Memória e decisões

Memória e decisões: as duas têm pelo menos uma coisa em comum, que chamarei de “graus de importância”, enquanto não me ocorre expressão melhor. E ainda bem (pelos graus de importância, não pela falta de expressão melhor). Explico. Já pensou se todos fôssemos como  Funes, o memorioso, o famoso personagem de Borges, e que além de lembrar de tudo, nossa memória desse a mesma importância a qualquer evento, qualquer experiência que tivemos? Estou certo de que morreríamos nas primeiras horas de vida, soterrados pela profusão de informações irrelevantes, todas gritando “eu, eu primeiro!” E se às memórias somássemos as decisões seria pior ainda. Imagine só se cada um dos nossos atos, especialmente aqueles mais banais e insignificantes, fosse, digo, tivesse que ser precedido por uma avaliação exaustiva sobre qual a melhor alternativa a seguir? (Acordei: e agora? Abro os dois olhos ao mesmo tempo ou um depois do outro? E começo por qual?) É mesmo uma dádiva darwiniana que boa parte do que fazemos sequer passe pelo crivo de nossa consciência, que muito do que nos aconteça se dê de forma quase automática. Do mesmo modo, dá para dizer que a felicidade só existe (quando existe) por conta da nossa capacidade de esquecer (e para facilitar, ponha repressão, recalque, negação e que tais no mesmo escaninho e deixe as psicologices para lá). Porque, convenhamos, acumular na cachola o que quer que seja é algo que acontece inclusive à nossa revelia, feito a poeira que segue caindo sobre as pás daquele ventilador de teto medonho que o inquilino anterior fez questão de não levar. Já esquecer é bem mais complicado, sobretudo quando se trata de eventos ruins, aqueles que funcionam como gasolina aditivada para o ressentimento. Só que esse tipo de esquecimento ainda tem sua graça, pois move boa parte da humanidade e pode até servir de mote para livros, filmes, tangos e blogs, além de engordar uma conta bancária aqui e outra acolá (psicoterapeutas e psicanalistas inclusos). Porque o esquecimento que ocorre no dia a dia, o esquecimento das coisas miúdas, das bordas da gente, esse sim merece toda a nossa gratidão. Imagine se você lembrasse, deixe-me ver… já sei: imagine se mantivesse vivas na sua memória todas as vezes que coçou o nariz desde o primeiro dia em que coçou o nariz na vida, às três horas, vinte e um minutos e quarenta e quatro segundos daquela quarta-feira de cinzas de mil novecentos e dezoito, nos braços da parteira — porque aposto que em dezoito do século passado a maioria nascia pelas mãos de parteiras e não teria sido diferente contigo, e falo do teu hipotético nascimento em mil novecentos e dezoito, o dia em que você começou a ser você, só para  não complicar ainda mais a conversa discutindo qual seria o momento em que a gente começa a ser gente, se na concepção, se só depois da décima segunda semana de gestação ou se na hora em que damos conta de coçar o nariz no meio daquele mar de líquido amniótico, sem nem saber se aquilo foi coceira mesmo e que diabos essa palavra (e qualquer outra, inclusive palavra) quer dizer. Imagine então se cada uma dessas coçadas de nariz tivesse o mesmo peso, a mesma relevância do primeiro beijo de língua, aquele depois dos quatrocentos e noventa e sete treinos diante do espelho, das incontáveis tentativas de pegar pedras de gelo dentro de um copo, da acidez estomacal por conta das tantas laranjas chupadas. Você seria como Irineu Funes, que “sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da batalha do Quebracho”. Imaginou?

Não sei dizer de você, mas eu nunca tive ou terei nem a sombra da imaginação do autor de Funes. Por outro lado, você e eu temos a sorte de igualar-nos a ele na capacidade de hierarquizar nossas memórias e decisões. (Pronto, você já pode dizer que tem algo em comum com Borges. Maravilha, não?) Essa é a razão de você não lembrar da sua mentira número setecentos e quarenta e quatro, uma das tantas que você elaborou e lançou ao vento sem maiores consequências, e de também ter esquecido o sentimento de culpa gerado por ela, que pelo visto  foi quase nenhum. É também a razão de você ainda estar aqui e não ter pulado para outro blog, outra notícia, outro vídeo e/ou outro tuite, e quando o fizer nem parará para pensar que se tratou de mais uma decisão, da escolha por uma ou mais alternativas entre as tantas disponíveis. (Há também as indisponíveis, para as quais muitas vezes damos uma importância danada, mas falar delas agora só embolará mais a conversa, então deixemos para outra ocasião.) Por isso digo que você e eu temos sorte de hierarquizarmos lembranças e decisões, ainda mais se considerarmos que cada uma delas tem sua própria teia, entrelaça-se com outras lembranças, decisões e sentimentos de maior ou menor importância e alcance. Pois se todas tivessem o mesmo peso e ainda por cima não tivéssemos a possibilidade de esquecê-las, o inferno seria aqui, agora e na hora da nossa morte, sem amém. Acrescente só mais um dado que até agora não mencionei: o fato dessa hierarquia mudar com o passar dos anos, seja por conta do impacto de novas experiências, seja porque a gente simplesmente muda, ponto.

Mas por que mesmo me ocorreu falar de tudo isto? Ah, lembrei. A razão teve início hoje de manhã, mas vou começar a história pelo fim. Sendo assim, a menos que você já me conheça, não teria como saber que minha mulher e eu não tivemos filhos e que isso se deu por escolha nossa, há mais de uma década, uma decisão em sintonia com quem somos e como pensamos. Agora pule para poucos meses atrás, quando uma amiga encontrou um gato vira-lata, filhote ainda, pediu nossa ajuda e nós, meio que no susto, resolvemos adotá-lo. Pule de novo para esta manhã, bem cedo, quando o Zé tirou a tampa do ralo do banheiro e começou a mexer com a água do fundo, do mesmo jeito que fizera ontem, e que na terceira vez que ele fez isso acabei falando de bate-pronto, bastante chateado:

— Zé, faça o favor de colocar  essa tampa de volta!

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3 respostas para Memória e decisões

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Pingback: O Pensador Selvagem

  3. Colafina disse:

    Nossa cadela Zazu usa as patas dianteiras para alcançar o trinco das portas aqui de casa, até abrí-las — não precisa dizer o estado em que estão as portas… — e entrar abanando o rabo como um ventilador e parar à minha frente dizendo: “viu só, como eu consigo?”, e quando faço cara de bravo e aponto a porta escancarada atrás dela, dizendo: “volta lá e fecha aquela porta!”, ela olha pra mim com aquele olhar que diz: “também tiamo!” e sai rindo e chacoalhando o rabo e a bundona gorda e metade do corpo e dizendo: “eu, hein? faço muito em abrir…”

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