Resolução para 2011

Seguir refletindo sobre os meus preconceitos, especialmente o meu machismo.

Depois da campanha eleitoral e das eleições penso que o tema do machismo deveria ter sido objeto de debate mais profundo na blogosfera, sobretudo na blogosfera mais à esquerda. Só que ele acabou lateral, sem que lhe dessem a importância devida (para não variar). Quando se leva em conta que elegemos uma presidenta, por sinal fortemente atacada durante a campanha eleitoral por questões que não deveriam ser objeto de discussão — o fato de ser solteira, alguns apontamentos sobre o que seria “falta de feminilidade” da parte dela etc. —, essas sim questões realmente laterais, vemos como ainda engatinhamos na centralidade do que deve ser debatido. (A esta altura do campeonato você deve estar cansado de saber de que discussão sobre machismo eu estou falando; mas se não souber, segue como referência textos de Cynthia, Lola, Niara, Renata, Paulo e Idelber.)

Se sou mesmo machista? Claro, assim como você — não importa que sejas mulher. Ligeira atenuante (espero que também te sirva): talvez o grau, que acredito não ser dos maiores, e a frequente reflexão sobre o tema, mais do que necessária. Sejamos honestos: é praticamente impossível ser homem e não ser machista, por mais que lutemos contra, reflitamos sobre e nos questionemos sempre. (Se fores homem, sugiro fortemente que você leia este texto do Alex sobre o seu, o meu, o nosso machismo. Vá lá e depois volte… ou não, talvez lá baste.) Agir assim é um empreendimento para a vida inteira, mas é preciso entendê-lo como um horizonte, não como um lugar que se possa alcançar e pronto, está tudo resolvido. (É como tratar dos dentes. Você pode ir ao dentista uma vez por ano, mas tem que escovar os dentes diariamente. Só uma vez por mês não funciona.) E o pior: quando o esforço para não ser machista é real, bem mais do que um mero jogo de cena, por vezes é tentador cair no lugar de sujeito super bacana e que por isso quer não só reconhecimento, mas aplausos. Tudo por conta do que supomos ser tarefa tão árdua para os membros do universo masculino, tão contra a corrente, que mereceríamos uma medalha por isso. É uma pena, pois a reflexão sobre o próprio machismo deveria ser algo tão óbvio como respirar.

Cá no Brasil homens brancos, de classe média para cima, heterossexuais, pretensamente monogâmicos, em grande parte dizendo-se religiosos (praticantes ou não) e costumeiramente defensores da propriedade privada, não são o alvo preferencial de atitudes preconceituosas. Sofrem com o preconceito alheio de forma pontual, episódica, mas não de maneira inerente a alguma condição específica — caso das mulheres e dos negros, por exemplo. Sendo assim, se algum desses homens (melhor dizer, se algum de nós) vez ou outra receber de qualquer minoria (ou maioria discriminada) uma bordoada que considera imerecida, melhor evitar abrir o berreiro. Não que chorar não seja legítimo, direito de todos, simpático até quando se trata de um homem (branco, de classe média para cima, heterossexual e blá blá blá), mas é meio ridículo ficar posando de perseguido e vilipendiado, não? Na comparação com outros grupos, esse tipo de sofrimento deve vir com aspas quádruplas, porque duplas é pouco.

