Obrigado, René Clair

Como qualquer gato, aquele não valia nem a unha da pata traseira esquerda, a mesma que o dono desistira de aparar na semana anterior por conta da trabalheira que deram as outras três. Dos quatro meses desde a chegada do bichano, três meses e três quartos resumiram-se a espirros e coceira nos olhos aliviada com litros do velho e bom colírio Moura Brasil, alternados ao soro fisiológico que a mulher usava em suas lentes de contato. É, ele sempre fora alérgico a gatos. Não, nunca tivera ideações suicidas, não que fosse de conhecimento público. Nem masoquista, que essas parafilias pedem a cafonice dos chicotes de couro, os ares de Santa Inquisição de instrumentos de tortura, umas pitadas de branding e coisas do gênero. Ou seja, nenhuma dominatrix daria bola para olhos vermelhos com coceira, espirros e catarro.

No primeiro mês a alergia se embolou com o que parecia uma gripe, que virou uma espécie de bronquite de tosse tão forte que a médica que o atendeu arqueou as sobrancelhas por cima dos óculos, tomou uns quatro metros de distância e perguntou “certeza que não é tuberculose?”, avisando que a danada virara moda de novo. Não era. Pulmões limpos, ela só mandou que se livrasse do gato. Por conta disso, assim que chegou em casa foi falando para a mulher: prepare-se, a médica falou que vão ser uns 15, 16 anos de tosse e noites mal-dormidas. (Parece que ela não achou graça.)

Tudo calmo entre meia-noite e uma e meia da madrugada, até a hora em que a maldita tosse explodiu. A musculatura ao redor dos pulmões, farta de tanto esforço, há dias vinha dando sinais de que faltava um nada para transformar aquele incômodo considerável em urros de inequívoca dor. Melhor não, pensou, vai dar ainda mais vontade de tossir, então é tratar de ser estoico e choramingar bem baixinho. Mas a tosse não entrava nesse raciocínio, daí que todos, até o gato, seguiram acordados torcendo para que seus pulmões desistissem de sair pela boca.

Com a batalha longe de acabar, tratou de poupar sua mulher e arrastou a tosse até o quarto ao lado, ajeitou três travesseiros na poltrona e ligou a tevê para fazer hora, para fazer de conta, para fazer o que fosse por não saber mais o que fazer. Inclinado para frente, a perna esquerda servindo de base para o braço que segurava sua testa enquanto a mão direita tentava sem sucesso impedir que voasse catarro para todos os lados, aos  poucos o som de balão festa esvaziando que saia de sua boca entre uma tosse e outra foi diminuindo, o suficiente para que seus olhos começassem a perceber, entre as gotículas espalhadas pela tela 32 polegadas e três das vinte e quatro prestações do carnê Casas Bahia por pagar, que era mesmo a Jeanne Moreau à sua frente, linda, rosto cem por cento uva passa e a voz tão hipnótica quanto da primeira vez que a vira, certeza que em Jules et Jim. Jeanne falando a um Mastroianni descalço, sentado de costas para a tela de uma sala de cinema vazia, sem dizer nada, como se ouvisse com atenção, e quem não ouviria Jeanne Moreau com atenção, dizendo frases que não lhe eram estranhas, a câmera voltando para Jeanne, plano americano, … Au-delà de ton visage, j’ai vu quelque chose de plus pur, de plus profond, où je me reflétais. C’est-ait moi que je voyais, dans une dimension qui comportait tout le temps qui nous reste à vivre, toutes ces années étaient là, et aussi celles que j’ai vécu sans te connaître, pour te connaître. A ce moment j’ai compris combien je t’aimais. L’émotion était si intense que mes yeux se remplirent de larmes… e Stop, diz uma outra voz, direção de Théo Angelopoulos e Cada um com seu cinema o nome do filme, os créditos dizendo que a fala de Madame Moreau saiu inteira de La Notte, do Antonioni, sabia ter ouvido aquilo antes, e a tosse senão figurante, e quem viria agora?, outra vez Mastroianni, cartaz de 8 e 1/2 em cirílico?, do Kontchalovsky, nem suspeitei, e o próximo?, o Nani Moretti, comédia, a cara dele, desse Hou Hsiao-Hsien nunca vi nada, e outros tantos episódios, seguidos de outros e de outros e de outros, salas e mais salas de cinema, vazias, cheias, desbotadas, monumentais, enfumaçadas, melancólicas, sacras, são todas sacras, e no quarto ao lado do seu, naquele quarto feito da mesma matéria escura dos cinemas, uma poltrona, três travesseiros, o corpo de um homem, um homem de respiração ampla, serena e silenciosa, no colo um gato, um gato de nome Zé, e os olhos, os quatro, fixos nos últimos créditos: merci à René Clair.

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3 respostas para Obrigado, René Clair

  1. Pingback: Ricardo Cabral

  2. Cláudio Luiz disse:

    Estou aqui com uma tosse esquisita. E eu nem tenho gato. Talvez seja este o problema ;c)

    Curtir

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