos quinze japoneses, doze chineses e nove coreanos que me rodeavam, imagine agora ao saber que a Galleria acabou de inaugurar uma versão em baixo-relevo de 60 cm de altura por 93 cm de largura — o quadro original tem 172,5 cm de altura por 278,5 cm de largura —, feita em resina branca (como se pode ver na imagem abaixo) e que permitirá a um sem-número de pessoas desfrutar obras de arte de uma maneira quase direta, com menos intermediação:

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Durante a cerimônia inaugural, Antonio Quatraro, da União Italiana Cegos de Florença, Prato e Ledo, passou suas mãos pela obra por vários minutos e mostrou-se bastante emocionado:

Tudo isto parece um sonho. Para além da altíssima qualidade do produto, apreciamos este gesto, que no fundo é uma maneira de criar uma sociedade mais inclusiva.

As notícias sobre a inauguração contam que ainda falta colocar uma placa com texto em Braille para aprofundar a “leitura tátil” do trabalho, que existem outras obras em baixo-relevo no mesmo museu e que a iniciativa tende a se repetir em outros acervos espalhados pelo país.

Alguém perguntou ao senhor Antonio Quatraro se no futuro o baixo-relevo d’O Nascimento de Vênus traria as belas cores do original de Botticelli. “Trabalhar com cores não é fácil, requer encontrar o profissional adequado”, respondeu de maneira cortês. Ao que parece, quem fez a pergunta não insistiu no assunto, talvez por ter se dado conta de sua miopia na hora de formulá-la, ou por perceber que a discussão sobre a relação entre cegos e cores era assunto vasto, complexo e rico, exigindo conversa mais demorada do que a ocasião permitia.

Educação inclusiva é sobretudo para ensinar os que já estão dentro a não atrapalhar a entrada dos deixados de fora, pensei eu, incluindo-me nessa imensa maioria que enxerga, mas nem sempre vê.

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5 respostas para Uma andorinha não faz verão, mas é mais do que uma gota no oceano

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  4. Guil Kato disse:

    Adoro essas suas delicadezas…

    Curtir

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