Não confunda

Eu tenho alguns amigos heterossexuais, feministas e dominantes. Eles lutam contra a cultura do estupro, trabalham a favor dos movimentos em defesa do direito ao aborto, e questionam os seus privilégios sempre que é necessário. Eles não tem problemas em trabalhar subordinados a mulheres e gostam de ouvi-las; caramba, são até mesmo amigos de dominadoras e, apesar de não interagirem com elas sexualmente, eles as respeitam como iguais. Então, como podem esses homens bons, gentis e igualitários se excitarem e se divertirem amarrando e surrando suas namoradas?

É porque suas namoradas consentem. É porque suas namoradas gostam. Não é porque homens devem dominar as mulheres porque homens são homens, mulheres são mulheres e é assim que funciona. É porque são dois amantes, um que se excita sexualmente em provocar dor e dominar, e outro em sentir dor e ser dominado.

Saber fazer essa distinção é fundamental para que se avance nesse debate e se consiga ir além dos maniqueísmos habituais em torno do tema das relações interpessoais (escolho esse termo por abrangerem questões de gênero assim como de geração, de classe social, inter-raciais, interculturais etc). E se você não se identifica ou mesmo sente engulhos em relação às preferências dos homens e das moças dos parágrafos acima, isso não faz a menor diferença, já que não é o seu desejo (nem tampouco o meu) que está(ão) em pauta — ou como já foi (muito bem) dito em relação à temática racial, não é sobre você que devemos falar.

Mas interessa sim que a sua eventual avaliação pública sobre esse ou outros assuntos traga consigo o respeito pela diferença, o respeito pelo outro. Enquanto por alguma razão qualquer você precisar que esse outro queira o que (e/ou como) você quer, diga o que (e/ou como) você diz e faça o que (e/ou como) você faz, a distância que você estabelece em relação ao seu próprio umbigo ainda não chegou perto do mínimo razoável para lidar com a complexidade do mundo em que você vive.

Ah, o título do tumblr de onde saiu esse texto é perfeito em relação ao tópico: “sex is not the enemy“.

[Dica da Lu, do “é bom pra quem gosta“. E obrigado ao Alex por dar um jeito na tradução porca que eu tinha arrumado.]

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3 respostas para Não confunda

  1. Olhar Saturno disse:

    Como cada vez que releio um texto seu me espanto com o novo olhar que surge, com o que não tinha percebido antes e que agora me salta aos olhos, espero que a próxima visita a este teu post me mostrem que dolorosas sessões de alongamento valeram para estender ao menos um pouquinho a distância entre meu umbigo e meus olhos miopes (que tendem sempre se aproximar dele prá “melhor focar”).

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  2. Olhar Saturno disse:

    Nossa, reli o MEU comentário e parece até que “malhei” o tema… bom, não é nada disso. É sobre a miopia em geral (minha) sobre vários temas, que seus posts ajudam a colocar em outra (em várias)!! perspectiva.

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  3. Pingback: Ricardo C.

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