Empatia, descubra onde ela está

Enquanto muita gente chora a morte daquela moça que cantava bonito e outros tantos permanecem atônitos diante de um massacre nunca antes visto em terras norueguesas, concentro-me em duas notícias publicadas na sexta-feira passada e que não têm o mesmo apelo emocional. Elas são relativas a eventos ocorridos naquele país da América do Norte que desperta os mais variados (e contraditórios) sentimentos em boa parte do planeta.

E o título do post é sério. A empatia é um sentimento escasso nas notícias que escolhi, mas ele existe e é central não apenas em relação aos próprios fatos narrados, mas para que tenhamos uma apreciação mais adequada dos mesmos. A tradução é minha, então os eventuais deslizes também correm por minha conta. A respeito da primeira notícia, só um comentário: sou veementemente contra a pena de morte promovida pelo Estado. Não vejo nela nenhuma justificativa cabível, não importa o quão revoltante e abjeto seja o crime cometido.

Às notícias, pois:

Um supremacista branco é executado em Dallas

Afp e Reuters – La Jornada, 22 de julho de 2011

Washington, 21 de julho. Mark Stroman, um fanático da ideologia ‘supremacista branca’, foi executado ontem à noite cumprindo a sentença por ter assassinado duas pessoas de origem asiática em 15 de setembro de 2001, em Dallas, Texas, como vingança pelo ataque contra as Torres Gêmeas de Nova York ocorrido quatro dias antes.

Nesse dia, Stroman entrou em três lojas de conveniência na cidade texana e atirou à queima-roupa contra três asiáticos, que supôs serem do Oriente Médio, mas só dois morreram, um paquistanês e um indiano.

Uma terceira pessoa, de nome Rais Bhuiyan, originário de Bangladesh, recebeu um tiro no rosto, mas sobreviveu ao ataque após vários dias de cuidados médicos intensivos.

Ao final do processo de Stroman nos tribunais, Bhuiyan apelou a favor do seu agressor às autoridades judiciais e ao governador do Texas, Rick Perry.

O pedido de suspensão da execução foi negado por um juiz federal horas antes da morte de Stroman por injeção letal, em Huntsville, Texas, onde fica a prisão com o maior número de execuções realizadas nos Estados Unidos desde que a pena de morte foi reinstituída na década de 1980.

Em 1972, a Suprema Corte declarara que a pena de morte era realizada por meio de práticas ‘cruéis’ e por isso decidira suspendê-la.

Desde 1982, 472 pessoas foram executadas em Hunstville, 218 das quais eram brancas, 173 afro-americanas e 79 hispânicas.

‘Estou em paz. O ódio continua neste mundo e precisa parar. O ódio causa dor para a vida toda. Mesmo deitado aqui, ainda assim me sinto em paz’, foram as últimas palavras de Stroman, que durante o julgamento justificou o ataque alegando que sua irmã tinha morrido numa das torres gêmeas.

A morte da irmã de Stroman deixou-o  ‘emocionalmente oprimido’, com uma dor que foi rapidamente substituída por ‘fúria’, assegurou a advogada em suas alegações finais diante do tribunal.

‘Tornou-se obcecado em lutar contra os muçulmanos que atacaram  os Estados Unidos’, disse Brandt.

Bhuiyan, muçulmano praticante, fez campanha para evitar a execução e mudar a sentença para prisão perpétua.

Em uma declaração ao jornal The New York Times, Bhuiyan atribuiu sua atitude à maneira  como foi criado. ‘Meus pais me criaram com boa moral sólida fé. Me ensinaram a colocar-me no lugar dos outros’.

‘Mesmo se te machucarem, não queira a revanche. Perdoe-os. Siga adiante. Isso trará algo bom para você e para eles’, disse Bhuiyan.

