10 respostas para Uma réplica pobre de quem bloga cada vez mais devagar

  1. Catatau disse:

    Não li ainda o texto do Cava (que tem textos admiráveis!), mas do jeito que você pôs, esse debate é interessante e respinga em todos os outros sobre “emancipação” (e tb numa certa postura em que alguns bloggers deveriam tomar mais cuidado).

    Pior que, se a noção de doença mental não é um produto do capitalismo, não seria tão difícil assim hoje em dia encontrar análises históricas a mostrar que os dois são siameses. Mas – e aí está o problema de muitos dos debates sobre emancipação – é complicado dizer que palavras de ordem como “fim à psiquiatria!” ou reformas ou coisas do gênero sejam coisas efetivamente isentas daquilo que criticam.

    É mais ou menos o mesmo com todos os debates, o racial, o de gênero e o da sexualidade, por exemplo: diz-se (e certamente coloco aqui de um jeito breve e não gostaria de ser mal entendido, pois definitivamente não defendo as formas antigas) que todos devem se emancipar para vivermos numa sociedade diferente e mais livre; mas enquanto as palavras de ordem persistem, o tal “capitalismo” se reorganiza, alarga-se e acolhe a própria diferença. Em certo sentido foi assim com a mulher, está sendo cada vez mais com a questão racial, e agora ocorre também com as antigas “sexualidades desviantes”: o “capitalismo” se reorganiza e amanhã podemos consumir coisas customizadas para as novas tribos.

    E, se olharmos um pouco mais atentamente diversos críticos do século XX (interessante o próprio Szasz auto-criticar seu romantismo), muitos deles chamariam a atenção ao papo do parágrafo acima servir apenas para parte do problema: por exemplo, certamente é bom, e melhor, não haver preconceito hoje enquanto ontem havia; mas o problema não é apenas esse, e no fundo (no nível do que torna os problemas possíveis) nem seria esse. Basta lembrar por exemplo do Deleuze e do Guattari falando do “devir esquizo” de um lado e do louco transformado em “trapo” de outro. Não se trata simplesmente de retirar o louco da condição de trapo deixando-o numa condição mais respeitável (“respeito”: velho valor capitalista); tratava-se sim de fazer agenciar ou atravessar os devires-outros “dentro” de nós mesmos. Grosso modo a idéia não era tornar o Outro igual, mas o Mesmo diferente.

    Por isso, propagar por exemplo o fim disso ou daquilo é algo que pode resultar em jogos estratégicos bastante incertos, especialmente quando tratamos de mudanças institucionais. Propagamos uma mudança institucional sem darmos atenção à reformulação das instituições que ocorrerá depois da crítica.

    Frédéric Gros publicou há pouco um editorial (Politiques de la ‘psy’) que vai mais ou menos nessa direção. Realmente há uma psicologização cada vez maior de nossa sociedade, a ponto disso ser um assunto político (e “bio-político”). Nesse sentido o fim ou não das instituições ou discursos psiquiátricas não afeta o problema de fundo, grosso modo o da psicologização da sociedade (ou da confissão generalizada, para dizer diferente). Pode-se até mudar o termo de “psi” para outra coisa, mas permanece o problema de fundo, o dessa inspeção e controle cada vez mais capilar de cada gesto humano.

    Enfim, não li ainda o texto do Cava, certamente você e o Cava estão ciente dessas coisas acima, mas o assunto é interessante!

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    • Ricardo C. disse:

      Caríssimo Catatau, é sempre um privilégio ler um comentário teu por aqui. São muitos os aspectos que você comenta, todos interligados ao capitalismo e sua característica mor: sua constante reorganização. Vejamos: a questão das emancipações, das mudanças institucionais, da psicologização da nossa sociedade (que não seria realmente afetada pelo fim das instituições e discursos psiquiátricos)… Tanta coisa!
      Algumas transformações até se dão em níveis bastante profundos, revolucionando o que está ao redor; mas a capacidade de reordenamento e assimilação dos movimentos oriundos da margem é até mais poderosa do que esses mesmos movimentos. Nesse sentido, mais do que propor a extinção disto ou daquilo, buscando um ideal emancipatório que pretenda acabar com as tensões, vale manter essas mesmas tensões entre os atores e instâncias sociais, já que é na esfera tanto do diálogo quanto dos debates e mesmo bons combates (nada a ver com intervenções bélicas, que conste) que os seres humanos encontram soluções criativas e potentes para os seus impasses, dificuldades etc.

