Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Querida irmã,

Você me pediu notícias de ontem, mas não vai dar pra te contar muita coisa agora, já que acabei de chegar e tô tentando ligar a tevê para saber o resultado do desfile das escolas de samba. Mas enquanto procuro o raio do controle remoto posso te adiantar uma coisa: essa história de desfilar na Marquês de Sapucaí é o mais próximo que existe da representação do inferno. O Hieronymus Bosch, tadinho, não teria tido imaginação suficiente para pintar um quadro fiel do que definitivamente só pode ser coisa pra quem gosta muito, mas muito mesmo de samba, e você bem sabe que nesse quesito sou zero, nota zero. Mas já que comecei, deixe eu tentar resumir um pouco o que aconteceu, entre uma nota nove ponto oito e outra nota dez.  (Droga, a Beija-Flor ganhou. É marmelada, só pode, mas outra hora eu falo disso, deixe eu continuar.)

Primeiro a gente foi lá pelas oito e meia da noite pra casa da fulana, aquela mesma, junto com umas oitenta pessoas que sairiam de lá pro desfile. E sabe como é, tudo povo de teatro, a molecada a mil, falando aos berros, bebendo, comendo (comida, tá?, que havia crianças no recinto e a casa era de gente direita, que fique logo registrado), cantando e dançando o samba da escola, repetido tantas vezes que se fosse disco de vinil tava mais que furado. Aliás, sabe o que é pior? Que mesmo com essa repetição toda eu nunca acabei de decorar o desgraçado. Ah, minha preta, bem que eu queria pôr a culpa na idade, mas você bem sabe que sempre fui uma negação pra decorar o que quer que fosse. Em todo caso, como achei a letra uma mistureba só, resolvi que desta vez vou dividir a minha desmemória com os compositores, combinado? Mas bora seguir adiante, que ainda estou no começo do resumo.

Só sei que na casa da fulana estava tudo muito bom, tudo muito bem, mas era hora de aboletar-nos nos dois micro-ônibus e nas três vans que o pessoal alugou. E que bom que resolvemos sair cedo, porque era óbvio que aquelas fantasias enormes não iam caber junto com a gente. Resultado: já comecei tendo que ir separado da Rê, o que não me deixou lá muito bem-humorado. Mas tudo certo, o espírito era carnaval, então a tolerância ganhou alguns metros de corda que por sorte não serviu para me enforcar. Pelo menos não até o ônibus largar a gente embaixo de um viaduto na Av. Presidente Vargas, um tantinho longe do Balança mas não Cai, o prédio onde disseram que deveríamos nos concentrar. Pera um pouco, vou fazer um mapa pra você (e se estiver muito pequeno, clique na imagem que ela aumenta):

1) Ó, a bolinha laranja é o viaduto onde o ônibus largou a gente, quase todos com dois  daqueles sacos de lixo pretos, enormes, onde estavam as nossas fantasias. (A Rê e eu, que de bestas não temos nada, trocamos as nossas dias antes do desfile. Acontece que a original era pesada como quê, e nós não somos mais dois meninos cheios de energia pra gastar, né? No que fizemos muito bem, as nossas respectivas lombares até que não estão se queixando muito não.)

2) A seta tracejada laranja aponta pro Balança mas não Cai, onde disseram que deveríamos nos concentrar. Deveríamos, do verbo “não era lá”.

3) A linha azul é o que tivemos que andar, carregando os tais sacos-de-lixo-pretos-enormes, pois toda a área até chegar ao maldito Balança tinha grade. De qualquer forma, como disse no item 2, descobrimos que não era bem no prédio, mas sim onde marquei com um X laranja. Aliás, veja uma amostra do nosso amontoado esparramada pelo chão:

O lugar em que nos posicionamos era em frente do portão da área onde as escolas se arrumavam antes de entrar na Sapucaí. E para alegria da gente, pouco a pouco todo o povo dos micro-ônibus e das vans acabou se encontrando por lá. (Alguns aí de baixo você vai reconhecer logo.)

Era gente a não poder mais. Até o Michael a gente viu dando o ar da graça por lá, muito simpático, parecendo não se importar em aparecer junto com o amigo com quem conversava animadamente.

Mas deixe eu voltar pro ao mapa.

4) O tracejado verde foi o trecho que tivemos que andar, já vestidos, até encontrar a ala que nos cabia.

5) E pra acabar com essa frescurada de desenhozinho em mapinha, falta só a linha azul clara indicando o início do fim. Ou seja, da curva em diante finalmente entramos na Marquês de Sapucaí.

