Um enorme ponto de interrogação

Antes de expor a dúvida que me inquieta, não custa lembrar que declarei meu voto em Dilma no primeiro turno, voto que pretendo repetir no segundo, sem sombra de dúvida. Digo isso para o caso de alguém pretender desqualificar essa dúvida de que falarei já já, desmerecendo-a por eu ter cara de petista ou qualquer bobagem do gênero, “argumento” que empobreceria qualquer possível conversa sobre o assunto e inclusive qualquer resposta consistente a essa questão que me assalta.

Dito isto e encurtando a conversa, vou ao ponto: tenho visto uma resistência muito forte a Dilma entre as mulheres. Você dirá que até aí morreu Neves, pois não há qualquer candidato a cargo político sem algum tipo de rejeição junto ao eleitorado. E eu ainda acrescento o fato da maioria do eleitorado costumar votar em pessoas e não em partidos ou plataformas políticas,1 algo que em tese não favoreceria a Dilma por ser ela muito menos conhecida do que o candidato da oposição, entendendo que esse aspecto — história política — tem peso a considerar. Só que o que observo é um tipo de resistência especial, não tão parecida às dos homens, embora possa ter um substrato comum à resistência deles, em parte de cunho machista (quando não misógino), mas que não estou certo de dar conta de explicar a questão. Digo isso sem estatísticas, reconhecendo tampouco ter tido acesso a qualquer pesquisa qualitativa que indicasse algo parecido. E digo isso tendo conversado muito pouco sobre a questão, daí a iniciativa de fazer isso agora.

“Não sei, tem algo nela… não confio.”

“Olho nos olhos dela e não, não dá, não gosto.”

“Fica difícil, ela é muito antipática…”

São frases desse tipo que escutei diversas vezes, inclusive ditas por mulheres que votaram/votarão nela mesmo assim. Frases sugerindo um feeling, uma intuição negativa a respeito dela, algo que em certo sentido neutralizaria a perspectiva de se ter a primeira representante do sexo feminino com chances reais de governar o país, o que seria de se esperar que tivesse um peso razoavelmente positivo nas intenções de voto das mulheres. E mais, esses argumentos não vêm de gente ignorante ou inculta — uma fala frequente entre parte dos que apoiam a candidatura Dilma —, mas de mulheres com curso superior, muitas mestres, várias doutoras, mulheres de um espectro que vai da esquerda à centro-direita, que reconhecem (e obviamente aprovam) o bom momento que vive o país, muitas dizendo inclusive que votariam em Lula fosse possível ser ele candidato a um terceiro mandato. Mesmo assim, dizem não confiar em Dilma.

[Embora este post não trate do Serra, não posso deixar de frisar o quanto esse argumento sobre eleitores ignorantes e incultos também é usado por seu próprio eleitorado, então pulemos possíveis críticas generalizadas e rasas que vão nessa direção, combinado?]

.

No primeiro turno eu coloquei cá no blog um artigo do Paul Veyne intitulado “O indivíduo atingido no coração pelo poder público” onde o autor trata das relações entre o sujeito e o Estado, “…na relação que [o sujeito] tem consigo mesmo quando obedece ao Estado ou à sociedade”. Lá pelo quinto parágrafo, Veyne diz que a motivação para escrever o artigo

…surgiu de uma perplexidade, a de ouvir alguém dizer-me: «Voto em De Gaulle por causa da dignidade da sua vida privada». Constatamos que a imagem de si dos sujeitos do soberano é provavelmente a chave daquilo que se designa por imagem de marca do próprio soberano, carisma, política-espetáculo, imagem do pai, ideologia ou legitimação.

