A voz do outro é tão voz quanto a sua. Às vezes é mais.

Publicado no Página/12 de hoje, 11 de agosto de 2011. (Original em espanhol disponível aqui.)

A extração da verdade

Por Fabiana Rousseaux *

Jesus tem 50 anos. Em 1976 foi sequestrado, com a idade de ’16 anos e meio’, segundo sua implacável memória. Passou pela delegacia de Escobar, dirigida por Luis Patti, onde foi torturado junto com Gastón Goncalves e outros companheiros da Juventude Peronista. Depois foi expulso do país.

No exílio, tentou rearrumar o que sobrara da vida que o terrorismo de Estado havia despedaçado, (des)instalando-se em outro país. Conseguiu constituir uma família. Mas deixar as marcas para trás não é tarefa simples. Numa viagem à Argentina, o espanto impôs-se outra vez e ele acabou cometendo um delito. Foi preso e desde então sua vida transcorre na unidade penal de um hospital psiquiátrico. Depois da morte de sua mãe caiu no mais completo esquecimento. Ele sabe que ali não será condenado, mas ficará encarcerado para sempre.

Esteve durante 18 anos na Unidade Penal 34 do Melchor Romero e há pouco tempo foi para a Unidade 10, onde pelo menos pode ‘ver a estrada, com carros passando de vez em quando, porque antes só dava para ver o muro’.

Durante todos esses anos na ala penal do manicômio, era tomado pela indignação a cada vez que via Patti na televisão, passando a contar as humilhações impostas a ele e a seus companheiros. Disse não entender como Patti conseguiu chegar a prefeito, nem como em seguida tentou ocupar uma cadeira de deputado. Diz que sempre sonhou levá-lo a julgamento caso um dia saísse daquele lugar. Obviamente, trata-se da palavra de um louco:  nem essas palavras nem as que falarem de sua prisão e das torturas que sofreu aos 16 anos e meio serão dadas como certas num lugar como aquele, um lugar onde há, por outro lado, respostas generalizadas e medicalizadas para tudo.

Jesus é o parrhesiastes, segundo a definição de Michel Foucault (ver, por exemplo, ‘Coraje de la verdad‘, Página/12, seção Psicologia, 3 de janeiro de 2011): aquele com um  ‘dizer verdadeiro’, que fala o que pensa, que está comprometido com a sua verdade. Talvez Jesus seja isso mais do que qualquer um, já que sabe que ninguém acreditará nele. Lança a sua verdade sobre os outros sem calcular riscos ou, melhor ainda, ao calculá-los, na sua sala no manicômio, assume todos.

Em que memória teórica precisaríamos deter-nos para deixar de pôr em dúvida as sequelas oriundas dos crimes cometidos pelo terror de Estado? A ‘inimputabilidade’ de Jesus não invalida a verdade desses fatos nem de seus relatos, menos ainda de suas trágicas consequências. As marcas da história social em que transitamos, a despeito de sua forma e alojadas na estrutura psíquica que for, não podem ser ignoradas.

Durante anos Jesus foi dado como morto, até o momento em que graças ao Ministério do Interior foi possível encontrá-lo. Outros sobreviventes de Patti falavam dele, mas suas versões eram contraditórias: que estaria em outro país, que estaria morto ou então preso. A verdade é que nenhum dos seus companheiros de militância sabia qualquer coisa sobre ele até há poucos meses, quando conseguiram localizá-lo.

A partir de então, Jesus foi arrolado como testemunha na ação que os filhos de Gonçalves e de Muniz Barreto, junto com a família dos irmãos D’Amico, moveram contra Patti, Mignone, Riveros, Meneghini e Rodríguez. Os advogados das vítimas conseguiram, graças a esta testemunha central, demonstrar as torturas e desaparecimentos cometidos pelo ex-policial.

Jesus aceitou de imediato. Reconheceu, com todos os detalhes necessários, os responsáveis por esses crimes hediondos. Fez uso da memória de uma forma que ninguém poderia compreender, não fosse por tratar-se de um homem que durante 18 anos fora submetido ao esquecimento e à indignidade de tirarem o valor de sua palavra, sendo transformado num sujeito que não pode responsabilizar-se nem por seus atos, nem pelo que disser, nem por suas dores, posto num lugar onde cada demanda e cada opinião foram silenciadas: ‘O haldol me deixava todo duro, e mesmo com as dores terríveis que eu tinha por estar doente do fígado, o médico só me viu uma vez durante um ano e meio e nunca me davam analgésicos, então aprendi a controlar a dor’, relata.

