Começando pelo vinte oito, termina não sei quando

Domingo, 28 de novembro de 2010, sol desses que teremos saudades quando o verão de verdade chegar. Tropas de todas as armas entraram no Complexo do Alemão, tiros de todos os calibres foram disparados, gente morreu.

Eu disse gente.

Assim que a poeira baixar, pouco se falará dos abusos dos representantes do Estado. Não só porque falta  a essas histórias o caráter épico e a dramaticidade dos grandes espetáculos, mas também porque o discurso da “guerra contra o tráfico”, do “retomar o território” parece que tudo justifica, com essas “questões menores” não passando de típica conversa mole desses esquerdinhas de bar, desses merdinhas que falam em direitos humanos para defender bandido que não veem como a insígnia do Bope, aquela caveira transpassada por um punhal, representa claramente a superação da morte e é totalmente “do bem”, o que qualquer criança de cinco anos entende, não é? Não é?!?!

Domingo, 28 de novembro de 2010, e o mar da praia do Arpoador em tons verdes e azuis, água transparente e de temperatura perfeita. Na contramão do carioca médio, fazia um tempão que eu não ia à praia, menos ainda no Posto 7. Ao meu lado, como de costume, pessoas das comunidades do Morro do Cantagalo, Pavão Pavãozinho e estou certo de que da Baixada também. (Do Alemão é improvável.) Debaixo das barracas noto alguns jornais — O Globo, O Dia, Extra e Meia-Hora —, lidos no ritmo lento ditado pelo calor e pelo ir e vir de corpos com aquela displicência torneada em anos de praia que, lamento dizer, não é qualquer um(a) que sabe trajar.

Curioso:  a palavra “guerra”, tão grosseiramente instrumentalizada nos últimos dias (na verdade, anos), tem aparecido bastante nas chamadas dos telejornais e nas manchetes e colunas dos jornais impressos, mas não a vejo tanto na boca dos banhistas. E olha que, como em qualquer trecho da orla da cidade, aqui também há “de um tudo”, como frequentemente se diz, inclusive aquelas recorrentes falas classistas, os discursos totalitários e preconceituosos e as torcidas urrando a favor dos capitães Nascimento da vida. E mesmo deploráveis, quando essas falas são ditas pelos moradores da cidade — eu disse cidade, território muito maior do que a Zona Sul e a Barra — não dá para demonizá-las pura e simplesmente. “Décadas de insegurança tornaram a população do Rio sedenta por demonstrações de força governamental, e ansiosa por míticos banhos de sangue que eliminem os bandidos da cidade”, pondera Maurício Santoro.

Sobre os últimos acontecimentos e a respeito da violência cotidiana da cidade, é difícil manter-se crítico sem deixar de torcer pelo sucesso das UPPs. (Para começar, vale dizer que são apenas doze treze num universo de mais ou menos 1200 “assentamentos precários informais”, informa o Instituto Pereira Passos, embora o tráfico e a criminalidade em geral não se estendam a todas como supõe o imaginário de uma pá de gente.) Claro que essas unidades não são “a” solução, sobretudo porque vale perguntar que tipo de questão que se busca solucionar. Dá até para dizer que para muitos bastaria apenas com que a criminalidade diminuísse e o resto poderia até ficar como está, contanto que não incomodasse… Mas mesmo esses poderiam mirar olhar mais longe, para além dos seus umbigos e da noitada de sexta-feira que vem, entendendo que as UPPs não passam de uma iniciativa entre tantas a serem implantadas a curto, médio e longo prazo na cidade. Afinal de contas, tratar a desigualdade social do Rio como mero caso de polícia (leia-se repressão) é perpetuar o que de pior a elite carioca e seus representantes públicos fizeram (e ainda fazem) de sua cidade. É querer que ela siga para poucos.

Sinto muito, mas não dá.

