Porque alguém tem que ganhar dinheiro com isso

Recebi por email:

‘Curso em Habilidades Sociais e Conexões Positivas’

Uma Abordagem Científica e Prática das Relações Sociais
…..Em todos os ambientes onde o homem tem atuação, estabelecer conexões positivas é fator primordial para o pleno desenvolvimento e bem-estar humano. Os conhecimentos científicos e aplicações práticas da teoria cognitiva e psicologia positiva, trazem novos paradigmas e mostram como aprimorar as capacidades individuais de contato. Este curso aborda os mais modernos conceitos, técnicas e procedimentos que capacitam para o ótimo desenvolvimento dos comportamentos pró–sociais.

Público Alvo
Profissionais de coaching, RH, saúde, saúde mental e áreas afins, bem como estudantes.

Metodologia
Encontros teóricos e práticos com ênfase no trabalho vivencial

Conteúdo
1. Neurobiologia da Conexão Interpessoal
2. Elementos componentes das Habilidades Sociais
3. Contribuições da Psicologia Positiva
….• Emoções Positivas e Habilidades Sociais
….• Empatia e Egotismo
….Portais para o Altruísmo, Gratidão e Perdão
4. Resiliência e Auto-eficácia
….• Cooperação, Assertividade, Feedback, Flexibilização e Diversidade
5. Habilidades Sociais nos diferentes contextos
….• Familiar
………• Relacionamento conjugal ou afetivo
………• Relacionamento pais- filhos
….• Contexto Escolar
….• Contexto Profissional
….• Vínculos que prosperam

Para não variar, algumas questões vem à minha mente. Mas antes delas, aviso:

1) Quanto ao título do post, por mais que carregue nas tintas da ironia, deixe eu esclarecer que não vejo problema em ganhar dinheiro, tanto que me dedico a atividade remunerada, regulamentada e socialmente reconhecida. No sistema em que a gente vive o dinheiro não é apenas útil, mas necessário. Afinal de contas, abrir mão dele implicaria em tornar o cotidiano da gente algo muito complicado, especialmente para quem vive num meio urbano e não é nenhum asceta que se alimenta de luz.

2) Não pretendo me aprofundar em cada detalhe do curso descrito no email, seja porque não conheço os profissionais envolvidos, sua formação acadêmica, a qualidade, seriedade ou os preceitos éticos do seu trabalho, seja por tampouco dominar o referencial teórico-técnico que parece norteá-lo. Só mais um seja: e porque isto daqui é apenas um post, não um artigo acadêmico. Entretanto, é neste contexto bloguístico que me dou ao desfrute de discutir algumas questões contextuais sobre o curso oferecido e os termos escolhidos no conteúdo do folheto que copiei e colei linhas acima.

Dito isto, acrescento que as palavras e expressões em vermelho foram destacadas por mim e não pelos autores do folheto. O critério que usei, evidentemente subjetivo, foi grifar os termos que deram ao dito folheto um tom (ou melhor, um verniz):

a) científico; e

b) atual (contemporâneo, vanguardista ou simplesmente “da moda”).

Tentando ser justo, se alguém oferece um curso por email, por mais que ele se dirija a um público específico — neste caso, “Profissionais de coaching, RH, saúde, saúde mental e áreas afins, bem como estudantes” — a intenção é  que o texto seja o suficientemente sedutor como para capturar corações e mentes e pelo menos garantir quórum que pague nem que seja os custos do empreendimento. Sendo assim: 1) caso o assunto seja razoavelmente conhecido pelo público-alvo, vale a pena lançar mão de termos diretamente associados a ele ou pelo menos 2) usar expressões que pelo menos despertem o interesse para o produto oferecido, isto é, os lugares-comuns que se espera encontrar em folhetos do gênero. Nesse sentido, “abordagem científica” (que coloco no segundo grupo) parece uma boa expressão para diferenciar esse curso de outros, pois sugere rigor, consistência e credibilidade, nem que seja no papel (ou na tela do computador). Falar em “novos paradigmas”, por mais que a palavra paradigma ande sendo usada até em receita de ovo frito, também tem algum apelo, faz pensar em novidade, mas ao mesmo tempo em algo sólido, perene, com um quê de lei da física newtoniana, por assim dizer. Já os “mais modernos conceitos, técnicas e procedimentos” junta modernidade, teoria e prática numa sentença só: é o “estado da arte” da disciplina em questão, somado ao savoir-faire de quem certamente domina o assunto. (Continua tudo no segundo grupo) Se além disso eles “capacitam”, uau!, ainda por cima ganha-se uma nova habilidade, quiçá uma competência que, se eu fizer o curso direitinho, incrementará o meu currículo profissional e aumentará o meu índice de empregabilidade, aquilo para onde tudo parece convergir nos dias de hoje. Outro termo grifado, “Neurobiologia da Conexão Interpessoal”, tem mesmo cara de coisa séria, de algo de peso. De fato a neurobiologia é um ramo das neurociências que tem tido (merecido) destaque e chamado cada vez mais a atenção da mídia. E com esse espaço legitimamente conquistado, se à neurobiologia acrescentarmos um “de”, “da” ou “do”, creia, ganha-se um crédito danado, não importando muito a consistência da pesquisa nem sua relevância para o tema proposto — consistência e relevância essas que não tenho como avaliar no caso do curso em questão, torno a frisar.

