A chuva cai lá fora

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Você vai se molhar e o resto do samba está no linque, não vou cantar não.

Daquelas chuvas fininhas, paulistanas, que ainda pela manhã resolveram atrapalhar o exercício de cidadania foliã de boa parte dos cariocas, assim como os meus planos de pintar as paredes da sala, que andam pedindo tinta há tempos. Daí a zanzar na internet foi um pulo, com inesperados e consideráveis efeitos colaterais. É que esbarrei numa lembrança, a do filme O Casamento de Maria Braun, o primeiro do Rainer W. Fassbinder que assisti na vida. De quebra, dei de cara com a atriz polonesa (e musa de Fassbinder) Hanna Schygulla, protagonista daquele e de tantos outros filmes do diretor (As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, Lili MarleneEffi Briest, Berlin Alexanderplatz só para mencionar alguns dos que vi), além de ser dirigida por gigantes como Marco Ferreri, Volker Schlöndorff, Ettore Scola, Jean-Luc Godard, Andrzej Wajda, Carlos Saura, Wim Wenders e chega de enciclopédia, não?

Mas esse bando de nomes próprios cheios de consoantes, verdadeira tortura para os blesos, não veio com a chuva ou com as lembranças. A maioria estava ao alcance de alguns cliques e só apareceu aí em cima para engrossar um pouco do pouco que tenho a dizer. E ainda por cima nem é bem do filme O Casamento de Maria Braun que tratam essas lembranças, mas sim das circunstâncias em torno dele. Explico. Quando assisti pela primeira vez — porque foram mais de duas, faltou dizer —, foi numa sala de cinema em Brasília. Não lembro qual a classificação que deram para o filme, mas sei que pude assisti-lo sem medo de ser barrado. Vi do alto dos meus 16 ou 17 anos, tempo  em que eu perseguia filmes “difíceis”, daqueles não só importantes para a boa formação cinematográfica de um adolescente, mas que também atendiam ao jeitão de intelectual cineclubista com o qual eu me identificava. (A precisão histórica exige: no máximo pseudointelectual.)

Já a segunda (ou terceira) vez foi em 1987. Recém chegado ao Rio de Janeiro, fui convidado para uma sessão de vídeos na casa de uma colega de faculdade que nunca mais vi. Se dela não recordo nem o nome, do filme eu não esqueço. Pra começo de conversa, de todos os títulos que pretendíamos assistir, quem escolheu O Casamento fui eu, feliz por poder rever a minha antiga musa numa interpretação que me marcara tanto. Além do mais, era a primeira vez que eu veria um filme “cabeça” em vídeo, não só porque eu não tinha um videocassete, aquele fantástico aparelho que permitia reproduzir filmes e agendar gravações com anos de antecedência — mesmo que nenhuma emissora tivesse programação prevista para tanto —, mas também por não conhecer muita gente que tivesse um. E com pipoca, almofadões pelo chão e boa companhia, tudo parecia perfeito. Parecia. Isso até chegarmos à primeira meia-hora de filme, onde algo muito ruim se deu. Diria que para mim foi algo inaugural, não exagero chamá-lo de situação-limite. Por motivos até ali não muito claros, aquele não era o mesmo filme que vira seis ou sete anos antes. A Hanna Schygulla estava lá, linda, mas o encanto não era o mesmo. Claro era o ambiente, já que era de tarde. E Maria Braun, que eu guardara enorme e hipnótica, não parecia à vontade naquela tela de 20 polegadas. Primeiro, a distração. Depois, o tédio. Por último, o sono. Cochilei várias vezes, até finalmente propor aos que me acompanhavam aquilo que provavelmente estavam doidos para dizer, mas não bancavam: gente, foi mal, eu também estou achando chato. Bora parar de ver o filme?

Foi nessa sessão caseira, vinte e quatro anos atrás, que a relação quase devocional que eu tinha com o cinema começou a fazer água.

Nunca mais foi a mesma.

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6 respostas para A chuva cai lá fora

  1. Rafael disse:

    E a minha foi assistindo a Je Vous Salue Marie. Dormi no filme. E aí lá se foi o respeito.

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    • Ricardo C. disse:

      Que me perdoem os que adoram quebrar protocolos, mas penso que nem toda fronteira deve ser ultrapassada. Algumas, só mesmo se o que se deseja é entornar o caldo.
      Perder o respeito então é uma grande merda — mesmo que alguns “peçam” para serem desrespeitados —, e como qualquer merda, não dá para voltar à fronteira anterior.

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Diego Viana disse:

    Mas o Fassbinder te marcou bastante… você compartilhou vários filmes dele naquele blog que eu te indiquei sem indicar, hehe.

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    • Ricardo C. disse:

      Claro que sim, Diego, foi um diretor muito importante para o meu olhar de cinéfilo. Ainda vou revê-lo, ele vale muito a pena, só ficou registrado o quão ruim foi vê-lo em vídeo pela primeira vez e como essa experiência acabou marcando essa dessacralização da minha relação com o cinema.

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  4. Pingback: O Pensador Selvagem

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