Das tristezas e preocupações que o google me traz

Foi agora mesmo. Notei ao passar os olhos por algumas das buscas que trazem visitantes ocasionais a este blog. Entre pessoas querendo informações sobre CBO de prostitutas e demais profissionais do sexo, interessados em imagens sobre agalmatofilia e gente querendo saber o que fazer com o mercúrio quando um termômetro quebra, alguém caiu aqui pesquisando primeiro sobre vazio existencial, logo seguido por outro:

“Melhor calibre para suicídio?” Não, não sei. E aviso que se soubesse, tampouco diria. Advogo pela liberdade, pelo livre arbítrio, inclusive para tirar a própria vida. Trata-se de um princípio de que não abro mão, algo que entendo dizer respeito a toda nossa espécie. Mas o meu papel nunca será o de incentivar alguém a matar-se. Pelo contrário, sempre que possível auxiliarei quem estiver a ponto de cometer esse ato a encontrar em si mesmo os recursos mínimos para seguir apostando um pouco mais na vida, por mais absurdamente doída que ela possa ser. E conto com o fato de que boa parte dos que tencionam matar-se dão algumas pistas sobre seu propósito, e que essas pistas costumam trazer embutidas um pedido de ajuda, um “por favor, convença-me que ainda há alguma alternativa melhor do que morrer”. É quando ainda existe essa mínima chama que se pode fazer algo, pois com ela ainda é possível enxergar que a vida, por pior que seja, segue sendo a única possibilidade de novas possibilidades, enquanto a morte é a  impossibilidade de novas possibilidades.

Não sei nada sobre o sujeito que andou pesquisando no google sobre o melhor calibre para o suicídio e tampouco sei se ele voltará a um blog tão irrelevante como este. O que posso dizer é que o meu e-mail está aqui, mas que há um recurso online que também pode ser útil, o CVV WEB (Centro de Valorização da Vida), de que tomei conhecimento aqui mesmo no OPS! (obrigado, Newdélia!).

Quando percebo que alguém veio bater na minha porta em busca de recursos para matar-se, o sabor amargo que a minha gastrite deixa em minha boca aumenta consideravelmente. Tenho clareza de que não sou responsável por esse possível ato, mas nem sempre é fácil evitar o sentimento de ser um pouquinho cúmplice dele. E cá entre nós, esse não é exatamente um sentimento que eu aprecie ou deseje a ninguém.

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13 respostas para Das tristezas e preocupações que o google me traz

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. daniel disse:

    Melhor calibre para suicídio? O .50 Magnum Action Express. Não tem erro :-p

    Ok, Ok, desculpa…

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    • Ricardo C. disse:

      Desculpadíssimo, Daniel, é possível brincar com a morte, por que não.

      Na realidade, quando vi essa pesquisada que alguém deu no google também me ocorreu tratar a questão por um prisma mais leve, com algum humor, só que essa perspectiva logo virou fumaça — sem alusão à tiros, folgo em dizer —, muito em função das questões com as que tenho que lidar profissionalmente. Mas a casa não faz restrições aos demais 🙂

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      • Flávia disse:

        Putz! fiquei triste tb! Muito triste! Inclusive apagaria o comentário do daniel. Vá que algu´m leve a sério!
        Mas se queres brincar, diz aí, pô! O que eu faço com o mercúrio do termômetro que quebrou? (dia desses fiquei com esta dúvida. Osmarina resolveu no dia da faxina. ops foi mal!)
        bj, f

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  3. Pingback: O Pensador Selvagem

  4. flavia disse:

    Pô andei pelos seus links… cada coisa que esses humanos inventam! praticam, pensam, sentem sei lá…
    E ó, pro cara aqujele/a da busca: as vezes o melhor calibre é uma receita controlada: tem remedio para isso!
    Pô, fiquei mal, Ricardo!

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  5. Monsores disse:

    Ricardo, como é bom te ver.

    Quando vi o titulo do post no twitter imaginei ver aqui como lhe é normal, um monte de piadas espirituosas sobre o assunto.

    É ainda mais preocupante quando percebemos o horário do acesso – assumindo que estamos no mesmo fuso horário. Então o sujeito passou a noite de sexta-feira sozinho, com insônia, lembrando de um tempo que já não lhe pertence e que não irá voltar. Às sete as cortinas já não dão conta do recado. Não dá mais pra se aconchegar nos braços da noite que lhe é tão íntima com todas aquelas memórias, confissões e lágrimas no travesseiro, no beiral da varanda, no sofá da sala… No escuro a dor parece mais suportável.

    Ou podemos assumir que ele chegou em casa depois de uma noite que não deu certo. Pode ser também que a noite tenha sido ótima, mas quando ele acordou alguém não estava mais ali. Ou tenha dormido como uma pedra e sonhado como uma criança – um sonho que nunca vai se realizar.

    Eu poderia ficar horas aqui, mas prefiro pensar que foi um fragmento de diálogo qualquer. Falavam de Kurt Cobain e da escopeta – um exagero óbvio. Aí o amigo lhe contou que pior seria se usasse uma 22 e sobrevivesse. A vergonha do suicida que erra a própria cabeça. Acontece, você sabe. Inicia-se uma discussão. Um diz que um 357 não falharia não importa onde acertasse, o outro dia que uma 9mm faria um estrago mais garantido. Já o mais sabichão garante que a .45 com bala dum-dum é a mais indicada pelos especialistas. E no mundo moderno, o Google assumiu o papel de juiz de qualquer discussão – mesmo as mais bizarras.

    Gosto mais da última história.

    Teu amigo,
    André

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  6. Pingback: André Monsores

  7. Guil Kato disse:

    Ah… não sei o que pensar ou falar.
    Suicídio para mim sempre teve conotações ligadas ao cerimonial japonês do seppuku. Eu sempre imaginei que para algumas situações eu preferiria morrer. Não sei se de fato chegaria a fazê-lo. Penso em coisas como eutanásia e etc. Acho que a morte é ainda um tabu muito grande e as pessoas evitam tratar do assunto como se ele fosse não natural, mas acontece que morrer é tão parte da vida quanto nascer.
    De qualquer forma apesar de já ter pensado em suicidar-me em várias ocasiões por motivos completamente tolos hoje, acho que pode haver um dia em que eu resolva tirar a minha própria vida. Por isso adoro muito filmes que tratam sobre o tema. Eu acho, sinceramente, que deveria ser direito das pessoas decidir morrer, bem e com assistência se necessário. Me dá uma espécie de prazer mórbido imaginar que eu posso decidir o momento em que partirei daqui. Mas não usaria arma de fogo… faz muita sujeira…rs

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    • Ricardo C. disse:

      Sempre lembro do livro Suicídio, Modo de Usar, que emprestei a alguém que nunca mais me devolveu. Seja que amigo foi, ao menos não sei de nenhum que tenha cometido suicídio, Guil.

      Abração

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  8. Pingback: Enquanto os candidatos ao prêmio se esmeram, alguns incautos preocupam | Ágora com dazibao no meio

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