E agora, uma historinha que ouvi em primeira mão, de que gosto muito e que volta e meia conto. Segunda metade dos anos 80. Gabriela Leite, ex-prostituta e fundadora da ONG Davida (uma entrevista com ela aqui), numa palestra a estudantes de psicologia diz que prefere ter que debater sobre prostituição com a ala mais tradicional da Igreja Católica (eu ia dizer “conservadora”, mas seria um truísmo) do que com os seus setores mais “à esquerda” (ia dizer “progressista”, mas poderia soar a provocação), como a Teologia da Libertação e afins. Habituada a falar do assunto e sabendo que aquilo deixara a plateia perplexa, explicou que os mais tradicionais condenavam o comportamento das prostitutas, diziam que elas deveriam “sair da vida” e parar de pecar. A essas falas, ela e suas colegas de ofício simplesmente diziam “não obrigado, estamos bem assim” e seguiam em frente. Já com a outra turma a conversa era outra — uma não-conversa, por assim dizer. Essa ala vinha com um discurso de que elas eram vítimas do sistema, exploradas por ele, que não sabiam disso e que eles estavam ali para dizer o que era certo, qual o comportamento verdadeiramente libertador que elas deveriam ter. Nesse sentido, eram muito piores do que a ala tradicional pelo simples fato de negar-lhes a voz, a vontade própria, por tratá-las como se precisassem de tutela, de representantes que decidissem o seu destino, já que “não sabiam o que faziam”. (Tal e qual a política externa dos EUA, que costuma defender a livre-determinação dos povos, desde que seja a sua concepção mui particular de livre-determinação…) Trazendo para o papo do machismo, um dos principais problemas dessa discussão é o fato de que uma das partes envolvidas — a que sofre na pele com ele — costuma ter a sua voz negada de mil maneiras, seja porque outros que não elas tomam-na para si e arvoram-se em donos da bola, digo, do discurso, seja por não receberem a devida atenção, por verem-se desmerecidas, com sua importância diminuída, e com outros que não elas definindo o que é ou não necessário discutir.

Enfim, em 2011 prometo seguir atento ao meu machismo. Estou certo de que não darei conta em todas as ocasiões, mas sei também que tenho um monte de amigas e amigos que apontarão os meus excessos se (ou quando) acontecerem. Patrulha? Besteira, reclamações legítimas. Cabe a mim dar-lhes ouvidos e posicionar-me a respeito, concordando ou não. E nada de aplausos, porque, convenhamos, saber que ainda precisamos discutir sobre isso, a esta altura dos acontecimentos, dá é cansaço. Agora com licença, vou almoçar e depois escovar os dentes, passar fio dental…

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14 respostas para Resolução para 2011

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Pingback: Ricardo C.

  3. c* disse:

    rc, o tempo passa, tudo passa,
    menos meu amor e admiraçao por vc
    agora por exemplo, se pudesse te abraçaria até o sufoco !

    obrigada pelo prazer, te desejo um ano “novo” e brilhante

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    • Ricardo C. disse:

      Menina, há quanto tempo! Saudades tuas, viu? E recebo com uma alegria danada esse teu abraço, devolvendo na mesma medida. (Dois “sufocados”, hehehe!)

      Beijos, esperando que você esteja no calor e feliz, não na neve danada que anda fazendo estragos em alguns cantos

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  4. Pingback: O Pensador Selvagem

  5. Silvia disse:

    A DO REI…
    eu também vou ficar de olho no meu machismo, aliás tenho ensaiado algumas exposições por aí, inclusive na rede…
    quer saber, defendendo a liberdade e os direitos iguais das mulheres, já passei por “alienada”, “lobamaníaca”, “fácinha”, “dada”…. acho até graça, é bem a cara de quem não me conhece, mas calma… vou chegar lá…. e quem saber merecer tais denominações.
    No fundo o que mais tem me irritado é o machismo das mulheres… este sim é absolutamente: INSUPORTÁVEL!
    Ricardo Cabral, para mim você é simplesmente uma das pessoas que mais adoro ter conhecido e poder chamar de amigo…
    Lindo! adorei seu texto, parabéns!
    bjs

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    • Ricardo C. disse:

      Grande amiga, que bom te ler por aqui. E vc tem razão, como é frequente a desqualificação às falas das mulheres. Falta tanto para sermos uma espécie realmente bacana, não?
      Beijo grande, que bom que vc gostou das minhas mal traçadas

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  6. Com o perdão de José Dias, “parabensíssimo” pelo texto! Está excelente.

    Penso que já estou bastante avançado em conter o meu machismo porque “inocentes” piadas envolvendo submissão doméstica da mulher, que outrora me agradavam até pelo gosto do proibido, ofendem-me profundamente. Não, não é que dou uma risadinha interna e logo me contenho. Nem isso mais.
    E ainda, quando alguém vem me contar uma dessas, eu respondo com um baita dum sermão, procurando mostrar que não existe piada machista (no sentido definido pelo Alex Castro) “inocente”.