* * * * * *

Arizona lança o seu sítio xenofobia.com

Por Gustavo Veiga – Página/12, 22 de julho de 2011

A extensão geográfica do estado do Arizona é comparável à da Itália (é só um pouco menor), mas sua política é tributária do Apartheid sul-africano e das piores tradições xenófobas. Sua governadora, Jan Brewer, acaba de lançar um sítio na Internet (www.buildtheborderfence.com) para receber doações que lhe permitam levantar um muro anti-imigrantes. O projeto, uma iniciativa de seu aliado, o senador republicano Steve Smith, pretende arrecadar 50 milhões de dólares para a tarefa a ser executada por detentos de prisões estatais. Em torno de 41 por cento destes são de origem hispânica, a mesma dos mexicanos e centro-americanos que se pretende impedir de entrar. Cada preso receberá 50 centavos de dólar por hora de trabalho. Esta mão-de-obra barata deverá construir um paredão de concreto com arame farpado ao longo de 131 quilômetros. O propósito de emparedar a fronteira encerra também um paradoxo histórico. Dos 2.263.866 quilômetros quadrados que em sucessivas invasões os Estados Unidos tiraram do México no século XIX, o Arizona corresponde a mais de 10 por cento. Naquela época, a corrente migratória era inversa: de norte a sul. O mesmo ocorria com a maneira de atravessar os territórios. Os colonos de antanho tomaram à bala o que hoje vem a ser o Texas, a Califórnia, o Novo México, Nevada, Utah e o Colorado. Os migrantes de hoje viajam apenas com a roupa do corpo rumo ao que creem ser a terra prometida.

O sítio do governo do Arizona pergunta ao visitante: será que isto é uma fronteira segura? A foto a que se refere a pergunta mostra uma fileira de mourões num solo arenoso. Parece um terreno baldio. Ninguém à vista. Nem os membros da U. S. National Guard, ou os Minuteman (grupos civis anti-imigrantes) ou os corpos macilentos daqueles que se aventuram através desta espécie de Linha Maginot de Sonora. A imagem tenta assustar. E cativar doadores para o empreendimento que excita Smith, seu mentor: ‘estado a estado, as pessoas estão respondendo, porque não é um problema só do Arizona. Elas também estão vendo em seus próprios estados o efeito causado pelos imigrantes ilegais.’

Com a dedução das doações do imposto de renda balançadas como cenoura diante de burro, a página ‘Construir o muro na fronteira’ convida a levantá-lo de duas maneiras: através de transferências on line ou com cheques nominais ao governo. Os valores sugeridos vão de cinco dólares — o mínimo permitido — até mil, podendo ser depositados ou pagos com cartões MasterCard, American Express ou Discover Card nominais ao The border Security Trust Fund.

‘Recebemos uma avalanche de respostas positivas ao projeto’, ufanou-se Smith, que promete certificados com a frase ‘I helped build the Arizona wall’ (Eu ajudei a construir o muro do Arizona) para aqueles que ajudem com seu dinheiro a iniciativa de blindar a fronteira. ‘Se pudermos arrecadar 50 milhões, será um começo fabuloso”, disse o senador.

Brewer e seu sócio republicano queixam-se porque (segundo argumentam) chegam do México narcotraficantes, terroristas e imigrantes ilegais, como se todos pertencessem à mesma espécie de indesejáveis. Na web, onde já arrecada dinheiro para o muro e diz ‘Sua ajuda é necessária’, Smith escreveu: ‘Um dos problemas mais graves da América (??) é a falta de segurança e controle ao longo do país, especialmente na fronteira com o México. Esta falha permitiu a invasão dos cartéis de drogas, gangues violentas, uma quantidade de aproximadamente 20 milhões de imigrantes ilegais e até terroristas’.

No afã de captar doações, a página informa que ‘a cerca construída em Yuma, Arizona, conseguiu frustrar 93 por cento da travessia ilegal de pessoas nessa área. Isso prova que as cercas funcionam! Houve aproximadamente 35.000 mortes e assassinatos ao longo da fronteira com o México desde o ano de 2006. Segundo uma investigação do Comitê de Segurança Local, oficiais da inteligência descobriram que membros do grupo terrorista Hezbollah entraram no país através do limite sul. Os agentes da patrulha de fronteira recolheram pedaços de uniformes militares naquela área, um deles com a palavra “mártir” escrita em árabe e outro com a figura de um avião militar’.

