E você, que pensa sobre o assunto?

Um cenário:

A forma como usamos a internet — redes sociais em particular —, a elevada audiência de certo tipo de programa de tevê (notadamente os reality shows), as vendas de publicações sobre o cotidiano de celebridades (e sub-celebridades), entre outros exemplos,  sugerindo que a fronteira entre o público e o privado deixou de existir faz tempo e que interessa cada vez menos pensar que ela ainda possa fazer sentido.

Duas questões:

De minha parte, faço uma observação e tenho uma indagação em relação ao tema. Primeiro, diria que mais do que uma observação é a reiteração de algo óbvio, mas que as nossas atividades cotidianas nos fazem esquecer. É o fato de haver uma multidão formada por pessoas com nenhum uso, uso precário ou tão somente pouco uso da internet (seja por motivos alheios a elas ou por só quererem usá-la desse jeito mesmo), quem dirá de redes sociais; e afirmo sem piscar (hoje, 16 de maio de 2011) que formam a maioria da população do planeta. O que deriva desse quadro é que para um mundaréu de pessoas a tal fronteira entre o privado e o público continua sendo tão clara, tão transparente, que sequer param para pensar que ela possa andar em crise.

E agora, a pergunta. Entre os com internet e adeptos (voluntários ou involuntários) dessa prática corrente que é a “evasão de privacidade” (seja em pequenas doses ou em alto grau), a dúvida que tenho é: a tal fronteira de fato deixou de existir ou os referidos adeptos simplesmente não têm mais (ou mesmo nunca tiveram, especialmente os mais novos, com internet desde o berço) a habilidade para distinguir essas esferas e, por conseguinte, transitar entre elas a seu bel prazer?

Cartas para a redação.

Um pê esse: depure um pouco do tom de desagrado que possa haver tanto na descrição do cenário quanto na observação e mesmo na indagação. A despeito da minha dificuldade em esconder algum enfado com a conjuntura, ao menos a pergunta é séria, não a formulei assim apenas para disfarçar o meu escárnio.

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11 respostas para E você, que pensa sobre o assunto?

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Azarias disse:

    A fronteira deixou de existir, e consequentemente não há mais habilidade
    de distinguir as esferas e tudo virou “casa-da-sogra”.
    Nada como uma reforma dos meios-de-comunicação para que esta fronteira volte a se impor neste emaranhado.

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    • Ricardo C. disse:

      Azarias, não sei se apenas “uma reforma dos meios-de-comunicação” mudaria muita coisa… Como lidar com a esfera pública sentados boa parte das vezes na frente dos nossos computadores privados, “protegidos” do mundo exterior? Confundir-se acaba sendo quase regra, não?

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  3. Bruno Cava disse:

    Salve,

    A própria cisão entre público e privado é um constructo relativamente recente e repercute as eternas aporias, porque constitutivas, entre universal e particular, que Hegel pretendeu superar com a dialética. Esta tensão está na base do capitalismo, e funciona no nível individual na separação entre ética pública e moral privada. As diversas teorias liberais tentam regular essa tensão, atrás da justa medida, e assim manter sob controle a crise, preservá-la nos limites da normalidade e da sanidade. Talvez a primeira tarefa para uma luta consistente esteja, portanto, não em proteger o privado do público, ou o público do privado, seus avanços desordenados, e abandonar qualquer pretensão de medida, para reconhecer que essa contradição é o motor mesmo da modernidade capitalista. Assim, não haveria como resolver a crise de público e privado (de estado e sociedade civil, de igualdade e liberdade), pois o capitalismo É essa crise. É preciso, portanto, lutar pela desconstituição das relações sociais que o sustentam. Lutar não pela verdade, mas pelo regime de constituição da verdade; não pela autonomia do sujeito, mas pela produção de subjetividade. Isto é, em vez de sermos explorados em nossa produção de vida, em nossa economia de afetos, fazer de nós mesmos, nós os assujeitados consumidores, uma mídia comum, além do público e do privado, além do estado e do mercado. Eis um caminho para a democracia.

    Abraços.

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    • Ricardo C. disse:

      Bruno, você sempre me obriga a refletir…

      Agora mesmo, a partir das tuas considerações, me faz rever o que escrevi, colocá-lo em perspectiva. De todo modo, se por um lado me vejo obrigado a pensar sobre a observação que fiz e explicar-me sobre o que veladamente apresentei como “melhor” de um grupo (os sem ou com pouca internet, que veem e valorizam certa fronteira entre público e privado) sobre outro (os com internet, que parecem tratar dessa fronteira como algo ultrapassado, em desuso). Isso porque você coloca as questões sob a ótica dos processos, cujo movimento deveríamos enfocar.