Essa sua perplexidade tornada artigo de fato dá bem o tom não só das relações entre sujeito e o soberano, mas no nosso caso particular, entre o eleitorado e os candidatos ao lugar de soberano. Vejo muito da argumentação de Veyne dando conta de parte da minha dúvida, mas creio que exista uma zona nebulosa não compreendida pelo artigo. E por isso volto à questão: por que uma parte considerável do eleitorado feminino rejeita a Dilma nos termos que descrevi? Certo, dá para desfiar um rosário de maledicências, boatos mil e informações falsas que vêm sendo espalhados há tempos não apenas nas igrejas, templos e via e-mail, mas também na imprensa tradicional, mentiras que decerto contribuíram para o crescimento de outras candidaturas ao longo da campanha (embora esse crescimento não seja explicado apenas por isso, obviamente) e, em algum nível, para a tal rejeição a Dilma. Mas qual seria a dimensão dessas inverdades na construção da rejeição à Dilma, especificamente na rejeição feminina, com acento no eleitorado com curso superior e franco acesso à informação?

Cartas para a redação, digo, para a caixa de comentários deste blog, por favor.

E antes de terminar, quero recomendar um belo e bastante oportuno texto do jornalista Pedro Alexandre Sanches, “Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil”. Ponho aqui um aperitivo:

[…]

Hoje é 2010. Vivemos num outro século, no qual descendentes de árabes proclamam que não somos racistas, neodefensores (defensores?) dos direitos humanos denunciam o advento da “heterofobia”, neopregadores antiaborto brotam dos esgotos, neofeministas (feministas?) vencem eleições defendendo a integridade física das mulheres contra candidatos (negros) que já praticaram violência contra mulheres. Não somos mais misóginos. Em uma mulher como Gal Costa não bateríamos nem com uma flor. Agredir Dilma Rousseff?, Marina Silva?, nem pensar!

Mas aí acontece uma campanha eleitoral e de repente minhas vistas ficam turvas.

Na televisão, vejo a cervejaria Brahma fazer gracinha com o fato consumado (fato?, consumado?) de que homens (machos, daqueles que coçam o saco) gostam muito mais de futebol (e de outros homens) – e de cerveja, é óbvio – do que de mulheres.

Na “grande” mídia, leio uma famosa e formosa atriz convocando esses mesmos machos (que gostam de coçar o saco) a arrasar Dilma Rousseff nas urnas, quiçá violentamente.

No Twitter, por fim e não menos chocante, ouço um chapa dizer que viu “uma patricinha imbecil” fazer “uma conversão tão estúpida com sua Pajero que merecia uma surra”. Uma surra, entendeu? Um chapa esclarecido, percebeu? É 2010, e há gente disposta, ao menos retoricamente, a fazer com uma “patricinha estúpida” o mesmo que velhos pitbulls faziam com Gal Costa em 1969, 1968.

O monstro da misoginia mudou de cara, mudou mil caras, mas ele segue habitando o mesmo pântano em que sempre morou, e está disposto a arreganhar os dentes diante do primeiro indício de se sentir ameaçado. O monstro da misoginia odeia o sexo feminino mais que tudo na vida dele (talvez odeie ainda mais o sexo masculino, mas essa é outra parte do assunto) – e o monstro da misoginia, por ter mil caras, ocorre em forma de homem heterossexual, de mulher heterossexual, de homossexuais em geral, de minorias sexuais as mais variadas. Ocorre em todos os formatos, cores e tamanhos.

Não começa e nem termina nesse trecho. Vá lá e leia, e de preferência deixe um comentário. Mas não se esqueça de voltar por aqui para responder à minha dúvida. Quero sinceramente entender um pouco melhor essas questões.

___________

1 Um bom amigo me chamou a atenção para o fato desta eleição vir a ser o ponto fora da curva, já que a Dilma será eleita [estou certo disso!] sobretudo por causa dos méritos do governo atual e não tanto por sua pessoa.

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11 respostas para Um enorme ponto de interrogação

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Guil Kato disse:

    Interessante é que não votei na Dilma, votei na Marina, ou melhor dizendo, ia votar na Marina se tivesse ido até Friburgo (onde eu voto)… mas vou votar na Dilma nesse segundo turno. Não apenas pelas questões políticas envolvidas, mas também porque sinto tudo isso que você mencionou das mulheres sobre a Dilma, só que pelo Serra. Poderia dizer que além de não confiar mesmo no PSDB, não confio naqueles olhos de peixe morto dele, não me sinto seguro ouvindo aquele discurso lacrimejoso dele querendo se mostrar simpático.