Faltam outros dois termos em vermelho, ainda por cima sublinhados: “Psicologia Positiva” e “Resiliência”. Já já vou ao primeiro, mas deixem-me recomendar um post sobre o segundo intitulado “A moda da resiliência nas organizações“, escrito pelo sempre rigoroso Catatau em 2006. Por continuar atualíssimo em suas ponderações, subscrevo os sérios senões que ele faz à transposição desse conceito da física que nomeia a propriedade de alguns materiais de acumular energia, quando exigidos e estressados, e voltar ao seu estado original sem qualquer deformação. Diria até que o que o Catatau comentou à época só fez piorar… (Leiam o post e digam se não é verdade.)

A propósito, se há algo que me dá uma canseira danada é a prática corrente (que já vem de longe) de instrumentalizar, ranquear, precificar e comercializar absolutamente tudo, inclusive afetos e relações interpessoais. Há cursos, seminários, MBA’s, filmes “educativos”, livros de auto-ajuda, fármacos, listagens, estatísticas, índices, revistas, gurus e especialistas garantidos para qualquer coisa que se possa imaginar, todos eles de olho nos nossos novos problemas e necessidades — que em alguns casos de fato não existiam, parecem mesmo reais e por isso vale o esforço para dar conta deles, mas que em outros casos ou não passam de velhos problemas com novos nomes ou são aspectos inerentes à vida, que certos espertinhos resolveram tratar como problemas sérios (para os quais eles oferecem solução a preços nem sempre módicos). Há muitos tão cansados como eu, sabedores de que se trata de guerra perdida, sem volta, que quando muito a gente pode envolver-se em iniciativas de redução de danos e olhe lá (por via das dúvidas: ironia a mil por aqui). Não defendo que essa maneira de perceber as coisas seja mais precisa do que as demais, que reflita de maneira mais acurada o contexto atual ou o que quer que o valha. O máximo que posso garantir é o quanto esse quadro me desagrada, e que sempre que puder evitarei participar dele seja como defensor, contribuinte, entusiasta, cobaia, inocente útil (ou inútil) etc.

Quanto à Psicologia Positiva, sejamos francos: diante de tantas mazelas que afligem a nossa espécie, principalmente aquelas produzidas por nós mesmos (e que infligimos uns aos outros), colocar “positiva” ao lado de “psicologia” tem um cheiro de Maria Antonieta com Pollyanna, não? Certo, a piada é fraca e não faz jus a essa abordagem surgida em 2000 nos Estados Unidos. Por sinal, eu mesmo pouco conhecia sobre ela e só depois de ler o artigo “Psicologia Positiva: uma nova abordagem para antigas questões”,¹ tive mais clareza a respeito.  Aproveito para citar um trecho de lá e continuarmos essa conversa:

(…) a Psicologia Positiva pretende contribuir para o florescimento e o funcionamento saudável das pessoas, grupos e instituições, preocupando-se em fortalecer competências ao invés de corrigir deficiências. Sheldon e King (2001) a definem como o estudo científico dos aspectos virtuosos usuais presentes nos indivíduos, o que demonstra a preocupação central desse movimento, que seria estudar o que é típico, ordinário e usual na maioria dos indivíduos.  (p. 12) (grifo meu)

