Ando devagar porque já tive pressa

Tivesse dormido até tarde, teria sido acordado por gritos histriônicos. Tudo bem se fossem os gritos da Norma, pois bastaria reclamar com ela (ou dela). Acontece que não conheço ninguém com esse nome; os gritos foram da norma, uma “senhora” que ultimamente anda com gosto em excesso adolescente, que se enfastia com a sutileza — nos casos em que a reconhece —, com os silêncios, com os vasos vazios (que a todo custo quer encher) e com os semi-tons. A pluralidade que ela defende só tem cores primárias, verdades individuais (gritadas a plenos pulmões para que todos as ouçam, especialmente os que não precisam delas), correrias, explosões e hormônios, muitos hormônios (inclusive sintéticos, caso os naturais andem em falta). Para ela, o prazer e a felicidade são exigência onipresente, e ai de quem não os perseguir sofregamente: é certamente um loser (sim, em inglês mesmo), já que tudo de competição se trata. Essa senhora não vê como essa corrida toda, movida a drogas para disfunção erétil, não resulta em mais prazer, apenas em entumecimentos excessivamente prolongados. Rumamos para uma sociedade priápica. Cacete, como isso vai doer.

Sorte minha não ter dormido até tarde. Os berros dessa tal norma vigente não me acordaram no susto e nem acabrunharam o meu ânimo, fazendo-me querer ir às compras na farmácia mais próxima. No máximo renderam o parágrafo aí de cima e alguns tuites hoje de manhã. É que além de trazer comigo a languidez de algumas imagens (e sabores) recentes, lembrança de deliciosas experiências, tenho a sorte de vários amigos, parentes, colegas, conhecidos e interlocutores que também veem graça em ritmos mais lentos, baianos como eu (desde que distantes do reinado de Momo). E na contramão da dona norma, todos eles conseguem reconhecer o papel regulador da angústia em suas vidas — que apesar de doer, ajuda a criar anti-corpos contra a inautenticidade —, o lugar do azul e das dores, e não tratam de eliminá-los a qualquer custo assim que eles dão o ar da graça.

A vocês, pois, que felizmente não desaprenderam a viver, mando abraços, beijos e o meu muito obrigado. E sempre que puderem, tomem um banho de rio, andem muito a pé e apreciem a paisagem e as pessoas ao redor. Ah, sigam também as diretrizes da minha irmã mais nova, sábia como ela só: substituam seus relógios por calendários. Terão mais tempo para sorver cada gole, seja de chopp, vinho, água ou beijos. De vida, pois.

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10 respostas para Ando devagar porque já tive pressa

  1. Helê disse:

    Delícia de post, Ricardo, belíssimas imagens, quase sinto cheiros e texturas. Um post sensorial. E divertido tb. Excelente, em resumo 🙂

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    • Ricardo C. disse:

      Curtinho, de preguiçoso, misturando um monte de coisas que conversamos pelo twitter hoje de manhã. Com tudo o que escrevi fica óbvio que você faz parte da lista dos amigos de que falo no post, né? 😉

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      • Helê disse:

        Ai, Ricardo, como vc não é o Alex, eu posso pedir pra vc consertar, eu quis dizer “quase sinto cheiros e texturas” – embora o quando possa parecer uma construção pouco ortodoxa, hohoho.
        Bem, modestamente eu achei que estava em algum lugarzinho na cadeia alimentar, talvez entre os interlocutores 🙂 Ah, e sua irmã, heim? Sabe tudo.

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      • Ricardo C. disse:

        Consertar? O quê? 😛

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  2. Fundamentais: o ritmo mais lento, o papel da angústia, os banhos de rio, os goles de chopp e de vida. Como disse a Hele, um post sensorial e delicioso.
    Beijão!

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  3. Olhar Saturno disse:

    Ai, Ricardo, obrigada por escrever sobre o “lugar do azul e das dores”. Sei que foi só prá esta cabecinha dura parar de achar que tá com lepra nos seus pensamentos… rsrsrs

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  4. Olhar Saturno disse:

    Ó: referenciei teu texto. Em momento oportuno referenciarei o “Sêmen” (pelo menos é meu projeto, mas tou tão longe dele que ainda não encontrei o momento… :/).
    Beijos!
    Olhar

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  5. Pingback: O lugar do azul e o da dor « Desesperanto

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