Por sorte a política também dá voltas. Mesmo o atual prefeito, cuja trajetória me impediu de elegê-lo, parece engajado e mais do que apenas bem-intencionado em relação a projetos para a cidade que vão além de uma maquiagem para os eventos esportivos de 2014 e 2016. Estou de olho comprido no Concurso Morar Carioca, um “Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precários e Informais” que visa “selecionar equipes multidisciplinares, coordenadas por arquitetos, para elaborar projetos de urbanização em diversas favelas na cidade do Rio de Janeiro”. O que já sei sobre ele é que será muito mais ousado e abrangente do que o “Favela Bairro”, o “Morar Legal” e o “Bairrinho”, e que até 2020 — apenas dez anos, pois — a cidade informal deverá tornar-se sistematicamente formal. E o mais importante, não apenas em função de meros projetos de arquitetura, é preciso frisar.

Segunda-feira, 29 de novembro, e o calor de ontem já deixou saudades de tão ameno. Pior ainda na área do Alemão, onde noticia-se que algumas áreas as casas e o comércio estão sem água e sem luz, assim como para as famílias enlutadas das cinquenta — eu disse cinquenta, não cinco — pessoas mortas desde o domingo 21-11. (E para os chegados em frases como “não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos”, torço para que não sejam parentes de alguma das vítimas.) Sigo na mesma cidade onde blindados têm circulado por favelas, onde se aplaudiu de pé aos Tropa de Elite 1 e 2 e onde dias atrás repórteres perguntavam se o conflito invadiria a Zona Sul da cidade, sua maior preocupação aparente. É a minha casa há 23 anos, e nela há muito mais complexidade e nuances do que as notícias parecem dar a entender. Nem só de traficante, policial corrupto e/ou covardemente violento ela vive. É muito mais do que uma classe média e alta preconceituosa, alienada e conservadora. Garanto a vocês que há muitos — eu disse muitos — que há bastante tempo vem dando passos largos na tarefa nada fácil de criar um Rio de Janeiro menos desigual. E aposto que pelo menos uma pequena parte dessa gente passará no Arpoador depois do expediente de hoje, só para dar um mergulho, aplaudir o pôr do sol e gritar mate!, mas com limão.

(Se der, vou juntar-me a eles.)

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8 respostas para Começando pelo vinte oito, termina não sei quando

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Ricardo,

    Ótimo e preciso texto. Como você lembrou, as questões sociais, da mesma forma que no final do século XIX e início do XX, ainda são tratadas como “casos de polícia”.

    A desigualdade social se manifesta claramente em todas as circunstâncias da atuação repressiva. Quando um condomínio de luxo sofre o chamdo “arrastão”, no Rio ou em São Paulo, é nítida a preocupação dos policiais com a discrição e leveza dos procedimentos, para não importunar os moradores. Nas implantações dessas UPPs e invasões de comunidades, a operação é escancarada, os projéteis são distribuidos indiscriminadamente e o ápice é atingido com as invasões e revistas brutais de todas as moradias, sob o pretexto de encontrar eventuais indivíduos escondidos.

    Não existe fundamento, no Estado de Direito, capaz de autorizar busca e apreensão indiscriminadas em milhares de domicílios. Mandados de busca e apreensão são, por natureza, individuais, com nome, endereço definidos e, principalmente, com a especificação e o motivo da busca. Qualquer atitude que escape desse fundamento é, por definição, arbitrária, injustificada e ditatorial.

    Os anos de chumbo, baioneta e prisões arbitrárias foram extintos apenas para certos estratos organizados da sociedade. Para as massas despossuidas, o cotidiano permanece cercado por caveirões, fardas e tiros disparados contra bolsões que ousam, das maneiras disponíveis, contestar a permanência de séculos de opressões econômica, política e social. A senzala agora é muito maior, os revoltosos de Canudos sairam dos sertões e se esparramaram, mas sempre existem capatazes e lanceiros dispostos a realizar os tradicionais e lamentáveis desígnios das elites. Devido à carência atual de talentos intelectuais, temos necessidade de muitos Euclides da Cunha para narrar os crimes que se cometem sob o argumento pífio de defender a lei e a ordem com ações que as negam na prática.

