Ahá, eu sabia!

Ele cultivou uma barba enorme, tava na cara que era muçulmano. E teve aquela história de falar em virgem, em impuro, em Deus, em lençol branco… Se não era muçulmano, gostava muito.

Um irmão dele, que na verdade era seu primo, já que a mãe adotiva irmã da mãe biológica, ah, você entendeu, disse que ele tinha algumas esquisitices, que logo depois do onze de setembro ele falou que queria derrubar um avião que nem os que atingiram as torres. O irmão que era primo falou que depois disso a mãe que era tia o levou ao psicólogo, depois ao psiquiatra, mas que passado um tempo ele bateu o pé e disse que não ia mais. Tá na cara que era louco, só louco abandona tratamento, só louco acha que não é louco, né?

Das doze crianças que ele matou, dez eram meninas. Ou seja, ele era um misógino de carteirinha, isso foi um crime contra as mulheres, ele é o resultado cuspido e escarrado da nossa sociedade machista, conservadora…

E tem os especialistas, né? Ora, eles escreveram livros sobre psicopatas, sobre serial killers, estudaram profundamente o modus operandi — não é assim que se diz? — desses meliantes, eles têm um monte de dados que mostram como esses caras são, né? Eu vi na tevê, eles já disseram tudo o que a gente precisa saber, ué, além de serem gente que estudou muito, cheia de diplomas e que fala de um jeito tão seguro que só… Não dá pra discordar deles!

Ó, se tivesse aula de religião nas escolas essa violência nunca teria acontecido, garanto. Pelo menos tem alguns políticos dizendo que tem que ver isso daí. Nessas horas a gente tem que contar com eles e com Deus, né?

*  *  *  *  *

Começo pelo itálico dos parágrafos acima. Ele não é gratuito. Indica que se trata de uma “ficção baseada em fatos reais”, isto é, de falas que não foram construídas “no vácuo”, mas inventadas a partir de relatos, reportagens, entrevistas e posts a respeito do massacre ocorrido ontem numa escola em Realengo que já circulam por aí.

Neste momento há consternação, dor, revolta e outros tantos sentimentos disparados por um ato considerado pela maioria como absurdo, sem sentido. E na tentativa de aplacar a angústia avassaladora que sobrevém a esse tipo de situação recorre-se a várias fórmulas, boa parte delas envolvendo a tentativa de criar um enquadre o mais definido (e por extensão, tranquilizador) possível sobre o autor do massacre, isto é, um quadro diagnóstico (em termos psicopatológicos, mas também nos âmbitos religioso, socioeconômico, de gênero e mesmo geracional, os mais votados). Mas o que se deseja é um diagnóstico que acima de tudo sirva de justificativa (pseudo)teórica para as medidas “profiláticas” e os “tratamentos” que já se têm em mente, que no calor dos acontecimentos (mas não só nele) consistem quase sempre em trancafiar, calar e, por que não, extinguir o que (ou quem) não se coadune com um conjunto de comportamentos relativamente estáveis e, portanto, previsíveis e controláveis. (A depender dos valores de quem os pretende pôr em prática, esses comportamentos se pretenderiam quase atemporais e universais…).

Não parece difícil desejar algo assim quando se trata de assassinos confessos, de sujeitos assumidamente violentos, daqueles que já demonstraram dar escasso ou nenhum valor aos seus semelhantes (pior ainda se seus semelhantes também forem semelhantes a nós). O problema é costumarmos jogar no mesmo balaio tudo o que fuja ao escopo de um conjunto bem limitado de valores, crenças, atitudes, comportamentos (e de padrões estéticos, referências de gênero, étnicas, políticas, religiosas, socioeconômicas etc.), como se qualquer pessoa que não se insira nesse enquadre devesse logo ser posta à margem… Não, postas à margem essas pessoas já são, o que elas devem é ser presas, internadas, exiladas ou mesmo eliminadas, recurso historicamente usado não apenas em função da comoção geral, mas infelizmente também como políticas de Estado, friamente racionais.

Que fique claro: nenhuma das características até agora arroladas pelos ditos especialistas sobre o autor dessa barbárie são prenúncio claro e inequívoco de que ele faria o que fez. Pessoas taciturnas, tímidas, com poucos amigos, algumas delas filhas de pais adotivos, que passam horas no computador, que eventualmente verbalizam desejos como o de derrubar aviões, por exemplo, há aos montes — e ponha aos montes nisso. O que querem, internar todo aquele que resolver cultivar longas barbas em algum momento de suas vidas?

