Em voz alta é bem pior

Foi numa aula de história, eu ainda no segundo grau… Não, foi na faculdade, numa aula de psicologia social… Hum, será que não foi num bar em Brasília, ou naquela taqueria na Colonia Condesa, ou a caminho daquele sesshin em Ouro Preto?

Só sei que ele (ou ela) disse algo sobre a palavra de ordem da Idade Média ter sido “resignação”, que o que valia mesmo era deus dá, deus tira, seja treze filhos, peste bubônica ou a virgindade no dia do casamento, mas não pelo noivo. Se o último na verdade é mito não importa, porque a resignação estaria lá do mesmo jeito. Até que veio a Renascença, um certo antropocentrismo apareceu e pimba, saiu a resignação, entrou a esperança. E aí está a beleza da história, não era mais preciso aceitar todo aquele deus tira-e-se-ele-estiver-de-mal-humor-tira-tudo-mesmo. Com a esperança, deus até podia tirar os treze filhos, a virgindade e ainda deixar de brinde a peste bubônica, mas o homem finalmente podia querer mais, sonhar em mudar de vida, e séculos mais tarde, ter a esperança de ascender socialmente, e mais adiante, a esperança de ser livre, e mais adiante ainda, a de ter direitos trabalhistas, a de poder votar, e tempos depois, a de gozar sem culpa, a de voltar a votar, e tempos depois daqueles tempos, a de ser feliz, e finalmente hoje, se não der, ou melhor, por ser óbvio que não vai dar, pelo menos a esperança de ter um rivotril à mão para minimizar a angústia por não ser tão feliz assim…

Noves fora, a questão é: esperança no lugar da resignação, uau!, foi um giro de… 360 graus.

Deve ter sido num bar.

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15 respostas para Em voz alta é bem pior

  1. E, mais uma vez, fica comprovado que o Ocidente medieval é o recalque da civilização ocidental contemporânea.

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  2. Hahaha! Bem, nunca é tarde para recomeçar, não? Quem sabe? Posso me tornar um historiador psicanalítico ou um psicanalista historiador. Se cuide, Peter Gay!

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  3. Cláudio Luiz disse:

    Depois da sacação do Fabiano melhor ficar calado. Ou ir pro divã. Ou esperar pelo livro dele. Sem perder a esperança.

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  4. Colafina disse:

    É claro que foi num bar, Ricardo. Outro lugar, impossível!

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  5. Alex Castro disse:

    sobre isso, eu cito um textinho sobre viver sem esperança q eu acho lindo. 🙂 http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/07/31/sem-esperanca.html

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    • Ricardo C. disse:

      Eu também acho lindo, Alex, mas enquanto não consigo pôr em prática a contento, vou refletindo sobre como dar um lugar adequado à esperança. Aliás, acho que o assunto merece um pequeno post 😉

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  6. Guil Kato disse:

    O que eu sinto é que atualmente, pelo menos no Brasil, há uma espécie de retorno silencioso à resignação.

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    • Ricardo C. disse:

      Guil, sei não, acho que desta vez vou discordar de você. Vejo tanta esperança no rosto das pessoas por aqui, sobretudo em função das mudanças no cenário social… Há movimentos mil, inclusive reações virulentas a muitas dessas mudanças. Enfim, mesmo que aqui em casa as coisas não se apresentem muito diferentes, o entorno anda mudando.

      Abração

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  7. Fal disse:

    Ri, posso roubar seu texto po meu curso de história da arte? Eu juro que não finjo que é meu.

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  8. Ulisses Adirt disse:

    Não frequento bares, mas gosto da mudança. 🙂

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