      Grande abraço

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  2. Catatau disse:

    Ah sim, há uma expressão muito bonita que parece ter um horizonte político também muito interessante, do pessoal ligado à autonomia italiana: “radicalização democrática”.

    Ela é muito interessante pq chama atenção não a medidas, mas à não interrupção das medidas.

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  3. André Egg disse:

    Ainda tenho que ler tudo com mais calma, e vou voltar aqui, inclusive para os comentários do Catatau.

    Só queria dizer pra incluir TDAH na lista. E é um assunto que me interessa muito discutir, talvez por e-mail.

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    • Ricardo C. disse:

      Em função de sua lembrança, acabei de pôr um colchete no post, André, com link para o sítio da Associação Brasileira do Déficit de Atenção.

      Abraços e aguardo o seu email.

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  4. Bruno Cava disse:

    Mestre Ricardo,

    Parabéns pela réplica bem-ajambrada.

    Se a incursão no tema é recente, a inquietação é antiga, e mesmo biográfica. O ensaio encerrou de golpe, porque a opinião que tenho do assunto ainda permanece um tanto amorfa.

    A cientologia tem se metido em muita coisa, mas você enxerga uma impregnação ideológica do CCHR? ou é só uma associação contingente? eu não vi além disso. Se houver, des-recomendarei o site.

    Me parece um site muito bem montado, argumentativo, que propugna pelo consentimento esclarecido, por oferecer alternativas ao “tratamento padrão”, por uma proposta heterodoxa porém não esotérica. Panfletário (e porque não militante), com efeito, mas como não ser, como enfrentar a publicidade com textos mais acadêmicos? Tem seus direitos essa sintaxe, hein? com todos os senões e considerandos? como proliferar saberes menores sem se render à ambição por sínteses grandiloquentes ou tratados exaustivos, cujo final tétrico será mesmo as prateleiras de alfarrábios? em certas ocasiões, o escritor não deve se permitir errar *deliberadamente*, como estratégia prático-discursiva, não deve suspender o juízo sobre seu próprio juízo, e voar como Icáro sobre o labirinto de argumentos?

    Confesso que o “excelente” foi concessão, caberia um “muito bom” ou “incontornável”.

    Não vejo como descolar a questão da loucura (nas suas infindáveis modulações contemporâneas) e da psiquiatria sem passar pela análise do sistema capitalista. Por óbvio, não se trata do capitalismo à moda das fábricas manchesterianas de Marx ou de alfinetes de Smith. O tratamento dos loucos não funciona (somente) para a pessoa ir trabalhar, no sentido de acordar cedo e cumprir o expediente nove-às-cinco.

    Refiro-me ao capitalismo cognitivo, que manipula culpas e ressentimentos, investe a produção de subjetividade, explora o trabalho imaterial, expropria a circulação livre de conteúdos e afetos. O Catatau veio forte com essa dimensão biopolítica, que não refoge à psiquiatria.

    Busco um norte nesse debate pra-lá de intrincado e desafiador, e o uso (social) do Rivotril me parece bastante promissor como ponto de partida, pois aproxima interlocutores.

    Um abraço e obrigado pela atenção.

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    • Ricardo C. disse:

      Inquietações nos movem a todos, Bruno, e quando acompanhadas de reflexão e abertura ao diálogo (como é o caso do que você costuma escrever) têm um enorme potencial para produções de monta.