      Em defesa do post levanto o quanto a lógica instrumental, a lógica do mercado, do consumo, de um prazer domesticado por outrem (mas com roupagem libertária) e da cultura do narcisismo têm estado à frente do que poderia ser uma perspectiva de diálogo, de negociação entre pessoas, grupos, entidades, negociação essa que só é funcional se for pública. Eis que temos um pensar privado, íntimo, idiossincrático e egocentrado que agora se torna público, só que sem verdadeira abertura ao debate, à negociação, pois quer impor-se sobre os demais por pretender-se a medida de todo e qualquer outro, apelando à conclamação de seus pares, à mera identificação dos que pensariam o mundo da mesma forma…

      Enfim, mais do que um desejo saudosista de manutenção de fronteiras, o que levanto como aquilo (fala, gesto, atitude) que em privado tem alcance restrito frente aos demais, tanto para o bem quanto para o mal, adquire uma potência com demasiada frequência apenas destrutiva, de negação do outro, de imposição sobre ele da verdade de um.

      É isso.

      Forte abraço

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    • Ricardo C. disse:

      Ah, aproveito para recomendar um filme de que cujo título lembrei ao começar a ler teu comentário: “Vícios privados, virtudes públicas” (1976), do cineasta húngaro Miklós Jancsó. Lembro de ter gostado bastante do que ele tinha de transgressor no tempo em que o vi (em foi 1982, quando tinha eu 18 anos).

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    • Guilevy disse:

      Bruno, concordo, mas como construir e manter uma Democracia além da Ética?

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  4. Guilevy disse:

    É, Ricardo, o Bruno matou a pau.
    Quando tiver a nossa idade vai ser insuportável!
    Menino bom, esse.

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    • Ricardo C. disse:

      Não posso me dar ao luxo de falar displicentemente sobre temas sérios com um interlocutor atento feito o Bruno, Guilevy. O que é ótimo, diga-se de passagem.

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  5. Guil disse:

    Eu não li os outros comentários mas, como usuário intenso das redes sociais e tudo o mais, acho que não há mais tanta fronteira. Até mesmo para quem não usa a internet diretamente. Eu mesmo já consegui acessar informações através de outros tipos de cadastro que existem online e estão à dsiposição de qualquer um que tenha um pouco mais de habilidade de buscar estas. Se você estudou ou trabalhou em algum lugar, se abriu um conta, fez uma reserva em hotel, restaurante, comprou algo em alguma loja, etc, etc, etc… resumindo. Se preencheu qualquer tipo de documento com informações suas, estas constam em algum lugar na web e pode-se rastreá-las. Sério. Já fiz isso com você… e comigo mesmo, até.
    Como li outro dia, vivemos um período “tesarac”, ou seja, estamos no meio de uma transição entre o que era e o que será, só que não há como prever como será o momento futuro, apenas que ele não será nada como antes.
    Este é um momento importante, ainda que angustiante. Recomendo assistir à peça “Ato de Comunhão”, no Espaço Sérgio Porto (R$10,00). Mas prepare o estômago, não apenas pelo tema da peça, mas pelo universo que ela aborda.

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  6. olhar saturno disse:

    É, o Bruno matou a pau.
    O Bruno é um chato!!! rsrsrs Brincadeira, é que vou tecer meus clássicos comentários superficiais, e já tou sem graça…
    Mas vai, que não resisto: o que penso é que não tem jeito. Já é e NÃO vai mudar. Como retroceder, com uma campanha publicitária acachapante como a que os sites de “redes sociais” vem fazendo? Alguém já ouviu falar que você pode, sim, viver sem ser membro dessas redes? Bom, eu não ouvi! Só ouço que se você não estiver nelas, simplesmente não existirá mais daqui prá frente (sem contar a cobrança de amigos… aiaiai). E aí, meu camarada, que o medo de estar “por fora” é mais forte.
    E o medo de estar “por dentro” também! “Por dentro” de relações sociais verdadeiras, daquelas com compromisso real (de todo tipo). Hum… deu trabalho, questionou, incomodou? Deleto!
    Mas na minha opinião isso tudo é somente uma materialização (com comercialização, claaaaro) do desejo de saber de tudo e ter todos “ao seu lado”, sem se comprometer com nada nem estar ao lado de ninguém. Bom, revoluções culturais anteriores nos trouxeram até aqui. E as de hoje nos levarão a outros recôndidos, que os filhos de vocês estarão discutindo escandalizados daqui a algumas décadas (vai demorar tanto?).

    Aaaaahhh… nada como despejar superficialidades usando mais de 140 caracteres…

    Beijos,
    Olhar

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