    Mas há algo nos dois candidatos desse segundo turno que me fazem lembrar a maravilhosa cena de A Família Addams 2 no cinema, quando a pequena Wednesday (muito bem interpretada pela, na época atriz-mirim, Christina Ricci) se esforça para dar um sorriso “simpático”.

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  3. Silvia disse:

    Meu querido amigo,

    como você sabe votei em Marina no primeiro turno, não pelo fato de ser uma mulher, mas por acreditar na sua atitude relativamente independente e ética de se posicionar no processo político (apesar da questão religiosa que me incomodava bastante).
    Sua inquietude e disposição para sair da zona de conforto e mudar quando algo lhe incomoda, também me agrada muito, ela deixa claro, que antes da”candidata”, naquele corpo franzino tem realmente “alguém” que não para de pensar sobre como sustentar um diálogo democrático nos rumos que o nosso país possa tomar…

    Sinto uma sensação absolutamente oposta em relação a Dilma.

    Quando ela fala, seu discurso parece uma dublagem mal feita, favorecida apenas pelo conteúdo do texto que reproduz, facilitada pelo carisma e conquistas do governo que representa…

    A impressão que me dá é que se trata de alguém que aceitou desempenhar um papel (não sei se por vaidade ou inocência) mas que ainda está sendo construído de fora para dentro.

    Queria ver e ouvir a guerreira que ela já foi, queria sentir sua convicção sobre certos princípios, por conta de tudo o que já viveu… enfim, acho que no fundo o que rejeito realmente é a “personagem Dilma”, que a meu ver à Dilma representa muito mal, porque nem ela parece entender o que deve aparentar…

    Apesar de acreditar que também eu, me expressei muito mal aqui, quis deixar minha contribuição… ah! em tempo: mesmo assim, no Serra não voto de jeito algum!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    bjs

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  4. Pingback: O Pensador Selvagem

  5. Azarias disse:

    Nunca soube de Rosa Luxemburgo entre as mulheres; será acaso isto que provoca uma “certa distancia?”. A Dilma e Rosa não se coadunam com o papel de mamãe, vovó, titia, namorada, amada amante, esposa yanque devotada, amiga de oferecer o ombro. Será que estes modelos está fazendo falta para voces? A Dilma me parece ter o caráter de uma operária da época das fábricas dos Matarazzos.

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  6. Luiz disse:

    Ricardo,

    Na improvável possibilidade (na minha opinião, claro…) de as coisas não seguirem no rumo que desejamos, você já tem a expressão correta para usar…

    (Moçada, é piada interna.)

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  7. Silvia disse:

    Ps. tenho uma P. admiração por Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt… e para falar em operária: Simone Weil…..

    não acredito que a explicação para essa suposta resistência seja o fato da Dilma não se comportar como uma “mulherzinha”…
    (piada compartilhada)

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  8. gugaalayon disse:

    13.000.000 de votos de diferença
    (sem piada)

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  9. Certas questões são difíceis de discutir ; o enorme “ponto de interrogação” do título exprime a profundidade da relação de mulheres consigo mesmas.

    Décadas de ampliação do espaço das mulheres em todos os setores de atividade ainda não conseguiram, parece e talvez, superar o que os misóginos chamariam de arcaismo interrelacional de competição.

    De minha parte, prefiro atribuir o fenômeno dessa rejeição ao aparente excessivo cuidado feminino frente às experiências calcadas em projetos.

    Mulheres, especialmente as dotadas de formação acadêmica, parecem mais rigorosas na aceitação de projetos, propostas e discursos, sejam provenientes de homens ou de mulheres.

    Este é um tema complexo, temerário, sujeito a interpretações ríspidas e discussões apaixonadas (talvez apaixonantes). 🙂

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