Vergonha, indignação e um pouquinho de riso (2)

[Não sei se o título dará início a alguma série, mas não me ocorreu outro.]

Acompanho uma série muito divertida no tumbrl chamada 1001 livros para morrer antes de ler e de tanto dar risadas acabei lembrando de um livro que deveras me impressionou: “Cure o Seu Corpo”, da “professora e conferencista de metafísica” Louise Hay. Por impressionante, entenda o grau de irresponsabilidade da autora, que, gostemos ou não, tem lugar cativo entre os ícones da auto-ajuda-metida-a-espiritual, seja lá o que isso quiser dizer. E por irresponsabilidade, leia-se os absurdos que ela afirma, seja em relação à causa provável (a expressão é a que aparece no livro, então mil vezes sic) de determinadas doenças, seja no que ele propõe como forma de tratamento: um certo “novo padrão de pensamento” (sic elevadas à milionésima potência) que serviria para curar o seu corpo, como diz o próprio título do livro.

Sou totalmente contra a pena de morte, tema sobre o qual costumo manifestar-me com frequência. Mas há certas coisas que me tiram tanto do sério que chego a pensar em rever essa posição, incluindo no pacote a instauração das chibatadas em praça pública. Uma delas é a atribuição da responsabilidade do indivíduo sobre processos que não são da sua alçada, como no caso do câncer — mesmo considerando os fatores de risco1 e as pesquisas que sugerem tratar-se de uma doença moderna, relacionada a fatores como a poluição e a dieta alimentar. Pois bem, pense agora numa criança sofrendo enormemente com algum tipo de câncer. Pensou? Agora experimente dizer aos pais que seu filho é responsável por sua própria doença. Disse? Não seja tímido, vá lá!

Abaixo, algumas páginas onde a autora apresenta os problemas — que estão ordenados alfabeticamente, a gravidade de cada um não sendo levada em consideração —; a seguir a tal “causa provável” (sic ao cubo); e finalmente o “novo padrão de pensamento” (sic elevadas à décima potência) que deverá minorar/eliminar o problema.

Na primeira imagem destaco a “causa provável” da AIDS (que viria de um “sentimento de fragilidade e desesperança. Um forte sentimento de não estar à altura, de não ter valor como pessoa. Autonegação. Culpa em relação ao sexo”) e o “novo padrão de pensamento” para lidar com ela, a ser repetido feito mantra: “Eu faço parte do plano universal. Sou importante, e sou amado pela própria vida. Sou forte e capaz. Gosto de mim e me valorizo”.

A seguir, quatro problemas: Calvície (provavelmente causada por: “Medo. Tensão. Compulsão a estar sempre no controle de tudo. Falta de confiança no processo da vida”), Câncer (cuja causa provável seria: “Mágoa profunda. Ressentimento nutrido por um longo período de tempo. Segredo íntimo ou angústia que consome o ego. Sentimento de desesperança.”), Candidíase (que acomete à “Pessoa dispersiva, com frustrações e raiva. Exigente e desconfiada em relacionamentos. Abusada.”) e Carbúnculos (provavelmente causados por “Raiva venenosa com relação às injustiças sociais.”).

As moças e rapazes com celulite, parem de se punir e de guardar raiva. Perdoem os outros, perdoem a si mesmos. E se não quiserem ter tumores cerebrais, mudem seus antigos moldes e padrões, livrem-se das convicções errôneas assimiladas e deixem de ser obstinados.

O estado de coma é um pouco mais complicado, não por resultar de “Medo. Fuga de algo ou de alguém”, mas por precisar da ajuda de outros que fiquem repetindo: “Nós cercamos você de segurança e amor. Nós criamos um espaço para você se curar. você é amado.” Já a cura da conjuntivite fica por conta do próprio sujeito, desde que ele deixe a “Raiva e frustração” de lado, assim como a “Recusa em enxergar”.

Querendo evitar mordidas (de animais), pare de ter “Medo” e de ser “Vulnerável a qualquer demonstração de menosprezo”. Pelo visto os bichos sentem cheiro de autoestima baixa…

E aqui mais um exemplo que me deu asco, sequer consigo fazer piada: dizer que alguém com paralisia cerebral tem a “Necessidade de unir a família por amor” merece 100 chibatadas, não menos do que isso.

A se levar em consideração as causas prováveis de se ter parasitas e do Mal de Parkinson, um sujeito que estivesse com os dois seria uma contradição ambulante, não?

Para terminar, as moças que têm TPM queiram “Deixar que a confusão tome o controle” e “Conceder o poder a influências externas”. Repitam o mantra do empoderamento que aparece na foto e tchau TPM. Já os homens sem saco, digo, testículos para tudo isso, repitam: “É seguro ser homem”. E por favor, deixem que o amor do coração de vocês os inunde e transborde. Parece que a Clostridium tetani costuma se afogar em tanto amor.