Caramba, mais grifos… Bom, resumamos assim: em tese, o propósito da Psicologia Positiva em certo sentido dialoga com aquilo que a psicologia humanista norte-americana pregou nos anos 50/60, isto é, valorizar o que o ser humano teria de  saudável, aquilo que o habilitaria a escapar de um certo determinismo que subjaz os preceitos de outras duas correntes: a psicanálise e o behaviorismo — vale lembrar que o contexto é o dos EUA à época, e essa visão já não é mais a mesma. Embora a dita psicologia humanista ande em baixa, seu valor histórico e o que ela contrapunha em relação à visão sobre o que é o homem mantêm o seu valor. Além disso, tal como os psicólogos humanistas, a Psicologia Positiva trataria de buscar um “modelo de saúde” que se contrapusesse ao “modelo da doença” que rege boa parte das correntes psicológicas, modelo este onde “(…) o diagnóstico, o tratamento e as decisões políticas baseiam-se apenas nas deficiências apresentadas pelos pacientes/clientes, ao invés de serem consideradas as forças e as virtudes pessoais do indivíduo e seu ambiente” (ibid., p. 14). O curioso é notar que muito do que se faz nessa Psicologia Positiva provém da psicologia cognitivo-comportamental, que por sua vez descende… do mesmo behaviorismo criticado pelos psicólogos humanistas! Mas não quero ser desmancha-prazeres. O discurso da Psicologia Positiva parece mesmo bacana, reconheço. Só que não deixa de ser bastante problemático, a começar por algumas das premissas postuladas, entre elas a de “fortalecer competências”, expressão que destaquei na citação lá de acima.  É que a questão das competências há anos tem dominado a esfera do trabalho (assunto de que tratei em dois posts meus, parte de uma série que deixei inacabada, vergonha, vergonha, vergonha). E qual o problema? Ora, começo pelo que a socióloga Helena Hirata² observa, isto é, pelo caráter político e ideológico que marca a origem do conceito de competência, já que este emerge do discurso empresarial. Com isso,

(…) apesar da noção de competência se fazer necessária em função da complexificação das formas de trabalho, (…) cada vez mais  ‘…se tem a preocupação de listar competências, de objetivá-las e de avaliá-las’,³ apostando na perspectiva de se fechar uma ‘lista de competências’ e de encontrar o candidato que as possua. No fundo, isso significa operar nos mesmos moldes do antigo modelo de qualificação, independente da imprecisão do que seja competência. O resultado é uma dificuldade cada vez maior, por parte dos trabalhadores, de inserir-se no processo produtivo gerenciado a partir da noção de competência, levando-se em consideração (…) que a responsabilidade pela formação para o trabalho passa a ser, cada vez mais, de cada trabalhador, fruto de suas iniciativas e esforços pessoais, das redes de relações nas quais ele se encontra, do seu investimento financeiro, de tempo e de esforço. Dá para perceber um pouco os problemas que isso tudo acarreta? Reitero, agora com minhas próprias palavras, o que já foi dito: de posse de toda essa suposta responsabilidade, se o trabalhador não conseguir empregar-se (ou reempregar-se caso peça demissão ou seja demitido), a ‘falha’ será creditada única e exclusivamente a ele, como se fosse ‘incompetência’ sua. (do post Tripalium [2])

Pronto, aí está um pouquinho do que vem na cola do conceito de competência, agora estendido a áreas da vida dos sujeitos antes desvinculadas do trabalho. O que temos é um conceito esvaziado de qualquer noção estrutural, político-ideológica, econômica, cultural etc., já que tudo fica a cargo do indivíduo, para bem ou para mal. Nesse sentido, sua apropriação pela Psicologia Positiva não parece nem um pouco ingênua, já que, cheia de boas intenções, advoga pelo fortalecimento e pela proatividade dos indivíduos, onde “o conhecimento das forças e virtudes poderia propiciar o ‘florescimento’ (flourishing) das pessoas, comunidades e instituições”,4 mas com um discurso que serve para reavivar velhas críticas feitas à psicologia, como a de ser uma ciência normatizadora, conformativa e adaptacionista — esta última no mau sentido do termo, isto é, no de adequar o homem ao meio sem sequer discutir/problematizar que meio é esse, o que haveria de vil, perverso, desumano e calcado fundamentalmente na “(…) razão de rentabilidade que hoje governa todos os campos”.5 Particularmente não creio que essa apreciação faça justiça ao saber fragmentado, verdadeiro “espaço de dispersão”6 que é a psicologia, “não (…) um continente, mas (…) um arquipélago conceitual e tecnológico”.7 Entretanto, é preciso reconhecer que tal crítica à psicologia (e que aqui jogo em particular nas costas da Psicologia Positiva) não é de todo equivocada, haja vista tanto parte da trajetória da psicologia quanto esses velhos-novos discursos instrumentalizantes, tecnicistas, individualizantes e aistóricos sobre o homem, só que travestidos de libertadores.

