Cordis

Dois sujeitos cansados, acamados: cinquenta e poucos um, cinquenta e muitos o outro. Dois corações em bom estado: um de moça, vinte e algo, outro de moço, vinte e tantos, e destes nada mais se sabe. Dos dois outros, que o primeiro era grosseiro, desagradável e turrão, e que o outro não.

Daí que os corações moços foram bater no peito do desagradável e do que não era, e como os antigos moradores andavam muito espaçosos, parece que os novos sobraram lá dentro e demoraram a se entender com a vizinhança, a encontrar o tom adequado, a medida certa, gerando coágulos, rins que não funcionavam direito e dores, muitas dores, que no que não era se notavam nos olhos fechados e nalguns suspiros, enquanto no turrão se anunciavam na forma de palavrões em espanhol e em catalão.

Faltou dizer que havia médicos, assistentes, enfermeiros, administradores hospitalares. E parentes, claro, que quase não visitavam o grosseiro, mas que cruzaram oceanos e continentes para ver o que não era. E que mesmo preferindo o segundo, os da primeira turma trataram os dois do mesmo jeito, trocando seus corações estropeados por outros mais tenros, de vitalidade quase garantida, e dando-lhes todos os cuidados que esse tipo de procedimento exigia. A quase garantia diz respeito ao que não era, já que mesmo com todo o afeto e a admiração que despertava não durou mais que dois meses, enquanto o que destratava os enfermeiros, os médicos, os parentes, o sujeito que não seguia nenhuma das recomendações que lhe davam, saiu do hospital direto para casa, para seus velhos cigarros, levando consigo a ranzinzice, o mau-humor e o enfado que costumava provocar em qualquer um, e junto com ele um coração estalando de novo, provavelmente batendo até hoje, vinte anos este mês.

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Moral da história? Nenhuma. Bom, talvez uma. É que essa conversa me fez lembrar de alguns almoços onde volta e meia os familiares da minha mulher e eu costumamos brincar a respeito do que cada um faria caso ganhasse um desses milionários prêmios de loteria. Pois na minha primeira vez de brincar fui objeto de chacota, merecidíssima por sinal. É que não satisfeito em apenas pretender distribuir boa parte do prêmio pelo grau de parentesco, ainda queria definir como a grana deveria ser aplicada por cada um: a pedagoga teria sua escola, a escritora sua própria editora, o empresário teria a mim como sócio, ampliando o capital de sua empresa etc., como se com isso eu pudesse garantir que o dinheiro se multiplicaria de forma virtuosa e não fosse apenas gasto ao bel prazer de quem o recebeu. Ou seja, uma “doação condicionada”… Uau, que boa e bem dada seria essa minha doação, não? E como em família tudo se repete, a cada almoço seguimos rindo daqueles meus primeiros planos mirabolantes para “resolver” a vida alheia, definindo porquês, quandos e sobretudo comos.

É por isso que hoje celebro não apenas a lembrança daquele que não era grosseiro, desagradável ou turrão, mas a vida do outro, que há de estar distribuindo “gentilezas” bilíngues com a potência do coração que lhe deram, quarentão a esta altura. Porque mesmo com todo o incômodo que provoca nos demais, esse sujeito segue tendo rigorosamente o mesmo direito à vida que os bons, os santos, os gente-boa, os justos etcétera e tal, e inclusive o direito de gastar a sobrevida que recebeu do jeito que lhe der na telha, até tirando a própria vida, se for essa a sua vontade, a despeito do incômodo que isso possa gerar em mim, em você ou em qualquer um.

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8 respostas para Cordis

  1. Arnaldo Adnet disse:

    delícia de conto minimo…

    Parece mesmo uma boa conversa entre amigos (chego a ouvir tua voz).

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  6. Guil Kato disse:

    Este eu gostei tanto e tão imediato que desconfiei e reli umas 3 vezes até me dar por satisfeito de que gostei mesmo.
    Maravilhoso!

    Agora essa coisa de divisão do prêmio ganho… Hahahahaha! Depois te conto pessoalmente o que pensei. Até para te deixar curioso e ver se finalmente nos encontramos de verdade!

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    • Ricardo C. disse:

      Bom que gostou, Guil, e vou querer saber da sua divisão imaginária do prêmio, hehehe! Ah, de fato já passa da hora da gente se ver, não é? Bora combinar, de preferência um “bora combinar” que não seja carioca 😉

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