A Balada de Narayama, uma cena (em dois tempos)

[Primeiro uma sinopse encontrada — e encurtada — por aí, pra relembrar. Depois, uma cena do filme.]

Japão, fim do século XIX, um pequeno vilarejo aos pés do monte Narayama. Ao completar 70 anos de idade, seus moradores deveriam subir ao topo do monte, levados por seus primogênitos e, como elefantes velhos, esperar pela hora da própria morte, sozinhos. (Para não variar, a cena sai da memória de duas décadas atrás. De presentificadamente fiel, só o desconforto.)

Trailers acabados, um terço do pacote de M & M’s (Confetti, na época) deglutido, poltronas já com a nossa forma. Uma bela paisagem, parece verão. O verde predomina, trata-se de uma daquelas plantações de arroz alagadas, tipicamente asiáticas, onde ao longe, sozinho, vê-se um senhor curvado, parece aquele que a semeou e dela agora cuida. Quebra-se o idílio. O homem grita aos quatro ventos, que trazem consigo a maioria dos que por lá moram. O motivo dos gritos choca: o corpo de um recém-nascido — em minhas retinas é quase um close — submerso, a água cristalina, a morte também. Os gritos de indignação demonizavam o autor daquilo, não há dúvidas. Mas o crime é outro, e, novamente em choque, entendemos. A plantação de arroz era a vítima; é ela que agora sofre, contaminada por uma pequena forma humana. Despojos, aos olhos deles, (ainda) não aos nossos. A lógica daquele vilarejo, daquele povo, daqueles distantes no espaço e no tempo, rapidamente desaba sobre nós, na outrora confortável poltrona. Entendemos-lhes o porquê, por mais difí­cil que seja. E saímos arrasados. O mundo não gira em torno do nosso umbigo.

TÍTULO ORIGINAL: Narayama Bushi-ko
DIREÇÃO: Shohei Imamura
ROTEIRO: Shohei Imamura
FOTOGRAFIA: Masao Tochizawa Himeda
MÚSICA: Shinichiro Ikebe
ELENCO: Ken Ogata, Sumiko Sakamoto, Aki Takejo, Kaoru Shimamori
128 min., 1983

****************

Escrevi o que está aí em cima tempos atrás. O impacto das imagens e o desconforto por tamanho estranhamento deixaram marcas que pensei eternas, motivando-me a compartilhá-las. Eternas sim, mas não imunes às peças que a memória nos prega — mesmo à segura (?!?!) distância de Alzheimers, demências senis e moléstias dessa natureza —, pois revi em DVD o que pensei ser uma fiel repetição das imagens que descrevi no texto anterior, tão seguro de mim, e que teriam impacto menor não apenas por carecerem de novidade, mas também pelas duas décadas a mais que já disse trazer nas costas, com muitos outros filmes do oriente distante e de lugares ao meio do caminho — os iranianos, por exemplo — somados à bagagem que qualquer um acumula no trajeto.

Uma bela paisagem, parece verão. O verde predomina, trata-se de uma daquelas plantações de arroz alagadas, tipicamente asiáticas…

Disse isso? Esqueçam. A paisagem é bela, sim, mas é o branco-azulado da neve que inunda os nossos olhos, com o inverno apenas começando a derreter.

… ao longe, sozinho, vê-se um senhor curvado, parece aquele que a semeou e dela agora cuida. Quebra-se o idílio. O homem grita aos quatro ventos, que trazem consigo a maioria dos que por lá moram. O motivo dos gritos choca: o corpo de um recém-nascido — em minhas retinas é quase um close — submerso, a água cristalina, a morte também.

Nesse trecho, quase tudo é diferente. Não havia idílio, nem senhor algum curvado; não houve gritos aos quatro ventos, e nem acudiram à cena os moradores em maioria. O corpo do natimorto, que mais uma vez me chocou, fora revelado pelo degelo, sem ninguém dar nada por ele.

Sendo assim, o que sobrou? O impacto de que me pensava vacinado: perceber como esqueci, arrogantemente, que esqueço.