O senador também se queixa da autoridade máxima dos Estados Unidos. ‘Apesar do discurso que o presidente Barack Obama fez em 10 de maio de 2011 afirmando que “a cerca está quase totalmente construída”, isso não é verdade’. E encerra com um pedido: ‘Sua doação é totalmente necessária e apreciada. Obrigado e que Deus siga abençoando os Estados Unidos da América’.

Juntos, Brewer y Smith já tinham promovido a lei SB-1070, que autoriza a polícia do Arizona a prender qualquer pessoa suspeita de andar sem seus documentos em dia e a exigir dos residentes legais a documentação que os ampare. A norma foi suspensa por um juiz federal, o que não impediu o temido e midiático xerife Joe Arpaio, do condado de Maricopa, de manter 1400 detentos numa prisão improvisada feita de barracas em pleno deserto.

Em sua maioria são imigrantes que caíram nas mãos de Arpaio quando atravessavam a fronteira sem documentos, ou pessoas que, apesar de possuí-los, cometeram infrações tais como dirigir alcoolizados. Nos primeiros dias deste mês, uma notícia de Univisión — o maior conglomerado midiático de língua hispânica dos EUA — informou que na prisão de Tent City ‘o termômetro indicou aquilo que os presos já podiam sentir: uma temperatura extrema de 62 graus…’ Uma fotografia completando a cobertura mostra Arpaio usando um aparelho para medir a temperatura nesse inferno.

Insensível às condições dos presos, o xerife perguntou: ‘O que posso fazer? Tirá-los da prisão porque faz muito calor? Existem pessoas trabalhando neste calor, mas ninguém sente pena delas’. O policial, que não destoaria das SS nazistas, é a cara mais conhecida do sistema repressivo do Arizona. Arpaio teve em sua prisão no deserto um detento muito famoso, acusado em abril último de sonegação de impostos: Mike Tyson. Entre outras humilhações, os prisioneiros do seu feudo carcerário em Tent City são obrigados a vestir roupa de baixo cor-de-rosa. O xerife lançou um novo modelo dessa cor com a frase em espanhol Vamos José! São cuecas criadas por ele há 17 anos, vendidas por 15 dólares e também comercializadas com o texto em inglês: ‘Go Joe’.

Ô espécie mais surpreendente essa nossa, para o bem e para o mal, não?

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13 respostas para Empatia, descubra onde ela está

  1. Pingback: Sul 21 » Empatia, descubra onde ela está

  2. Pingback: O Pensador Selvagem

  3. Muito boa essa matéria – dá pra dizer que quem a escreve sabe o que é empatia – e muito bom esse Blog, principalmente a explicação sobre ágora e dazibao! Legais esses sites que falam sobre cultura, filosofia, arte, ciência… Vou ficar atenta!!

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  4. Pingback: Eduardo Antonio

  5. Marcelo D. disse:

    As duas matérias são impressionantes. Na primeira, a capacidade de perdoar por parte do sobrevivente do ataque. Isso vai além da empatia, é misericórdia, o que resvala por pouco na loucura, eu acho.

    A segunda é a mostra cabal do quão imbecis podemos ser quando se trata de defender o grupo. Darwin explica, mais ou menos.

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    • Ricardo C. disse:

      Concordo com sua segunda observação, Marcelo, não tanto com a primeira. A atitude de Rais Bhuiyan pode até não ser comum, ao menos não nesse nível ativismo a favor de alguém que quase o matou. Mas o princípio que regeu essa atitude é mais comum do que supomos, só não costuma merecer matérias de jornal.

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  6. Nat disse:

    A barreira física é só uma representação da barreira invisível que existe em cada um de nós…

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  7. Nat disse:

    Se existissem mais Bhuiyans e menos Stromans no mundo, viveríamos a tão sonhada utopia…

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  8. Pingback: A propósito da empatia, um exercício e um adendo | Ágora com dazibao no meio

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