“A Europa está virando mestiça. É um processo irreversível”, diz sociólogo Sami Naïr (El País)

Vejo dois assuntos recentes, claramente interligados, ainda sendo objeto de discussão em tempos pós-eleitorais. O primeiro diz respeito à agressividade e a virulência ao longo da campanha, do qual a mídia tradicional teria sido importante protagonista, e que mostrou uma face considerável na internet, em particular na esfera das redes sociais.  O segundo é a xenofobia (ou a aporofobia, que segundo uma amiga minha seria o que de fato aconteceu), trazendo à tona velhas falas preconceituosas do Sul-Sudeste do país em relação ao Norte-Nordeste. Particularmente, não sou tão apocalíptico assim. Sobre o primeiro aspecto, inclino-me a pensar como o Contardo Calligaris, que afirmou em recente artigo como o país lhe parece “muito mais maduro do que mostraram os grupos raivosos das militâncias” (obrigado por me lembrar desse texto, Monsores).

[Vale dizer que não concordo com tudo o que o Calligaris fala, especialmente sobre os então candidatos Dilma e Serra serem muito parecidos.  Talvez tenham sido no passado, sei lá, 15 ou 20 anos atrás. Hoje em dia as afinidades políticas dos dois não me parecem nem um pouco próximas.]

Quanto aos comentários contra os nordestinos — e para quem ainda não sabe, aviso que sou baiano, de mãe igualmente baiana e pai sergipano —, de que a estudante Mayara acabou virando porta-voz involuntária, é evidente que defendo as medidas legais cabíveis a quem os fez publicamente. Mas creio também que há um longo aprendizado sobre como manifestar-se no ambiente virtual — que é público, sujeito às mesmas leis que regem o nosso cotidiano, por mais que estejamos teclando do nosso quarto, de pijamas e com a webcam desligada. Essa moça, de 21 anos, vai pagar um preço que muitos não tiveram que pagar tempos atrás, quando tinham a mesma idade, simplesmente porque não houve registro (via e-mail, msn, twitter, sms e que tais) das besteiras ditas em meio a acaloradas discussões de bar ou brigas de adolescentes.

Mas nem tudo são flores. Se por um lado a nossa sociedade amadurece junto com a sua democracia, com a diminuição da desigualdade social deixando de ser promessa e começando efetivamente a ocorrer, não dá para desdenhar dos problemas dos demais países, em especial das economias centrais. Os próximos anos não prometem ser muito fáceis, sendo pouco provável deixarmos de sentir a rebarba por aqui. Em especial, estou de olho no processo que ocorre na Europa, que mesmo não sendo muito parecido ao nosso, certamente nos ajuda a refletir. Por isso resolvi traduzir esta matéria do jornal espanhol El País, resumindo as reflexões  que o sociólogo e filósofo Sami Naïr expôs no seu mais recente livro,  A Europa mestiça. Imigração, cidadania, co-desenvolvimento. À matéria, pois.

Ele costuma repetir que se há trinta anos lhe dissessem que iria dedicar boa parte de sua vida ao reconhecimento dos direitos dos imigrantes, não teria acreditado. Fato é que desde que Simone de Beauvoir lhe pediu, trinta anos atrás, que dedicasse um número especial da sua revista Les Temps Modernes ao tema da imigração na França, o sociólogo e filósofo Sami Naïr (Tlemcen, Argélia, 1946) nunca mais parou de tratar do assunto. São trinta anos de ensaios, reflexões, projetos políticos e acadêmicos mostrados no livro A Europa mestiça. Imigração, cidadania, co-desenvolvimento (Galaxia Gutemberg. Círculo de Lectores) que o autor apresentou ontem em Madri.

O autor resume o cerne da questão: como a migração está mudando a estrutura demográfica de Europa. “A Europa está virando mestiça, sua população está mudando de tecido étnico e cultural, aparecem novas crenças que lhe conferem um novo rosto. Trata-se de um processo irreversível”, escreve Naïr, catedrático de Ciências Políticas da Universidade de Paris VIII.