[Publicado originalmente em 06-12-2007, às 15:59]

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17 respostas para A Balada de Narayama, uma cena (em dois tempos)

  1. Alba disse:

    Ricardo,Eu também vi esse filme há mais de 20 anos, no Cine Bijou, em Sâo Paulo, que nem sei se ainda existe.O curioso é que a cena de que lembro, e veja bem, eu deveria fazer como você e rever em DVD – é a da velha senhora sendo levada pelo filho para morrer na montanha.Mas a lógica ainda é a mesma. Os velhos, honrados na Ásia, de maneira geral, só eram abandonados para garantir a sobrevivência da comunidade, já que representavam bocas “inúteis” por não mais poder produzir. A realidade crua da sobrevivência.:(Aliás, há um filme, bem antigo de Raoul Walsh, com Anthony Quinn, que é um quase documentário sobre a cultura esquimó – Sangue sobre a neve – que tem uma cena maravilhosa mostrando exatamente isso: a velhinha abandonada na neve e sonhando que sua morte, nas garras de um urso, na verdade faz parte de um ciclo, pois o urso será caçado por seu genro e ela voltará para alimentar a família. Achei lindo..

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  2. Ricardo C. disse:

    Acho que vi esse filme tb, Alba, e o Anthony Quinn estava mesmo soberbo nele!

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  3. pingwyn disse:

    Ao ler voce o impacto de que me havia esquecido: percebi que deixei de aprender.

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  4. confetti disse:

    linda introspecçao ! mas relaxa ricardo, esse filme “envelheceu” pra caramba em 20 anos….na época curti maromeno, vi na tv outro dia e nao consegui terminar : um saco ! o império dos sentidos que vc comentou esses dias, afe maria, forget about ! mas vc escreve bem pra caramba, obrigada pelo prazer ! beijos e amizade

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  5. Ricardo C. disse:

    Confetti, na primeira vez que vi eu gostei muito, e reconheço que ele não envelheceu tão bem assim. Mas as questões do estranhamento, dos valores e do nosso etnocentrismo, essas continuam fortes nele, e nem um pouco datadas…E fico contente de que vc gosta do que escrevo, mesmo quando discorda. Dá mais vontade ainda de escrever!

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  8. andreegg disse:

    hm, post antigo republicado?

    Mas eu não tinha visto na época, e não resisto a comentar agora, mesmo que tão tarde…

    Eu não revi o filme, só tenho as lembranças de quando assisti, há uns 20 anos também.

    Além da impactante descoberta de relações humanas tão inusitadas para mim quanto as de um vilarejo das montanhas do Japão, ficaram marcadas na minha mente aquelas cenas mais intrigantes:

    o rapaz que sai descalço na neve para fazer xixi

    a velinha que bate com a boca na pedra para quebrar os dentes que nunca caem (motivo de vergonha em seu vilarejo)

    os jovens carregando os anciãos nas costas para morrerem no topo (e um apressado que joga o ancestral montanha abaixo)

    Que eu me lembre, continua sendo um dos maiores filmes jamais realizados – pelo menos pra mim.

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    • gugaalayon disse:

      a cena dela quebrando seus próprios dentes para finalmente “subir ” a montanha e descansar congelada é marcante e sintetiza tudo.
      Um filme que não fica banguela jamais.

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    • Ricardo C. disse:

      André e Guga, quando revi o filme em 2007, justamente depois de escrever a segunda parte do post, senti realmente que ele não envelhecera tão bem, que algo do seu impacto se perdera. Talvez pela profusão de filmes orientais que sobrevieram em inúmeras ondas — chineses, coreanos, iranianos, vietnamitas, indianos, taiwaneses etc — a questão do estranhamento por conta da distância cultural tenha arrefecido… Enfim, não recomendo que o revejam com muita expectativa, porque essas imagens e sentimentos que ambos guardaram talvez percam um pouco a vitalidade.

      Abraços

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  9. El Torero disse:

    Não são 20, mas há quase 10 anos participei de uma oficina de teatro em um Encontro de Estudantes em que se trabalhava com um texto do Brecht, e era mais ou menos este enredo. Na época chamei a atenção para a similaridade com uma música caipira chamada Couro de Boi…
    Se não era isto era quase.

    Quanto A Balada de Narayama fica a dica, já devidamente anotada.

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    • Ricardo C. disse:

      Fiquei curioso com o texto de Brecht, Torero. Como não li nada do dramaturgo, seria interessante tomar contato.

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      • El Torero disse:

        Eu não lembrava de modo algum o nome do texto, Ricardo, mas procura daqui, fuça dali e a dita peça é ‘Aquele que diz Sim, Aquele que diz Não’, e segundo um dos lugares em que fui parar na rede ele é baseado em um conto japonês…vai saber!
        Abraço.

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  10. Monsores disse:

    Que você viva bastante, Ricardo.
    Um abraço

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