    Sinceramente, duvido das alegações formuladas pelos repressores a respeito dos incêndios de veículos e supostos atentados, que teriam sido cometidos por delinquentes. Acredito que tenham sido planejados e implementados justamente para causar comoção e servir de pretexto às ações repressivas.

    As atuais articulações militares, que visam “preparar” a cidade para os eventos de 2014 e 2016, lembram a barbárie eugênica e cosmética que invadiu o Rio de Janeiro nos preparativos para o famigerado Congresso da ASTA, em 1975/1976. Poucos cariocas se lembram, mas minha memória (morei em Copacabana, naquela época) guarda a agressividade dos órgãos de repressão, então protegidos pela censura à imprensa, encarregados de maquiar a cidade para agentes de turismo internacionais que, para desgraça dos despossuidos, escolheram a cidade como sede do Congresso daquele anos. Houve muitas mortes não noticiadas, muitas invasões de comunidades indefesas, prisões incontáveis e as inexoráveis operações de pinturas de bancos de praças, trocas de placas, polimento de estátuas e grande, muito grande faturamento de hotéis e restaurantes. Os marginalizados sociais foram literalmente proibidos de circular na zona sul.

    Por ironia, as comunidades que sofrem o tradicional “preparo” da cidade para a Copa de 2014 e a posterior Olimpíada, serão justamente as impedidas de assistir, observar o movimento ou ganhar algum tostão com os jogos. Duvido que os moradores do Alemão, similares e adjacências tenham condições de chegar aos estádios porque, no Brasil, ainda hoje, eventos de dimensão internacional significam tragédias, sofrimentos e sangue para os despossuidos.

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    • Ricardo C. disse:

      Diagnóstico soberbo, nsca. Essa questão dos mandados de busca e apreensão com “distinção de classe” reflete bem a desigualdade incrustada em nós, esse “sabe com quem vc está falando?” que da classe média para cima quase todos usam ou almejam usar.

      Quanto aos incêndios, particularmente acredito que ocorreram a mando do tráfico mesmo, mas de um tráfico desorganizado, pé de chinelo, que tratou de replicar o que ocorreu em SP sem a organização que o PCC mostrou à época. Já havia mesmo um movimento organizado para subir o morro, nem precisava de muitos ônibus ou carros incendiados para que o fato ocorresse. Mas talvez você tenha alguma informação que eu desconheça, falo apenas como morador e pelas informações que colho aqui e acolá.

      E essa história do Congresso ASTA eu desconhecia, foi no ano em que acabava de chegar ao Brasil ainda moleque sem saber desse tipo de questões. Mas o histórico do Rio em se tratando de remoções de favelas e maquiagens para eventos é bem amplo, não me surpreendeu saber de mais esse fato.

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  3. Pingback: O pensador selvagem

  4. Azarias disse:

    Prá mim, este Alemão é Bicha. Complexo é coisa de puto.

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  5. Luiz disse:

    Cabral e NSCA matando a pau !! (ops… Imagem infeliz.)

    E as histórias de abusos (e de “colaboração com o inimigo”) continuam aparecendo… Hora de torcer (mesmo quase sem esperança) para que não sejam varridas para debaixo do tapete…

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    • Ricardo C. disse:

      Sim, o nsca sempre tem comentários onde a gente no mínimo tem que parar para refletir. Tenho sorte dele volta e meia aparecer por aqui para dar o seu parecer sobre o que escrevo 🙂

      Há muito o que fazer, e é trabalho de médio e longo prazos, não sujeitos à espetaculização midiática. Um deles é reavaliar a própria polícia — das coisas mais difíceis, penso.

      A torcida é grande, e sei que vem de todo o país. Afinal de contas, o Rio e de todos!

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