E no clima de desfile do primeiro grupo, acho que já gastei quase todo o tempo regulamentar e daqui a pouco os juízes me tiram pontos. Sendo assim, deixe eu correr com o resto da história. Como te disse, a maratona começou às oito e meia e só por volta da uma da manhã chegamos na concentração. E o porquê de chamar a festa de maratona? É que a escola só saiu às 3 e meia da matina. Foi o pequeno intervalo em que ficamos plantados no meio da rua, envoltos por uma suave fumaça de churrasquinho de gato — o envoltos foi pra tirar o foco do churrasquinho de gato, que por sinal de suave não tinha nada —, acompanhados pelo Michael, seu amigo, pelos milhares de integrantes da escola, mais uns cento e trinta e nove bêbados e quatrocentos e cinquenta e seis vendedores de cerveja, sacolé e sei lá mais o que, numa espera de só mais  uma horinha — vá fazendo as contas, agora são duas e meia da madruga. Isso até abrirem o portão para que os carros alegóricos e os componentes da escola entrássemos. Só que não era para ser fácil, então nessa hora quase fomos esmagados, pois os seguranças gritavam “só entram os carros!, só entram os carros!”, e ficamos imprensados entre os brutamontes e aqueles carrinhos tão pequenininhos… Mas brasileiros que somos, usamos de toda nossa ginga e malemolência e vencemos os trogloditas, subimos na calçada e começamos a nos arrumar enquanto passavam os carros, a maioria belíssimos. Já devidamente paramentados, eu ensaiando alguns trechos do samba que nunca consegui cantar completo, saímos andando em busca da ala perdida, que como mostrei no mapa, era uma das primeiras a sair na escola. Foi quando finalmente encontramos os da nossa espécie, tão belos como nós, e só me ocorreu lembrar daquele filme dos pinguins-imperador, todos reunidos com um mesmo objetivo, enfrentando toda sorte de percalços e intempéries… Porque sim, começou a chuviscar enquanto nos aproximávamos dos da nossa plumagem, e assim que estávamos todos reunidos, o chuvisco virou temporal. A chuva durou, deixe eu ver, quase uma hora. Faça mais contas: agora são quase três e meia da manhã. Então finalmente começamos a andar e os puxadores a aquecer suas vozes cantando um samba da escola que eu nem ideia tinha qual era, até por fim ouvir os acordes e o primeiro refrão do tal samba que não consegui decorar, depois ver a escola fazer uma suave curva para a esquerda, a minha preferida, e finalmente entrar na avenida, em meio a fogos de artifício. E não é que eu, esse sujeito que você conhece há tanto tempo, o avesso do avesso do avesso do avesso do avesso do carnavalesco, cantei até ficar rouco e me acabei de dançar até o desfile terminar, sendo definitivamente um dos mais animados da minha ala? Pena que nem deu pra ver a escola até o fim, porque na dispersão fomos solenemente expulsos com o argumento de que a escola perderia pontos, e sendo eu agora um veterano, com cartão de milhagem sapucaiense e tudo, saí obediente junto com a minha consorte, as fantasias metade na mão, metade no corpo, andando pelas ruas estreitas e mal iluminadas do entorno do sambódromo, entre poças d’água misturadas com um blend de urina de meio mundo — aposto que tinha a de algum egípcio de ressaca pós-Mubarack —, até finalmente entrarmos no metrô, ensopados e não propriamente cheirosos, chegarmos em casa às 5:30 da manhã, deixarmos metade das fantasias penduradas do lado de fora, lavarmos as sapatilhas para livrá-las do cheiro de mijo, tomarmos banho, deitarmos, acordarmos meio-dia e meia e nem bem nos livramos das remelas — eu, porque você sabe que a Rê é como você, não tem dessas coisas —, ligarmos a televisão só para ver as reportagens sobre o desfile…

É, minha irmã querida, a história está toda aí, resumida (hehe); E quero te dizer que essa experiência me fez descobrir algo que ninguém que já tenha desfilado na Sapucaí bancou de me contar. É que o desfile de escolas de samba tem um patrono, e patrono daí das Europas, sabia? Não, não é da terra que você adotou. Como te disse, ninguém comenta e se bobear todos vão negar até a morte, mas o sujeito é um austríaco de nome pomposo que só ele. Você já ouviu falar da figura: ele atende pelo nome de Leopold von Sacher-Masoch. Sério, duvido que encontre essa informação em qualquer compêndio sobre o carnaval, mas a mim não resta nenhuma dúvida a respeito. Sim, porque com toda essa epopeia, tenho uma confissão a fazer: se eu tiver outra oportunidade, desfilo de novo no ano que vem. Tá bom, podendo pular uma parte, dispenso o blend de mijo na barra da fantasia e nos sapatos. Mas o resto eu traço, mole mole.

Bom, agora deixe eu desligar este computador e descansar um pouco, pois amanhã é dia útil e nem faz tanto tempo assim que cheguei do bloco “Me Beija que eu sou Cineasta“, o último deste ano, até segunda ordem.

Beijos masoquisticamente carnavalescos,

Seu irmão

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