É uma nova mestiçagem que não tem antecedentes no velho continente, já que, lembra o autor, se nos anos cinquenta e sessenta tratava-se sobretudo de movimentos internos dos países europeus, “agora a imigração vem de todas as partes do mundo” e impõe novos desafios para os quais a Europa não está respondendo como deveria. “Um dos grandes problemas dos últimos vinte anos é que não soubemos dar legitimidade, dar presença aos imigrantes de que precisamos para construir a nossa riqueza econômica. Os poderes políticos deixaram a imigração nas mãos do mercado. E quando o mercado precisava de imigrantes ia buscá-los em condições horrorosas; quando já não precisava mais, jogou-os aos cães racistas que usam o racismo como instrumento de luta na sociedade”, disse ontem [27-10-10] Naïr, que foi contundente ao tratar da tão discutida questão da imigração: “Não há um problema de integração por haver imigração; há um problema de imigração por haver um problema de integração”.

Para o filósofo, “Se a questão da imigração for expressa em termos de identidade, não há solução e quem ganha é o mais extremista”. “Ser integrado significa renunciar a sua religião e chamar-se Paco ao invés de Mohamed? Ou a integração é continuar chamando-se Mohamed e sentir-se espanhol, compartilhando o passado, o presente e o futuro do país?”, indagou. “As sociedades europeias precisam de coesão social: valores comuns que superem as particularidades de cada um. A mistura, a nova mestiçagem das sociedades europeias deve constituir a base dos direitos humanos”.

O auge do populismo

O discurso de Naïr vai na contramão de uma Europa que nos últimos anos viu crescer o apoio de partidos xenófobos e de extrema direita até em países com longa tradição de acolhimento como a Suécia. São três as causas, segundo o autor. A primeira é “a crise econômica, que ainda vai durar e da qual não sairemos antes de 2016-2018. Significa que o populismo deverá perdurar nos próximos anos”; a segunda é a “desintegração dos Estados-nação em função do processo de globalização que esvaziou os Estados do seu conteúdo”; e a terceira, que “dá muito futuro ao populismo”, o fato de que a crise não afetou apenas as camadas operárias, as mais pobres da sociedade, mas que “existe um processo mundial de empobrecimento das classes médias que faz com que caiam mais facilmente no discurso do populismo”.

O erro de Sarkozy

Segundo Naïr, o problema é que cada vez mais “o discurso da extrema direita se desloca e recicla na direita conservadora tradicional”. É o caso da França, diz: “Alguns falam da vitória ideológica de Le Pen (Jean-Marie Le Pen, líder do partido Frente Nacional). Não chego a esse ponto, mas há algo de podre no ar”. Para Naïr, a maneira como o governo francês tratou dos ciganos foi “vergonhosa”, explicando a seguir o desenlace do confronto com a União Europeia, que não resultará em infrações contra a França. “Não a condenaram na UE porque a comissária Reding cometeu um erro: comparar o que fez o governo francês à deportação dos judeus… Foi um erro, pois não é a mesma coisa, e o governo francês aproveitou-se disso. A seguir a Comissão Europeia pediu ao governo francês que tomasse algumas medidas e este as tomou. Outro tema é saber se o governo francês teria sido condenado caso não houvesse feito o que foi pedido. A resposta é não”. Para o filósofo, isso é fácil de entender: “A Europa não existe como conjunto político”. “É um conjunto”, diz, “de duas nações, França e Alemanha, e isto determina uma relação de forças absolutamente decisiva na hora de se tomar decisões”.

[Tradução minha, erros meus.]

Destaco uma parte:

“Ser integrado significa renunciar a sua religião e chamar-se Paco ao invés de Mohamed? Ou a integração é continuar chamando-se Mohamed e sentir-se espanhol, compartilhando o passado, o presente e o futuro do país?”

“As sociedades europeias precisam de coesão social: valores comuns que superem as particularidades de cada um. A mistura, a nova mestiçagem das sociedades europeias deve constituir a base dos direitos humanos“.

Para mim há questões no texto sobre as quais nós, brasileiros, podemos e devemos refletir. Fiquem à vontade para escolher as suas.