      Para começar, por algumas respostas que você deu no teu próprio post ficou mais claro que pretendeu ser mais uma provocação do que uma análise mais detida sobre essa “ciência mais perniciosa” chamada psiquiatria, só para retomar uma expressão de efeito que você usou e que combina com o tom demolidor do próprio sítio da CCHR. Você pergunta se vi impregnação ideológica da cientologia no CCHR, e te digo que não fucei o sítio tanto assim como para apontar claramente onde estaria o dedo dela. Mas, ao mesmo tempo, suas ações, seus defensores e seus propagandistas são razoavelmente conhecidos, além do poderio econômico por ela amealhado ser significativo. E como algumas de suas “técnicas” e “equipamentos” (o eletropsicômetro ou E-meter, p. ex.) têm propaladas pretensões terapêuticas, o ataque à psiquiatria parece mesmo ser parte de sua política. (Tem uma matéria bacaninha na Superinteressante sobre a cientologia, de julho de 2008. Se é que já não a conhece, vale passar os olhos nela.) O que me chama a atenção é que o psiquiatra Thomas Szasz, uma figura histórica, polêmica e com críticas pertinentes e ainda atuais em relação à psiquiatria (especialmente ao seu exercício nos EUA), siga associado a essa comissão. Como sugeri no post, a lista de 25 razões para abolir a psiquiatria não é boa, seja porque muitas delas mais parecem um panfleto daqueles do pós-guerra contra a ameaça comunista, seja porque muitas das condições ali descritas não correspondem à realidade do que se faz nessa área nos dias de hoje. Enfim, é um sítio bem feito, que usa termos com cara de científicos, títulos acadêmicos (não procurei outro além dos do dr. Szasz) e afirma ser composto de uma pá de gente séria (a citação em inglês que pus lá em cima no post). Mas isso não faz dela uma instituição de respeitabilidade já posta à prova. Enfim, definitivamente eu não assino embaixo de um sítio fundado, subsidiado e capitaneado pela igreja da cientologia, por melhor que sejam a sua apresentação e os depoimentos, boa parte provavelmente sinceros, daqueles que se dizem vítimas da psiquiatria.

      Quanto à relação entre loucura, psiquiatria, indústria farmacêutica e o capitalismo cognitivo, embora concorde que essa relação se dá, não vejo uma fórmula tão redondinha entre as partes tal e qual sua explanação sugere, como se conteúdos e afetos pudessem ter uma perspectiva de livre circulação caso não fossem prisioneiros desse capitalismo cognitivo. Há graus de liberdade, há tensões e espaços de negociação, não apenas vontades, desejos e crenças institucionalizados, reificados. Quando penso nos já meio velhos movimentos surrealista e antropofágico, que ainda guardam uma semente de vitalidade, uma intenção transformadora, dinâmica e com capacidade de renovação a despeito de terem sido devidamente incorporados ao mainstream, consigo manter-me animado com esse mundão em que vivemos. E quando penso na luta antimanicomial aqui mesmo no Brasil, que bebeu na fonte da antipsiquiatria de Cooper e Laing, na psiquiatria democrática de Basaglia e nas ideias de Szasz, algumas das críticas ao que seja o papel e mesmo o espaço da psiquiatria na sociedade contemporânea me soam datadas e esquemáticas demais diante das próprias transformações tanto da disciplina quanto da sociedade, sem contar as pesquisas sobre questões neurofisiológicas a cada dia avançando mais num dos terrenos que ainda estão longe de serem bem conhecidos.
      Ah, só um adendo em tom de blague: esse tal Rivotril, amigo do Frontal, ocupa o posto que foi do Lexotan, que por sua vez foi tomado do Valium…

      Abraço

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  5. Pingback: O Pensador Selvagem

  6. Bruno Cava disse:

    Pretendo aprofundar o debate e articular a inquietação, no futuro.

    Achei curioso você associar ao marxismo um caráter esquemático. O marxismo é a corrente teórico-política menos dogmática e esquemática que existe. Um saber que se reconhece precário, histórico, contingente, submetido à implacável autocrítica e tenaz redirecionamento. Nesse sentido, o capitalismo cognitivo consiste num esforço por redimensionar Marx, ou melhor, extrair um Marx minoritário a partir das transformações dos trabalhos e das lutas nas últimas décadas. E sem cair em jornalismo filosófico (o problema de Hegel, que viu em Napoleão a razão a cavalo), pois ancorado nas lutas concretas, na organização (política) da produção (biopolítica) de valor, nas dinâmicas intensivas do desejo. Veja bem, falo da tradição marxista, não de degenerações de almanaque ou de salão, que acometem qualquer ferramental discursivo. Mesmo porque no momento em que o marxista se enclausura numa identidade, fecha-se para a práxis (auto)transformadora. Como disse Foucault, o problema do marxismo nunca foi Marx, mas alguns marxistas.

    Abração.

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  7. Pingback: Como a psiquiatria pode destruir a juventude. | Quadrado dos Loucos - Prosa, crítica, crueldade e desejo.

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