Pequeno (pequeno mesmo!) comentário sobre a blogosfera jornalística

Como hoje é feriado e ando calado demais neste blog, deixo um mero apontamento, mais na qualidade de leitor de blogs do que na de blogueiro. Trata-se de um comentário que fiz no Google Reader minutos atrás:

Duas coisas me incomodam na blogosfera (que se pretende) jornalística e intitulada progressista (por não bancar dizer-se “de esquerda”, como apontou o Idelber tempos atrás):

1) o esquematismo, o bicromatismo, ou sendo mais direto, o maniqueísmo de boa parte das análises sobre o que quer que seja, num eterno “nós, os idealistas e libertários que queremos transformar esse mundo mau que aí está vs. eles, os donos do poder, conservadores, reacionários, cínicos, maus-caráteres”; e

2) o fato de 3 dos blogueiros que são jornalistas profissionais e contam com maior público trabalharem na rede Record, e com excessiva frequência se pautarem pela crítica aos demais veículos da mídia tradicional, denunciando (e celebrando!) as barrigas, as falhas (e Falhas) e os “interesses escusos por trás das notícias” (que também os há, claro), mas colocando-se olimpicamente fora “dessa corja” (como se na Record isso não existisse), e ainda por cima com sérias dificuldades de aceitar críticas (o que é compreensível em se tratando dos frequentes ad hominem e as meras grosserias que pululam na net, mas que não deveria valer para aquelas críticas certeiras, consistentes).

Tem horas que me sinto nos anos sessenta, cheios de palavras de ordem, machismo enrustido, batas indianas e o indefectível cheiro de patchuli.

Pronto, agora posso voltar ao meu feriado.

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15 respostas para Pequeno (pequeno mesmo!) comentário sobre a blogosfera jornalística

  1. Catatau disse:

    Muito interessante o comentário. Enfim: não há auto-crítica. Muitos jornalistas e não-jornalistas adotam chavões ou posiçõe estereotipadas, demarcam elas, julgam justificá-las pela insistência e, finalmente, quando as próprias posições demonstram que ELES deveriam ter mais cuidado, mudam de novo de posição acusando agora aquilo que defendiam (como se nunca o tivessem defendido). O elemento de auto-crítica não se cultiva, de modo que se pode duvidar da própria crítica.

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    • Ricardo C. disse:

      Perfeito, Catatau. E o pior é que esse moto perpétuo só serve para esvaziar as perspectivas de debate sobre o que quer que seja, incluindo as diferenças entre esquerda e direita, o papel do jornalismo na cena contemporânea etc. Creio que há espaço para a militância na blogosfera. Cada um, com as suas convicções, estilos e ideologia, decide como crê que deve se posicionar politicamente e a forma mais adequada de operar a partir dessas premissas. Porém, no que diz respeito aos que pretendam funcionar jornalisticamente, ser cuidadoso para não cair em maniqueísmos e evitar a todo custo tratar de adequar a notícia a algum tipo de agenda me parece regra fundamental.

      Conversando com um bom jornalista blogueiro, a quem mandei um email comentando justamente sobre o fato de não tê-lo incluído entre aqueles que critiquei no meu post, sua resposta foi simples:

      “no que me diz respeito, mesmo que o teu comentário envolvesse também o [blog], não haveria nenhum problema. As críticas fazem parte do ofício.”

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      • Catatau disse:

        Oi Ricardo!

        Obrigado pelo retorno. Há algo mais, interessante aí: se teu amigo jornalista estivesse na lista, seria importante ele responder tuas questões para sair dela. Crítica não é meramente dizer coisas e “cada um diz a sua”. Muita gente que encara uma crítica como mera “expressão pessoal” do interlocutor e por isso ele teria “toda liberdade” está, sim, na sua lista. Pois uma crítica pode ter razão, e não dar razão à razão é, enfim, incorrer nos prejuízos que vc apontou no post.

        Abraço!

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      • Ricardo C. disse:

        Mais uma vez, meu caro amigo, concordo com o teu comentário. Um debate implica em responder à fala do outro, concordando ou não com ela. Concordando até que é fácil. Difícil mesmo é discordar E manter-se debatendo, tendo como mote que: 1) há um outro ali; 2) ambos precisamos funcionar a partir de regras e ferramentas comuns; 3) é preciso ouvir o outro, mesmo que num nível mínimo, diria até que precário, e com todos os impedimentos fazendo parte do jogo (meu estado de espírito, que pode ser favorável ou desfavorável para tal; se tenho impressões/opiniões prévias sobre aquele com quem estou debatendo; a minha eventual “agenda” em relação ao tema debatido; se o meu interesse maior é o consenso, o dissenso ou que o outro não passe de plateia etc.). Não havendo ao menos isso, o debate sequer começa.

        E pseudo-debates, seja aqueles onde todos concordam ou naqueles em que cada um diz o que quer, mas não diretamente ao que o outro diz, são o que mais se vê por aí, não?

        Abraço

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Zatonio Lahud disse:

    Mínimo comentário: Na veia!

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  4. Por outro lado, deve ser mesmo difícil conciliar o rótulo “de esquerda” com o apoio, freqüentemente acrítico, a um governo cuja principal bandeira é uma política compensatória conservadora. E não só ela. Política conservadora, digo.
    Não, não estou falando contra a política compensatória conservadora, apenas constatando o que é.
    Essa dificuildade pode explicar certos comportamentos quase esquizofrênicos.

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    • Ricardo C. disse:

      Totalmente de acordo, Eneraldo, especialmente em se tratando de dois “tipos” de esquerda (mas cuja estrutura também serve para os de direita): 1) os políticos profissionais, que de fato precisam fazer malabarismos para manter-se ao mesmo tempo críticos e combativos como se espera de um político de esquerda, mas sem deixar de seguir as diretrizes de seus partidos, especialmente quando no poder (isto é, quando na posição de “vidraça”); e 2) os messiânicos, que creio não precisarem de maiores explicações sobre o rótulo que carregam.

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      • Ricardo eu nem sei se ainda dá para falar em messiânicos verdadeiramente, pois mesmo esses me dão a forte impressão de jogar para sua diminuta platéia. Conscientes no fundo, de estar na confortável posição de não ter que assumir a responsabilidade de submeter suas teses a qualquer coisa que se assemelhe a um teste real.

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