Ou seja, podem ganhar dinheiro à vontade, mas não o meu, combinado?

.

Para terminar, e se eu disser que enquanto escrevia este post recebi um email convocando-me para participar de um “concurso cultural” (sic) que escolherá a frase mais criativa para a pergunta “o que você faria para estar sempre na moda?”, premiando com R$ 10 mil “para renovar seu guarda-roupa“?

.

___________

¹ Paludo, S. S., & Koller, S. H. Paidéia, 2007, 17(36), 9-20.
² HIRATA, Helena. Reorganisation de la production et transformations du travail: une perspective Nord/Sud. Seminario Internacional “Trabajo y empresa entre dos siglos”, Santiago, 13-14 mayo de 1998.
3 SCHWARTZ, Yves. Uso de si e competência, in SCHWARTZ, Yves; DURRIVE, Louis (orgs.). Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana. Niterói: EdUFF, 2007, p. 207.
4 Paludo & Koller, op. cit., p. 10.
5 Jacques-Alain Miller apud Catherine Meyer (org.). O livro negro da psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 17.
6 Luiz Alfredo Garcia-Roza apud Luís Cláudio M. Figueiredo, Revisitando as Psicologias: da epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 16.
7 Figueiredo, op. cit. p. 17.

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6 respostas para Porque alguém tem que ganhar dinheiro com isso

  1. Catatau disse:

    É uma cicuta diária e, como você sabe, não tem jeito de não tomar ela, Ricardo. Quando não a tomamos como um Efialtes cedendo às ofertas de Xerxes (e assim o que é mais feio se torna bonito porque carrega a voz do Rei), ou a tomamos lutando diariamente contra (pois aí somos intoxicados por toda essa montueira de paixões tristes), ou dosamos as lutas diárias (e aí sorvemos o veneno vagarosamente).

    Mas aí tem duas figuras muito bonitas para comentar sobre isso: uma é a do Jó de Toni Negri, aquele que começa a se fortalecer diante da pior condição e enuncia um grito cheio de potência (como se o calor da prova queimasse o veneno); e a outra é Darci Ribeiro comentando sobre ter tido muitas derrotas e complementando: nessas derrotas, a derrota verdadeira seria estar do lado dos vencedores.

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    • Ricardo C. disse:

      Belas citações a Negri e a Darci Ribeiro, Catatau, perfeito. E a perspectiva de interlocução, mesmo dando-se pelas beiradas e no meio dos nossos esforços para lidar com esse instituído de discurso tão operacional, é o que faz a gente aguentar os efeitos dessa cicuta bebida diariamente, meu amigo.
      Um brinde ao diálogo, de preferência sem gotas de cicuta no copo

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Pingback: Catatau

  4. Pingback: O Pensador Selvagem

  5. hemp disse:

    ABQV reune especialistas nesta terca-feira 29 em Sao Paulo para tratar temas como Psicologia Positiva e promocao da qualidade de vida emocional no ambiente corporativo.24 03 11 – A Associacao Brasileira de Qualidade de Vida ABQV debatera a importancia da saude emocional dos profissionais em seu Encontro Mensal com os associados..O evento acontece nesta terca-feira 29 de marco a partir das 8h30 no Auditorio do Hospital Santa Catarina em Sao Paulo. Participam do encontro especialistas da propria ABQV e tambem da USP APPAL Associacao de Psicologia Positiva da America Latina ABRAP Associacao Brasileira de Psicoterapias Mental Clean e Solutions Latin America em dois paineis..No primeiro momento a psicologa Lilian Graziano doutora em psicologia pela USP falara sobre Psicologia Positiva e meios para promover a qualidade de vida emocional no ambiente de trabalho. Lilian tambem e professora universitaria e dirige o Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento..Em seguida a vice-presidente de projetos da ABQV Samia Simurro coordena o debate Desafios e perspectivas para lidar com a questao da saude emocional nas empresas brasileiras .

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