Doeu

Preconceito é algo terrível. E eu, branco, heterossexual, classe média, pós-graduado, com um biotipo que não chama a atenção, isto é, nem gordo nem magro, nem feio nem bonito, e ainda por cima morando em uma das mais conhecidas e valorizadas cidades do país, em princípio não correspondo ao perfil dos que costumam ser alvo de discriminação. Não correspondia. Ontem eu soube na pele o que é ser julgado preconceituosamente.

O ocorrido deu-se à tarde, aqui mesmo no meu prédio, a apenas alguns lances de escada da proteção do meu lar, vejam vocês. Estava de saída para o consultório quando encontrei o Junior na portaria, sentado em sua cadeira, conversando com um simpático vizinho. Resolvi então retomar uma conversa que começáramos semanas atrás e que fora interrompida por outro vizinho, um sujeito mal-educado do prédio ao lado. (É que o Junior tem substituído o Zé, porteiro de lá, que está se recuperando de um infarto, e por isso teve que dar atenção ao tal sujeito.) As eleições, como não podia deixar de ser, foram o tema, já que faltando apenas alguns dias para o segundo turno não consigo resistir ao assunto. (Deve ser a razão de não ter cruzado com uma pá de amigos ultimamente: suspeito que eles estejam fugindo de mim.) Aproveitando a presença do vizinho simpático que conversava com o Junior, perguntei aos dois, de chofre, se estava tudo pronto e já sabiam em quem votar. O vizinho foi logo dizendo que tudo menos Dilma, o que me fez querer saber dos seus porquês, até mesmo para calibrar meus eventuais argumentos caso visse alguma perspectiva de desmontar os dele. E o Junior calado, prestando uma atenção danada na conversa da gente, enquanto os poucos pingos que começavam a cair na hora em que desci viravam um pé d’água daqueles. Do vizinho creio que consegui desmontar o que me pareceu puro desconhecimento a respeito do país que passamos a ter nos últimos oito anos, seja na diminuição da pobreza, na geração de empregos, na criação de universidades e de escolas técnicas, seja na própria recuperação salarial do funcionalismo público, ponto que inclusive foi favorável à sua profissão. E enquanto subia as escadas de volta para casa em busca do guarda-chuva que eu não trouxera, combinei de repassar-lhe alguns dados importantes sobre uma realidade do país que ele claramente ignorava, apenas com o intuito de que refletisse sobre a (in)consistência dos argumentos que até então disparara contra o atual governo — a maioria de caráter moral e fortemente enviesada, diga-se de passagem. Nos despedimos, entrei no meu apartamento, peguei o guarda-chuva e desci contente, acreditando ter balançado um pouco as convicções anti-dilmistas do meu simpático vizinho, encontrando novamente o Junior e procurando saber, agora sim, quais as suas intenções de voto, e ouvindo de volta que ele sempre votara em Lula, que votou na Dilma no primeiro turno e repetiria o voto no segundo, e que desde aquela conversa sobre eleições que o vizinho mal-educado interrompera ele carregava a crença, palavras dele, de que eu votaria no Serra.

.

P.S. Acabei de ler n’O Biscoito Fino e a Massa um belíssimo texto do filósofo Rodrigo Nunes, “O maiô de Dona Marisa, ou: quem são os verdadeiros jecas do Brasil?“. O que você está esperando? Vá e leia também!

Anúncios
Esse post foi publicado em campanha. Bookmark o link permanente.

11 respostas para Doeu

  1. Ramon Mestri disse:

    Cara, meus sentimentos…porque essa realmente doeu!

    Curtir

  2. rayssa gon disse:

    ahh ricardo.

    com certeza eu ja sofri preconceito parecido.

    uma das minha bandeiras é pela legalização, pra começar, da maconha. e , porque sou estudante de historia, as pessoas me olham como se pra mim fumar maconha fosse , sei la, pre-requisito desde o vestibular.

    e quando falo que, deusmelivre, nunca fumaria algo tão fedido e nojento as pessoas ficam sem entender.

    estudante de historia que não fuma maconha e é pro-legalização?

    homem branco, hetero e classe media votando na dilma?

    tem que vê isso aí, viu? não sei não….

    Curtir

  3. Camila disse:

    Ouch! Pior do que um dia chuvoso.

    Curtir

  4. flavia disse:

    hahahaha Ui! dói viu?
    E sobre a raissa, acho que “maconheira” ainda nao sou (ou devo ser muito ingênua mesmo!) , mas pelas bandeiras que abraço e apóio: sou lésbica, aborteira, velha, amante e negra. Não obstante, querida, jamais estive e decididamente não pretendo estar com nenhuma mulher, nunca fiz um aborto (tenho 3 filhos pq decidi tê-los todas as vezes que engravidei), comecei meu mestrado sobre envelhecimento com 24 anos, não ando com caras comprometidos (critério de escolha apriorísitico, decisivo e excludente), escrevi meu tcc sobre rebeldia escrava na praia, pegando sol até as 10 com filtro solar 50, para evitar as bolhas de sempre nesta pelinha amarelo-branquela que deus me deu (e quando era pequena tinha apelidos como “Alemoa”, gata amarela, graças ao cabelo loiro)
    Mas pensando bem sou antropóloga… claro que devo ser maconheira!
    (e ah, como sou atéia, devo ser tb muito má)
    Mas ô, Ricardo, deixe de modéstia e preconceito, vc é lindo! (pronto, Raissa: agora acabei de adquirir meu rótulo de feia recalcada!… mas esse eu já tinha como feminista, né?)
    #porquehojeésábado
    #preconceito: exerça ou sofra!

    Curtir

    • rayssa gon disse:

      to falando… olha essa flavia, toda torta.

      tbm sou ateia, ou seja, tbm não presto.

      mal frequentado esse blog, hein???

      adoro!

      Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Lésbica, aborteira, velha, amante e negra. Se eu não fosse casado, só não te paqueraria por respeito a sua orientação sexual, Flávia!

      Curtir

      • flavia disse:

        KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
        E agora ultimamente, também parte de uma “gurizada” de praia que nem sabe o que é esquerda!
        Ui (2)… Já viu como eu sofro né?
        Mas olha, me divirto um bocado, viu?
        Ps: Querido, vc não teria chance! O que ninguém suspeita é que estes olhos e coração libertino têm dono!…
        (só o corpinho não tem! KKKKKKKKKKKKK)

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s