Conservador

Dependendo de quem nos vê, hora é claro que sim, hora é evidente que não. Sem falar nos não sei, parece que…

Em algum momento da vida (dos ditos ocidentais urbanos, de faixa que vai da classe média-alta até a D) é comum, quando não quase obrigatório, considerar-se liberal, progressista, essas coisas. No pacote, convém pregar contra a censura, contra todo tipo de cerceamento, e defender a liberdade de tudo, ou pelo menos do direito de experimentar tudo: sexo, drogas, música e bebida ruins; pouca roupa, muita roupa, roupa nenhuma; relações abertas, descaso pelas relações institucionais; defender o direito ao aborto, combater a pena de morte; ter os dois pés no princípio do prazer e encher a cara, já que o supereu não sabe nadar no álcool; queimar totens, quebrar tabus e até sentir-se no direito de cometer suicídio, por que não.

Passadas algumas décadas, fica difícil sustentar algumas dessas coisas. Mas atenção: a dificuldade reside sobretudo em sustentá-las em relação a si mesmo, à possibilidade de usufruí-las, e não em seguir aprovando-as para os demais. É que pelo menos o corpo, esse que todos somos, com o tempo vai rumando para a direita. Quer um exemplo? Bebida. Depois de certa idade, só de boa qualidade, portanto cara. Música? Bom, aqui é a sua audição se modifica, sem falar na sua relação com a diversidade (sonora, apenas a sonora), que nessa esfera tende a tornar-se mais restrita. E a quantidade? Não mais, daí o apelo à qualidade (mais uma vez cara). E mesmo os avanços tecnológicos, a biotecnologia e que tais têm alguns limites, o custo (de novo!) sendo um deles,  empurrando a maioria para a inescapável valorização do capital (financeiro, claro, mas confluindo para o capital corporal. Isso porque se desde que o homem começou a explorar o homem é sabido que o corpo é um capital, sua valorização nos dias de hoje se dá menos pelo uso fabril do que pelo febril).

Antes que alguém pergunte, não pretendo aprofundar-me (sem trocadilho) na questão do sexo, embora considere que a profusão de recursos químicos disponíveis nas farmácias da esquina, somada às “receitas” para uma vida sexual mais prazerosa, sejam tanto libertadores quanto escravizadores. Se por um lado põe ao alcance de muitos uma espécie de “terceiro tempo” da vida sexual, por outro hipertrofia as noções de performance, de competência, dando ao tema um apelo gerencial, um tom de MBA cheio de cases apresentados em arquivos PowerPoint. Aliás, se em termos profissionais fala-se em “índice de empregabilidade”, qual seria a expressão para tratar do desempenho sexual? Cartas para a redação.

Mas enfim, dizia que ser conservador depende muito do contexto e de quem faz essa avaliação, o que no fim das contas gera mais do que uma única possibilidade para como você será visto no futuro (ou no presente, se for o caso). Só não se iluda: mesmo que queira ser um(a) velho(a) safado(a), sátiro, safista ou o que for — libertário(a) e libertino(a)** também cabem na fórmula —, serás conservador em alguma medida, garanto. Sem conservar, que corpo te sobrará para poder desfrutar o que almejas?

P.S.1. Conservador, vá lá que seja. Mas reacionário não, por favor.

P.S.2. Este post é, assumidamente, uma grande bobagem, das mais rasas. Basta ver a tag.

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** Se antes dos dois eu tivesse começado por Liberal, estaria falando só do (e para o) meu amigo Alex

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3 respostas para Conservador

  1. gugaalayon disse:

    conservas tb estragam…

    E a carta para a redação:
    ‘teor de sustentabilidade’

    abç

    Curtir

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