Dito isto, o que fazer além de criticar boa parte do que se costuma fazer? Em primeiro lugar, cuidar dos feridos, dos seus parentes e dos parentes dos mortos, o que parece estar sendo feito, mesmo que em alguns casos de maneira atabalhoada. O benefício será melhor que o prejuízo de não se fazer nada, embora dessa tragédia seja fundamental que se crie protocolos para lidar com futuras situações do gênero. Em segundo lugar, evitar análises precipitadas e esvaziar juízos de valor, especialmente em se tratando dos administradores públicos e dos “especialistas em tudo” que costumam dar o ar da graça com seus livros em punho sempre que ocorrem eventos trágicos. Em terceiro lugar, tratar de reaproximar-se, na medida do possível, da rotina anterior à tragédia. O grifo é para não deixar dúvidas: essa tragédia criou marcas que não serão apagadas de jeito nenhum — e nem devem. O problema é perder de vista a perspectiva de viver novamente, agora com essas marcas tão profundas. Porque a outra opção, deixar de viver, é a impossibilidade de novas possibilidades, inclusive a de retomar a posse, ainda que mínima e precária, de si mesmo. Essa volta deve levar em conta todas as escolas, não apenas aquela onde ocorreu o massacre. Não há criança que saiba do ocorrido e que neste momento não esteja no mínimo insegura sobre o lugar que frequenta diariamente. Professores, pais, direção, comunidade, é preciso que todos dialoguem sobre o ocorrido. Ao menos nesse item há consenso. Em quarto lugar, agora sim, baixada a temperatura das primeiras horas, discutir aspectos associados à tragédia, embora não sejam causadores da mesma: os papeis atribuídos à escola em nossa sociedade e o quanto contribuímos para que esta dê conta deles; a questão do desarmamento; a discriminação (racial, de gênero, religiosa, socioeconômica etc.); as políticas de inclusão social; a maneira de veicular notícias em casos como esse etc. Enfim, seriam só alguns dos pontos a tratar, há certamente outros. E não se trata de obter consenso, mas da permanente negociação entre todos os segmentos da sociedade. Afinal, não podemos depender de tragédias como essa para que ocorra esse tipo de negociação.

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7 respostas para Ahá, eu sabia!

  1. aiaiai disse:

    ok, não dá para dizer que a gente sabia que ele ia fazer isso porque era misogino…Nem vi nenhuma pessoa dizendo isso.

    O que eu e várias outras pessoas estamos ressaltando (a mídia não, veja bem) é que até agora a única coisa certa é que ele entrou na escola para matar meninas. Isso sabemos não só porque o número de meninas mortas e feridas é muito maior do que o de meninos, mas também pelo depoimento de crianças que estavam presentes no massacre e sobreviveram.

    Isso não significa que todos os misóginos vão tomar atitudes semelhantes. Apenas ressalta o caráter machista da nossa sociedade que empurra homens para o caminho da misoginia. Basta que alguma mulher os trate mal.

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    • Ricardo C. disse:

      Não devemos ser cegos aos fatos, aiaiai, e salta aos olhos o número de meninas mortas em relação ao de meninos. Ainda assim, por irresistível que seja, certas conclusões, certas falas com ar de definitivas sobre as motivações do sujeito não são tão facilmente sustentáveis. E o combate à misoginia, essa praga milenar, não precisa do Wellington, estou certo disso. Ao contrário do que costuma acontecer, desta vez não assino embaixo do que você ressalta, aiaiai.

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  2. silvia disse:

    meu amigo querido, como sempre suas palavras que acalmam meu desejo de dizer, nesse caso, gritar algo que nos ajude a compreender a realidade.
    Ontem, quando meu filho de 12 anos chegou em casa e pude puxá-lo para um abraço demorado, sentir seu cheiro, tocar sua carne plena de desejos, sonhos e necessidades, percebi que me falta o distanciamento necessário para qualquer afirmação neste momento.
    Sua reflexão, absolutamente necessária, me ajuda a respirar melhor e desejar continuar vivendo e agindo na medida do possível para um mundo melhor.

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