___________

1 “Fumo de qualquer tipo, uso de bebidas alcoólicas de forma abusiva, obesidade, sedentarismo, dieta pobre em alimentos de origem vegetal, exposição ao sol em horário e quantidade inadequados e se expor a infecções relacionadas a câncer, como o vírus da hepatite B e C, o vírus do papiloma humano (HPV) e o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV)” (Dra. Alice Zelmanowicz, ABC da Saúde)

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10 respostas para Vergonha, indignação e um pouquinho de riso (2)

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Esse “livro” pode ser incluido na (enorme) estante dos desprezíveis e/ou abomináveis.

    A linguagem utilizada pela infeliz autora lembra bastante o “estilo” daquele celerado psiquiatra, que mencionei aqui antes, criador do chamado “índice da maldade”, que tem espaço garantido na mesma estante.

    Infelizmente, milhares de árvores são derrubadas para que editoras inundem o mercado com escritos dessa natureza, destinados a confundir leitores desavisados e garantir projeção infundada a seus autores.

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    • Ricardo C. disse:

      Um horror, meu caro, um horror. E aproveite para visitar o tal tumbrl dos “1001 livros para morrer antes de ler” que mencionei no início do post. Tem uns achados muito divertidos, a maioria são mesmo livros que sequer deveriam ter sido escritos.
      Grande abraço

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  3. Cynthia disse:

    Difícil te dizer o que mais me enoja Ricardo, se esse tipo de corrente que prega que, se você está doente, a culpa é sua por ter pensamentos negativos, ou sua contraparte – a junk science que fica publicando estudos pra te convencer de que, se você está doente, a culpa é sua por que voce está fazendo alguma coisa errada.

    Fumando, bebendo, comendo de mais, comendo de menos, comendo errado, se exercitando muito, não se exercitando o bastante, trabalhando muito, se estressando, tomando sol demais, tomando sol de menos.

    Veja o que diz o trechinho tirado do ABC da saúde, pra mim tão horroroso quanto o livro mencionado.

    Fato – os fatores mencionados estão sim relacionados a incidência de cancer. No entanto pessoas morrem de cancer sem ajuda de nenhum deles.
    Uma das falácias mais comuns da ciência moderna, usada pra assustar a populaçao em noticiários noturnos é usar estudos que demonstram relações como causa . Correlação não implica em causação.

    Estão dizendo aos pais de criancinhas com cancer, que a criança adoeceu por que não comeu frutas e verduras o bastante ou passou tempo demais na praia. Sinceramente não sei o que é pior.

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    • Ricardo C. disse:

      Cynthia, os fatores de risco também mudam de pessoa a pessoa, e como você diz, muita gente morre de câncer sem ajuda de nenhum deles. Hereditariedade também conta muito. Por exemplo, mastectomias preventivas são uma opção para algumas mulheres com incidência de câncer de mama na família, por mais radical que seja. E sua observação sobre correlação não equivaler a causa é muito importante.
      Mas entre a medicina tradicional e esses curandeiros impressos em papel-bíblia, fico sempre com os primeiros, somando um pouquinho de desconfiança.

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  4. Ramon Mestri disse:

    Passei 5 anos cursando psicologia, entrando em contato com essa profusão de ideias e saberes mirabolantes. O cérebro é fantástico e muito pouco se sabe a seu respeito. Nesse emaranhado de pontas soltas, indivíduos sem o menor comprometimento com avanços concretos, pois demandam muuuito tempo, resolvem questões complexas com associação barata.

    Que existe conexão entre a mente e o corpo, isso existe. Agora, vomitar insanidades como quem resolve cruzadinha, deveria ser crime.

    Existe o outro lado, também: pessoas que abandonam tratamentos legítimos (medicina tradicional, acompanhamento terapêutico) em nome de uma espiritualidade…

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    • Ricardo C. disse:

      Ramon, minha experiência discente é igual à sua, com observações muito parecidas sobre a questão, inclusive sobre a ignorância humana a respeito do cérebro e, porque não, de si mesmo.
      E esse aspecto do abandono dos tratamentos tradicionais também acontece, seja com processos ainda em estágio inicial — onde as pessoas pensam poder evitar os efeitos colaterais de alguns tratamentos tradicionais — ou quando a doença se mostra difícil de curar quando não incurável — e o desespero é o que move.
      Complicado mesmo é haver “profissionais” se aproveitando da fragilidade das pessoas. Isso sim é grave.

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  5. Guil Kato disse:

    A coisa mais louca que tem nesse livro é colocar na lista “morte”. Como assim???? Mudar o pensamento vai evitar a morte? Não sei se rio ou choro de raiva. Eu me lembro quando você descobriu essa aberração numa livraria. Foi bom lembrar disso aqui. Mas acho que estamos expostos a armadilhas tão perigosas quanto e um tanto mais sutis que essa daí… infelizmente.

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    • Ricardo C. disse:

      Pois é, Guil, evitei comentar o da “morte”, embora seja dos mais estúpidos. E é uma pena que esse tipo de pseudo-tratamentos tenham tanto espaço nas livrarias, não?

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  6. Pingback: Marcia Costa

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