    O RPG Vampiro diz que todo vampiro tem uma “besta” interna. Com 14 anos, eu lia isso e pensava “bããã, legaaaaaal”. Dia desses, reli isso e pensei: “Cacildis, é óbvio que isso é uma metáfora para os nossos próprios impulsos primordiais destrutivos e preconceituosos! E de como temos de CONSTANTEMENTE lutar contra eles! Freud for the win!”

    Enfim, é uma caça aos nossos próprios fantasmas.

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    • Ricardo C. disse:

      Siga nessa trilha, meu caro HwbB, é o melhor que fazemos pelos que estão ao nosso redor. E espero conseguir te seguir de perto. Empenho garanto que não faltará.

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      • Obrigado.
        O problema é que, rapidamente, você ganha fama de “chato” e param de te contar as piadas. Mas a turma continua a contá-las entre si.
        Desse modo, não sei se “ser chato” é a melhor estratégia de combate. Às vezes me pergunto se a estratégia de “infiltração nas linhas inimigas” do Fallout 2 é melhor.

        Acho que cabe uma explicação, porque Fallout 2 é um jogo muito desconhecido, mas um dos melhores EVER.
        É um RPG de computador em que… bem, é um RPG. Tem NPCs, missões, submissões, múltiplas escolhas de como fazer a mesma coisa, piadinhas e referências culturais – por exemplo, você pode encontrar um homem guardando uma ponte que lhe faz 3 perguntas, e você pode devolver uma pergunta e fazê-lo explodir.

        Numa certa cidade (Broken Hills), humanos e mutantes convivem pacificamente. Mas há um grupo secreto de ódio aos mutantes lá. Só que você só consegue botar a turma na cadeia se você chegar dizendo que odeia mutantes – assim, eles te admitem no meio, atribuem-lhe um assassinato (claro, você pode escolher ser um racista total e seguir em frente) e você vai até a polícia e conta tudo. Você ainda pode ir até a cadeia tirar um sarro da cara deles e ser deliciosamente xingado de “traidor”.
        Contudo, se você chega dizendo que tem amigos mutantes, você NÃO consegue jogar os caras em cana porque eles não confiam em você. Precisei terminar o jogo umas 3 vezes para sacar isso.

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  7. Luiz disse:

    Grande Ricardo,

    Acho que meu machismo está razoavelmente sob controle, pelo menos é o que a minha (parca) capacidade de autocrítica indica…

    Acho que, em matéria de preconceito, devo me concentrar em infernizar a vida dos meus amigos agnósticos… kkkkk

    E quanto a 2011, minha resolução é: emagrecer, emagrecer e emagrecer. Que o cardiologista tirou meu couro na última consulta…

    E perder a preguiça de atualizar um certo boteco…

    Abração enorme e um belo Ano Novo.

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    • Ricardo C. disse:

      Meu velho, já vi que deixastes ao menos um recado no teu blog, então espero que seja um bom prenúncio para este ano que começa, com menos machismo, uma presidenta que não decepcione as nossas elevadas expectativas sobre ela e muita curtição no teu apê novo.
      Grande abraço

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  8. El Torero disse:

    Se fosse para relatar manifestações de machismo as primeiras que me viriam à cabeça seriam partidas de mulheres. Presenciei outras de homens, mais descaradas, radicais e nojentas, mas não são as que mais me marcaram, talvez por esperar uma tomada de posição mais firme de alguém que sempre esteve submisso, oque é uma loucura.
    Gostei particularmente deste trecho do Alex, ‘A feminista mais radical não tem como ser pior do que o machista mais brando.’, que demonstra o quanto o meu lado feminista tem que ser muito bem trabalhado e cultivado para não ser anulado por minhas escorregadelas machistas.

    No mais, um forte abraço e o desejo de um 2011 lindo pra ti e pros teus.

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    • Ricardo C. disse:

      É compreensível que o machismo nas mulheres marque, especialmente pela surpresa e decepção de ver algumas delas agindo de um jeito que deploramos no gênero masculino. Mesmo assim, devemos seguir atentos ao nosso machismo, como você frisou.

      Grande abraço e espero escrever um pouco mais por aqui para ter o prazer de suas visitas

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