Desde que começou a receber a visita dos advogados, dos familiares das vítimas e de seus companheiros, seu lugar começou a ser objeto de interrogação por parte dos habitantes daquele espaço penal-psiquiátrico. Numa das visitas, um grupo de guardas do Serviço Penitenciário se aproximou da gente e começou a perguntar-nos sobre a história dele. Parecia que o universo inteiro das unidades penais do manicômio fora modificado por esse novo fato. A história de Jesus, que tinha permanecido encapsulada e forcluída durante quase duas décadas, começa a rodar outra vez, é descongelada no tempo, passa a haver um antes-da-prisão prévio à cadência, idêntica a si mesma, da rotina penitenciária no manicômio, mas que agora se faz ouvir, liga-se ao mundo exterior. Os jornais começam a circular lá dentro. Os noticiários adquirem outro status. Surgem as preguntas por ele e por sua história. A clausura experimentou uma mínima, perceptível alteração.

Agora seus companheiros na unidade penal perguntam o que acontecera com ele, sentem-se evidentemente impactados por aquilo que fora denunciado tantas vezes, mas que só se tornou audível com a entrada do discurso jurídico na instituição total.

Manuel, filho de Gastón Gonçalves, diz que o que mais o impressionou assim que conheceu Jesus foi sua capacidade de entender de imediato aquilo que lhe propunham. Para alguém que desde a morte de sua mãe, há 11 anos, não recebera nenhuma visita, não era simples pensar numa mudança de posição tão radical: tornar-se um sujeito com direitos, capaz de enfrentar um tribunal onde a sua palavra teria valor, os juízes o escutariam e seus companheiros da época de militância seriam testemunhas da sua verdade, uma verdade coletiva que, de tão dolorosa, se mostra impensável. Jesus estava alí enfrentando tudo isso num único ato, sem garantias subjetivas, sem qualquer garantia a respeito de que sentiria depois de semelhante ato, quando voltasse sozinho à sua realidade penalizada, acompanhado apenas de uma silenciada dor e dos detalhes de uma memória implacável. Jesus, o memorioso.

A defesa tratou de invalidar seu testemunho, mas o tribunal acatou o que foi declarado por ele. Testemunhou algemado, expressão radical e extrema da condição paradoxal de vítima-testemunha do terrorismo de Estado e, ao mesmo tempo, imputado por um crime comum. Detendo-nos um pouco mais nessa inversão, seria o seu grau de periculosidade maior do que o de Patti e seus colegas torturadores? Jesus assumiu seu lugar — como tantas vezes, durante estes longos anos — como se se tratasse de uma aula magna de dignidade dirigida àqueles que três décadas atrás o torturaram, apesar dos seus 16 anos e meio. Uma aceitação subjetiva incalculável, enigmática e profundamente ética. Ana Nuño, em seu texto “El testigo entronizado, a pesar suyo”, referindo-se à relação entre a memória subjetiva e o discurso histórico, adverte que os carrascos não testemunham, sempre se calam, porque seus atos estão para além das palavras.

Quando Jesus terminou sua declaração, seus ex-companheiros de militância foram para as escadarias do Centro Cultural de José León Suárez, lugar das audiências, e de punhos erguidos despediram-se dele, enquanto era levado de volta à unidade penal num carro do Serviço Penitenciário Federal. O instante de vítima do terrorismo de Estado estava concluído e, junto com ele, terminara o valor subjetivante da sua palavra. Esse instante em 18 anos de clausura não foi pouco.

Ele foi para o outro lado do muro e voltou, mas essa travessia nunca se faz sem consequências, porque já não se volta para o mesmo lugar. Reescrever o próprio nome não é pouca coisa, quando se está do lado de cá das margens do manicômio, quando os vincos do rosto falam da dor, do abandono e da tristeza. Mas também da alegria de, finalmente, ter sido resgatado do esquecimento. Ter se feito digno ao oferecer a sua palavra valente. Ter concretizado aquele sonho premonitório de ‘levar Patti a julgamento’. Vê-lo preso, como ele e todos nós esperávamos. Talvez essa tenha sido a única oportunidade em que o muro que separa a ‘normalidade’ da loucura permitiu que, por um instante, Jesus o atravessasse. Ou talvez seja necessário que assumamos essa verdade coletiva e nos deixemos interpelar pelos efeitos da trágica história vivida. A verdade de Jesus é a história de todos.

* Psicanalista. Diretora do Centro de Assistência às Vítimas de Violações de Direitos Humanos Dr. Fernando Ulloa, Secretaria de Direitos Humanos da Nação.

[Tradução feita no calor da hora. Volto mais tarde, frio, para corrigir os prováveis erros que me escaparam.]

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6 respostas para A voz do outro é tão voz quanto a sua. Às vezes é mais.

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. fal disse:

    às vezes é mais mesmo.

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  3. fal disse:

    beso, bonitão. beso no Zé.

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