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7 respostas para “A Europa está virando mestiça. É um processo irreversível”, diz sociólogo Sami Naïr (El País)

  1. Ludmilla disse:

    discordei exatamente do momento em que calligaris fala dos dois candidatos iguais…
    ótimo texto.
    muito a pensar.

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  5. Ricardo,

    Concordo com você e com a comentarista Ludmilla, de que é impossível apoiar a noção de Calligaris a respeito da suposta semelhança ou proximidade política entre os candidatos da recente eleição.

    Quanto ao artigo de Sami Naïr, observo um deslize bastante comum em estudos do gênero. Ao tratar das “causas”, no subtítulo “O auge do populismo”, o autor apresenta três razões que, na realidade, são meros desdobramentos da única força capaz de mobilizar processos políticos dessa natureza : interesses econômicos conjunturais, que podem acionar profundos ressentimentos históricos e se perpetuar.

    Por outro lado, convém acentuar que a atual onda contra imigrantes ocorre com sinal dirigido majoritariamente contra os de origem muçulmana que, por sua vez, não constituem grupo étnico uniforme. Árabes e turcos sustentam ritos equivalentes, mas constituem ondas migratórias para destinos diferentes (França e Alemanha, principalmente) e são grupos linguísticos e étnicos distintos.

    Por outro lado ainda, a atual onda xenófoba é irônica porque, na Idade Média, a miscigenação conformou boa parte da população européia. A chamada “Reconquista”, descrita em “Cantar de Mio Cid”, primeira obra escrita na língua de Castilla, relata a pacífica convivência e reprodução de “moros, judios y cristianos”, especialmente na metade sul da península ibérica, que inclui o atual mapa português.

    Macedônios, gregos, os atuais turcos e sua vizinhança são componentes étnicos evidentes na península itálica e suas ilhas, os quais, por sua vez, se encarregaram de espraiar secreções e genes pelo continente.

    Talvez as populações européias “menos mestiças” sejam as nórdicas, em parte pela sua incorporação relativamente tardia ao contexto europeu (me refiro ao final da Idade Média).

    A União Européia é uma ficção jurídica de caráter exclusivamente econômico, com roupagem política destinada a satisfazer ideais geopolíticos de natureza estratégica. A mera integração econômica, para se firmar, exigiu décadas de minuciosos acordos e volta e meia surgem disparidades conjunturais entre seus membros, que demandam rodadas extenuantes de novos debates e acertos provisórios.

    A integração e a unidade política da Europa constituem sonhos distantes e talvez impossíveis, dadas as disparidades demográficas, culturais e os desempenhos relativos das respectivas economias nacionais. Por enquanto, resta às políticas nacionais debater e tentar afastar as “ameaças” externas, não raro utilizadas como eficientes desculpas para o sofrível desempenho de suas economias.

    Mas ranto tanto no passado como agora e no futuro, a mestiçagem é, mesmo, irreversível, como afirma o sociólogo.

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    • Ricardo C. disse:

      Seu comentário é um verdadeiro tratado de erudição, meu caro, aprendo com cada vinda tua por este humilde blog. Quanto à questão das “causas”, como aparece no artigo em espanhol, tenho algumas dúvidas. Não sei se o termo foi usado realmente pelo filósofo ou se foi a interpretação do jornalista. Desconheço também se em espanhol o uso e o sentido da palavra “causa” são tão claros e distintos como em português, isto é, se há essa diferenciação que você e eu conhecemos. Mas como no original apareceu assim e não de outro jeito, deixei como estava.
      E a ironia da xenofobia é clara, mas é preciso lembrar que os seres humanos têm vida curta e não nascem com memórias “acumuladas”, vindas das gerações anteriores, por mais que o ambiente as carregue. Os novos, portanto, dão suma importância ao que sentem na pele e atribuem a responsabilidade aos que forem mais distantes física, cultural e socialmente deles. A busca de bodes expiatórios é sim algo com que se nasce, hehehe!

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  6. Pingback: Eduardo Antonio

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